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Os malditos cartazes estavam espalhados pelo meu bairro já havia um tempo.

Tinha um perto da escola, colado no muro preto do velho sobrado que à noite virava boate de rock. Outro no poste do ponto de ônibus em frente ao supermercado. E o que eu via com mais frequência estava colado no tapume de madeira do prédio eternamente em construção ao lado do que eu morava. Arrancavam num dia, no outro aparecia de novo.

Era um lance discreto, mas esquisito: 

"Larva de Vespa" e um número de telefone. 

Só isso. 

Escrito em letra preta, maiúscula, numa fonte meio batida, impact, sei lá, num papel branco, comum, folha A4.

Aí teve um dia que eu estava num tédio muito grande no meu quarto. Com calor porque meu ar-condicionado tinha pifado, de saco cheio de gostar de gente que não gostava de mim e de não conseguir gostar de quem gostava, uma barulheira absurda da obra do prédio em construção, mas eu também estava sem vontade de ouvir música...

Sabe esses dias?

Pois bem, foi nesse dia péssimo aí que eu tive a ideia de descer e ligar para o tal número da larva de vespa.

Peguei minha mochila, mais pra ter onde enfiar o guarda-chuva, e fui lá fotografar o cartaz antes que o temporal, que aquele calor insuportável estava prometendo, caísse e cagasse o papel e as letras.

Achei uma boa tirar uma foto em vez de só anotar o número. Galera fotografa de tudo por aí, né? Eu também.

Um senhorzinho estava parado debaixo da árvore em frente ao prédio em construção quando eu cheguei. Aguardava o buldogue francês rajadinho fazer cocô.

— Deve ser pra vender droga isso daí. — ele disse meio mal humorado quando me viu fotografando o cartaz colado no tapume — Ou isca pra peixe. Não pode ser nada que presta.

— Vou ligar. — respondi guardando o aparelho de volta na mochila — E ver qual é.

— Tem que ligar mesmo. Saber que palhaçada é essa. Aproveita e fala pra eles pararem de emporcalhar a cidade com esses cartazes.

— Vou falar.

Deixei ele lá resmungando sozinho e segui caminhando paro o shopping. Não ia falar nada daquilo não. Uma cidade imunda pra cacete e só porque você recolhe o cocozinho do seu cachorro já acha que não tem nada a ver com a sujeira? Nunca tenho saco pra esses papos, mas naquele dia eu estava com menos paciência ainda. Deu até vontade de voltar em casa, imprimir um monte de cartaz igual ao da foto e sair colando por aí.

Não fiz nada disso, claro. Só sentei na praça de alimentação do shopping com um copo gigante de mate com menta e liguei para a droga do número.

Tocou umas dez vezes.

Já ia desligar quando o sujeito atendeu.

Com um alô.

Já ia desligar de novo.

Número comercial que atende com "alô" não pode ser nada que presta mesmo, né?

Como eu não sou o velho do cocô de bulldog francês continuei na linha:

— É da larva de vespa?

— Aham.

— Vende larva de vespa aí?

— Aham.

— Mas é o que essa larva de vespa?

— É uma larva. De um inseto. Chamado vespa.

— Não, sério. Pra que serve?

— Pra tudo.

— Pra tudo?

— Pra tudo, pra nada, pra algumas coisas. O cliente que decide. Eu só vendo a parada.

Eu ri. Não uma gargalhada. Um risinho pelo nariz, que ele nem deve ter ouvido. Acho que era a primeira vez que alguém me fazia rir naquele dia. Talvez naquela semana. Ou no mês.

— E quanto custa essa parada?

— Quantos anos você tem?

— Isso importa pro preço?!

— Aham.

— Mas tipo importa pro preço ou você não pode vender pra menor de idade?

— Estudante paga meia.

— Estudante menor de idade?

— Vinte e cinco reais, a meia. Pra estudante menor de idade.

— E pra estudante maior de idade?

— Depende do curso.

— Eu quero pagar só vinte e cinco reais.

— Faz faculdade de medicina ou direito?

— Não.

— Então deixo por vinte e cinco.

— Valeu. Mas como é feita a entrega? Não vou te dar meu endereço.

— Eu te dou.

— O endereço?

— Aham.

— Fala aí então.

— Você tá onde?

— Não vou te falar onde eu tô!

— Se você estiver pelo bairro, eu tô no Bowl por agora.

Foi meio incômodo ouvir que ele estava tão perto. Na pista de skate ao lado do shopping. Eu de repente já poderia ter até passado por ele sem saber. 

Fiquei um instante em silêncio pensando. Tinha toda pinta de golpe o lance, mas a curiosidade não estava me deixando desligar.

Pedi para ele me mandar uma foto dele, só para eu saber quem eu teria que procurar e tal, mas ele se recusou. Disse com a voz monocórdica que ele tinha, que o celular dele não tinha câmera, era daqueles tijolinhos com jogo da cobrinha. Daquela lorota eu ri mais alto. Ninguém mais tem celular da cobrinha, né? 

Enfim, ele acabou topando descrever a roupa que estava usando sem eu ter que descrever a minha:

— Bermuda preta, regata preta, boné preto. Pra trás.

— Pô, não tá meio genérico esse look aí, não? Sempre tem gente vestida assim na pista de skate.

Posso por um gorro. Verde.

— Verde, verde mesmo?

— Que outro verde que tem?

— Verde mais pra azul, verde quase preto, verde meio marrom...

— Não. Verde, verde. Verdão. Esperança.

— Só vai ter você lá de gorro verde esperança?

— Quase certo que sim.

— Quase certo?

— Quase tudo na vida é quase certo de rolar ou não.

— Ok.

— Tá vindo então?

— Tô.

— Não demora.

— Por que? Você vai embora se eu demorar? Tem outro compromisso?

— O gorro é de lã. Esquenta muito.

Larva De VespaStories to obsess over. Discover now