Cena 1

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PEDRO na proa, sentado em uma cadeira, segura uma vara de pescar.

RICARDO entra em cena, esbaforido e molhado, subindo até o convés, vindo do mar.

RICARDO: Onde estou?

PEDRO: (sem tirar os olhos do mar) Você sabe onde está.

RICARDO: Não, não sei.

PEDRO: Onde lhe parece?

RICARDO: Em alto mar.

PEDRO: Viu? Você sabe onde está.

RICARDO: Não foi isso que quis dizer. Como vim parar aqui?

PEDRO: Se você não sabe, como vou saber?

RICARDO: (irritado) Acabo de aparecer no seu barco, do nada. No entanto, o senhor não parece interessado em saber quem sou ou como vim parar aqui.

PEDRO: Meu rapaz, por que acha que estou em uma noite de sábado, sozinho, a trinta quilômetros da costa? Não ligo pra vida dos outros.

RICARDO: Deveria. Bem, permita que eu me apresente. Meu nome é RICARDO ANDRADE. E o senhor, qual seu nome?

PEDRO: Que faz no meu barco?

RICARDO: Não vou lhe fazer mal. Não precisa ter medo.

PEDRO: Meu rapaz, de paletó e gravata, molhado assim, medo é o último sentimento que você me causa. Eu até riria, não estivesse você molhando o meu convés.

RICARDO: Eu estava no avião, voltando para São Paulo. E de repente – de repente apareci no meio do mar.

PEDRO:

Ninguém simplesmente aparece no meio do mar.

RICARDO: Bem, eu apareci.

PEDRO: Você se drogou?

RICARDO: Se eu me droguei?

PEDRO: Sim. Vocês engravatados são todos chegados em um pozinho.

RICARDO: O senhor está sendo rude.

PEDRO: E você está espantando os peixes. Eles não gostam de barulho. Nem eu.

RICARDO: Escute, eu tenho uma reunião importante amanhã cedo. Com o maior cliente da minha empresa. Para demovê-lo de ir para a concorrência. Do contrário estarei falido. Tenho que voltar à terra firme.

PEDRO: Esqueça.

RICARDO: Como assim?

PEDRO: Hoje é meu primeiro dia de pesca. Tenho mais dois.

RICARDO: O senhor não ouviu o que eu falei? Preciso voltar.

PEDRO: O barco é meu.

RICARDO: Posso lhe pagar bem.

PEDRO: Não preciso de dinheiro. Preciso pescar.

RICARDO: Poderá comprar um barco melhor do que esse. Todo equipado. Pegará dez vezes mais peixes.

PEDRO: Os que pego agora são suficientes.

RICARDO: (exasperado) Senhor, isso é cárcere privado.

PEDRO: Cárcere? O senhor está livre pra ir embora quando quiser. Só pular e nadar. Cuidado com os tubarões.

RICARDO: Há leis que impedem o senhor de me manter aqui.

PEDRO: Na terra firme há leis. Em alto mar só há uma lei: a do capitão do navio.

RICARDO: Você não é capitão.

PEDRO: Pra efeitos práticos, sou.

RICARDO: Como queira, senhor. Neste caso, acionarei quem pode me ajudar.

RICARDO tira o celular do bolso.

RICARDO: (desconsolado) Molhado... Eu sabia que não devia ter vindo. Devia ter passado o feriado em casa.

PEDRO: Sabe, nos tempos dos piratas quem subia em barco sem ser convidado era jogado aos tubarões. Hoje, infelizmente, os tempos são mais civilizados. Então por que não relaxa? E fica em silêncio - se conseguir?

RICARDO senta no convés, a cabeça baixa.

À Deriva: uma peça de teatroDes histoires addictives. Découvrez maintenant