Certo dia o povo pediu clemência a seu rei. O inverno pesava sobre seus corpos alquebrados de maioria esguios, secos, que a fome sugava.
A neve cobria tudo de brancura mórbida como um demônio polar em repouso hibernoeterno. E uma coluna cinza de nevoeiro encobria todo o castelo tornando impossível ver além de suas muralhas.
Os lamentos daquela gente que sobrevivia entre o castelo e seus muros reverberavam contra as paredes do palácio e ecoavam para todos os lados, espalhando-se e deslizando entre sulcos e frestas até desvanecerem frente às portas do grande salão onde o rei, em seu trono, se aquecia diante de uma gigantesca lareira que calorosamente chamava de “boca do dragão”.
Sua Alteza ouvia calmo o crepitar suave que emergia da entranha fumegante. Só, de olhos cerrados e imersos em sonolência ele recebia todo o calor que vinha dela até ter o descanso interrompido por batidas na porta.
- Miseráveis! – Sussurrou impaciente. As batidas insistiram. – Quem ousa importunar-me o repouso?
- Majestade – disse uma das sentinelas com a voz trêmula de frio e temor. – O conselheiro deseja ter com vossa excelência.
- Abram.
Um velho com rosto de sábio deixou seu cajado com o guarda, tirou as sandálias e entrou descalço erguendo sua túnica para não profanar o santuário real.
Sentiu um pouco de alívio quando os nervos trincados relaxaram ao se aproximar da boca do dragão que se abria em chamas logo atrás do rei como se fosse devorá-lo a qualquer momento. As labaredas refletiam sobre as múltiplas faces negras da obsidiana onde fora esculpido aquele portal para o inferno e envolvia todo o altar do trono em aura verde.
Disse o homem:
- Perdoe-me o estorvo, meu senhor, mas o povo clama por socorro. – Fez uma pausa, mas o rei não disse nada apenas balançou a mão para que o outro continuasse. E ele prosseguiu: - Reclamam que vossa majestade não tem lhes dado atenção, que o inverno tem castigado severamente e que a fome já deitou alguns. Pedem que se lembre deles... que não vos esqueça.
Depois de um tempo ponderando, o rei exclamou com entusiasmo:
- Guizos!
- Meu Senhor? – Seu conselheiro perguntou sem entender.
- Adorne-os com colares de guizos e jamais vos esquecerei enquanto tremerem de frio. Quem sabe, assim, com um pouco de música, eu não ordene que enforquem o próximo que me importunar o repouso.
O velho engoliu em seco e começou a se arrepender de ter ido até ali. Mas não havia como voltar atrás, ele era o único que podia interceder pelo povo e decidiu que o faria nem que isso lhe custasse a vida.
- Tratá-los como cabras não é bem o que eu tinha em mente... Meu senhor.
- O que então meu eloquente e sábio conselheiro sugere?
- Que o rei abrigue-os em seu castelo e divida com eles um pouco do calor de vossa imponente e suntuosa lareira.
- Basta! – Interrompeu o rei parecendo ofendido. – Já desperdicei o suficiente das chamas com você enquanto ladra como um cão a seu rabo. Não gastarei uma fagulha a mais com esses imprestáveis que não sabem ascender o próprio fogo. Está decidido: Guizos! E àqueles que ousarem tirá-los corto o pescoço e terão um bom motivo para não usá-los.
- Mas... Meu senhor, como seu conselheiro eu devo adverti-lo que...
Erguendo-se do trono e inclinando para o velho com uma expressão severa ele disse:
- E como seu rei devo adverti-lo que se não sair imediatamente também será presenteado com igual adorno e se juntará ao povo lá fora.
E assim fez-se a vontade do rei.
Houve pouca resistência em aceitar os guizos. A maioria da população não tinha mais forças para protestar, nem entendiam como aquilo poderia os ajudar. Mas todos sabiam que aquela estranha ordem não passava de mais um dos caprichos do rei que sempre os tratava como bobos da corte. E, no entanto, ninguém ousava contrariar suas decisões, pois atrás daqueles muros era seu único lugar seguro e que além deles não havia proteção. Por isso era preferível viver como marionete a ser expulso e arriscar perder a vida do lado de fora por desobediência.
E agora, para satisfação dos prazeres excêntricos de seu governante, eles eram obrigados a usar coleiras ou ter sua morte, já anunciada pelo inverno, antecipada.
Que fossem os guizos, então! Pois melhor é resistir a uma dor insuportável que não sentir coisa alguma por já estar morto, assim pensava o povo.
E o inverno ficou mais intenso. O demônio polar não parava de crescer e o nevoeiro de tão denso não se via um palmo além. Todos ali tremiam de frio fazendo os colares de sinos agitarem frenéticos e preenchendo todo o ar silencioso em volta do castelo como um prenúncio da chegada da morte branca.
Estranhamente, enquanto o restante do castelo pedia aos deuses para silenciar aquela tormenta, a melodia informe do badalar surtia o efeito contrário em seu lorde. Aquela mórbida canção dissonante ao invés de perturbar enchia os ouvidos do rei.
O frio dava o tom para uma dança involuntária do povo fazendo os guizos soarem dando o tom para o baile solitário de sua majestade que, há tempos, não se sentia tão alegre.
A música era contagiante. E tudo era motivo para festejar: o nascer do dia - apesar das manhãs e noites indefinidas -, o pouco alimento, o morrer de uma vida, seu próprio excremento, até a neve que caia pesada ou leve como o vento. Tudo era celebrado alegremente para que a música não fosse desperdiçada um só momento.
Os dias seguiram dançantes. E dementes...
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Aos Olhos do Rei (Um Conto)
Short StoryUm rei solitário e egoísta que diante de um inverno impiedoso decide "ajudar" seus súditos da forma mais divertida e humilhante. Mas o que ele não sabe é que essa decisão lhe custará a sanidade.
