Um suspiro fumegante, se condensava na vidraça da grande janela pantográfica. A menina vestida de cetim branco se estremecia, largada no recamier —, olhava semicerrado para as árvores do lado de fora, perderem suas folhas por bufadas gélidas de um vento assassino. Uma noite umbrosa se aproximava de sua alma; ela já satisfeita, quase aconchegada nas vestes insensatas da Única Certeza Da Vida, se deixava fluir pelas arestas de um corpo ferido. Ela sorria, vistosa por pássaros voarem no céu poente. Ela sorria, por ver as folhas dançarem alegres, a uma música vinda de um disco de Vinil gasto. A música suave com tambores e harpas melodiosas, contavam os minutos restantes de um espectro atormentado, pronto para partir.
Malditos movimentos rotativos, folhas desgraçadas, comemoravam a derrota de um ser e a caída de lágrimas amarguradas? Ou apenas rastejavam-se como meretrizes, sendo cobaias e servas para levarem uma alma ao seu descanso final? Um infeliz final.
As ondas de alegria naquela bem apessoada sala, nunca mais foram as mesmas, depois que o doloroso final aconteceu. Condolências, condolências! Eram as palavras cuspidas para fora, enquanto os gritos desconcertantes, se manifestavam horrivelmente pela casa. Gritos de fantasmas já não mais presentes, fantasmas agora fixados na mente, da pobre menina. O cetim branco, demonstrava a pureza, agora já manchado pelo rubro sangue que esparramava-se rapidamente, aquilo era o pecado de um bizarro ser, abraçado a uma natureza simples, porém misteriosa e esquisita, era como uma lebre branca agonizando, por estar abraçada a um demônio. Condolências, condolências! Palavras ditas, a cada som de tiro que ecoava-se nos quartos! Mas as palavras não viam das caças reprimidas pelos seus choros de misericórdia, mas sim, da caçadora, de olhar sem emoções; de cabeça solta como o sangue que escoava das vítimas que se posicionava no carpete. Poças e poças do mais vermelho sangue. Condolências, condolências! Eram as palavras pronunciadas, enquanto a cada facada, jorrava aquele líquido quente escarlata no rosto angelical. Mas daí veio o erro, se deixar amolecer pela criança. Que pela sombra de um sagaz, deixou se ferir, pela culatra, uma facada certeira. Se vingar da própria família, era um mal dizer, porque o certo seria um sacrifício para um ser maior, um ser obscuro, um ser mental! Mas o que conseguiu foi fazer daquela chacina, seu erro eterno. Pobre menina, mal sabia, que no lugar do Lobo faminto que tanto imaginava ser, para devorar a felicidade presente nos corpos, hoje você é a oferenda principal do banquete do Diabo. E aos poucos sua alma queimava, a cada degrau que prosseguia rumo ao inferno.
