minha temperamental catallena

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Todas as vezes que sua mãe gritava que ou tomava as rédeas do seu futuro indo para a aula de costura ou a acompanhava no trabalho para aprender o ofício de casamenteira, Jeongyeon respondia que ela teria que dar um jeito de arrumar uma terceira opção, porque nenhuma das opções a apetecia.  A mãe esperou até o seu aniversário de 15 anos para, de fato, dar a última chance de escolha: ou começava naquele mesmo dia como secretária da mãe ou ela mesma seria o próximo serviço da mulher. Jeongyeon decidiu então que fugir de casa era o melhor para sua vida.

Receber abrigo de um circo não era a melhor dos fins que uma criança daquela idade poderia ter, mas com certeza era melhor que ter que casar com um velho fedido. Começou limpando “só camarins” (todos) já que era nova demais e, então, na noite que fez dezoito, teve sua cerimônia de iniciação à vida adulta limpando o dejetos do elefante mais amado de público. O mais estressado. Ela nem o culpava por toda a sujeira que fazia, o coitadinho só sofria.

Todas as vezes que os funcionários como ela tinham que empacotar tudo de uma vez para fugir da polícia, ela acabava levando algumas broncas por ter esquecido alguma coisa. Era sempre ela que carregava a culpa e isso tinha a rendido meses tristes e decepcionada consigo mesma. Até que começou a esquecer de propósito, a levar para o canto no seu vagão. Já que queriam gritar com ela, era bom que lhes desse algum motivo. O circo estava ficando tão cansativo quanto sua casa e ela pensava em fugir mais uma vez.

Até que ela chegou.

Momo chegou quando o circo mais precisava: o elefante não dava mais conta das crianças em nenhuma vila, eles precisavam de algo novo. E ela não só fazia as crianças irritarem seus pais até o último fio de cabelo para darem seu dinheiro no ticket como também fazia com que os adultos quisessem voltar.

Aquele foi o apogeu. A era de ouro. E se ouro existisse em vermelho, era daquele ouro que falavam.

Ela era “O Sol Vermelho”, como dizia o nome de seu espetáculo.  Mas nós camarins, era Catallena. A pequena dançarina Catallena.

Delicada como uma bonequinha da cidade de porcelana em O Mágico de Oz e igualmente cortante quando todos achavam que ela estava quebrando ao fazer sua dança, tal como em todos seus outros movimentos e suas falas. Perfeita e brilhante como só ela, Momo era cheia de si,  e aquele era o único defeito dela. Mesmo assim todos a invejavam. Quem ela era ou o colã vermelho que vestia.

Jeongyeon também morria de inveja dela. Chegava a corroer por dentro o quanto a achava atraente. Limpava seu camarim só para sentir o cheiro que ela exalava, e algumas vezes tinha sorte de estar terminando de arrumar as coisas quando ela acabava seu espetáculo e entrava no recinto. Ficava lá, silenciosamente limpando enquanto ela a observava sentada  ofegante e descabelada na cadeira com pedras vermelhas incrustadas. Jeongyeon evitada olhar para ela naqueles momentos, se escondendo atrás do espanador.

Havia outras vezes que preferia a assistir dançando a passar aquele tempo abismal em sua presença. Quando o fazia, entendia toda sua gritaria nos bastidores, as suas exigências, os caprichos, tudo: ela era boa demais. A dançarina número um de todos os tempos, Jeongyeon diria. Talvez todo o ódio que sentiam dela ali era por isso: ela era a melhor e ela sabia. Chique e orgulhosa, Catallena.

Sem perceber, Jeongyeon tinha se apaixonado por ela. Sabia, entretanto, que não era a única. Quem não se apaixonaria por tamanha perfeição? Dentre aquelas pessoas, haviam tantas tão bonitas que conseguiriam ela. O mundo era injusto, não tinha nascido tão cheia de qualidades e não poderia ter ela para si.

Mas ela é realmente boa quando você começa a conhecê-la?

Também sabia de outra coisa. Aquela era uma coisa que só ela sabia: Momo chorava bastante, chorava feito uma torneira quebrada e barulhenta. Antes de dormir, enquanto ensaiava, mexendo na comida em seu prato, enquanto se apresentava.

CatallenaWhere stories live. Discover now