A insônia é um distúrbio persistente que prejudica a capacidade de uma pessoa adormecer ou, ainda, de permanecer dormindo durante toda a noite. Desassossegados têm insônia, lhes incomodam as verdades imutáveis, riem quando bebem, não enjoam, mas ficam tontos com tanta idéia solta, com tamanha esquizofrenia, não se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente. Desta raça somos todos, eu sou, só sossego quando me aceito.
Apenas nessa infindável semana, que se resumiu apenas a entregar currículos e ouvir promessas de retornos nunca feitos, minha mente tem me lembrado na calada da noite os empecilhos que enterro durante o dia.
Entretanto, por vezes tal mal inspira-me. Ao invés de adormecer e viajar no doce mundo dos sonhos, permaneço acordada e inquieta, escrevendo os meus mais profundos sonhos e anseios, tornando-os imortais.
Ao final, resolvo aceitar que fui derrotada mais um vez e fazer algo para aproveitar as duas horas que ainda me restam para o nascer do sol. Com cuidado para não acordar minha melhor amiga, com quem divido um apartamento após me assumir e ser posta para fora de casa por minha tia, uma beata que acolheu-me em sua casa quando consegui uma bolsa em uma universidade de renome, mesmo estando esperando o fruto de um relacionamento passado, que acabou com o óbito de quem eu pensava ser o amor da minha vida.
Quando percebi, já estava indo em direção ao que Ruby chama de desordem generalizada, que eu prefiro chamar de minha mesa de criações. Ao contrário do meu talentoso irmão mais velho, Neal, não toco, não danço e nem escrevo, demonstro minha arte através de desenhos e pinturas.
Meu primeiro contato com a arte foi desastroso, ao ganhar meu primeiro kit de pintura em um Natal agitado, troquei as telas próprias para tal pelas paredes do quarto que dividia com meu irmão, enchendo-o com flores e bonecos de aparência questionável. Tal desastre foi avidamente registrado por meu pai com os gritos de minha mãe ao fundo.
Infelizmente, a vida não pode se resumir a grafites e tintas. A vida real me chama através do ensurdecedor alarme programado para acordar qualquer ser humano que habite num raio de 5 quilômetros do nosso humilde apartamento e uma amiga irritada tentando desligá-lo a qualquer custo num estado de ainda quase sono.
- A minha querida amiga vai levantar essa bunda murcha da cadeira e ir atrás de um trampo ou vai continuar com a conta no vermelho? - uma Ruby irritada brada enquanto joga um travesseiro no meu rosto. Definitivamente, minha amiga não combina com o estilo de vida emergente e diurno. O riso é incontrolável e logo outro travesseiro atinge minha cabeça. - Eu realmente não tô brincando, patinha assada!
- Bom dia pra você também, flor do dia! - planto um beijo no topo de sua cabeça e ela fica ainda mais irritada. - Deixei um pouco de café passado e ovos na mesa, hoje tenho que sair mais cedo para receber outro "não" em outra entrevista de emprego.
Depois de desejos de boa sorte e sérios pedidos por mais positividade, deixo meu prédio já xingando a décima geração de criadores de fuscas amarelos.
Após enfrentar um trânsito caótico típico da cidade que nunca dorme, chego a um prédio de fachada luxuosa e imponente onde funciona um dos maiores jornais americanos, o USA Today.
Apresso-me para conseguir minhas credenciais para que minha entrada seja permitida e finalmente entrar no mar de pessoas que correm apressadas para seus devidos locais de trabalho. No elevador em que consigo me apertar, uma ruiva arrogante com sotaque estranho gritava com seu atarefado assistente por um simples erro de digitação em uma única palavra da coluna politica.
Ao que parece, se um milagre acontecesse e eu conseguisse o almejado cargo de assistente da editora chefe, momentos como aquele seriam comuns na minha rotina diária.
Ao chegar no andar do jornal, me apresento na recepção e percebo que ainda tenho algum tempo para preparar meu psicológico para entrevista que talvez possa mudar o rumo da minha carreira de jornalista recém formada.
Trabalhar para Regina Mills, a editora chefe de um dos mais importantes jornais do país, sem dúvida geraria maiores oportunidades na minha área, já tão concorrida e de difícil chance de grande sucesso.
Enquanto aguardo minha vez para ser entrevistada pela editora em pessoa, deixo minha mente divagar sobre os acontecimentos dos últimos meses. Em nossas vidas, a mudança é inevitável. A perda é inevitável. A felicidade reside na nossa adaptabilidade em sobreviver a tudo de ruim.
Aprendemos que nem toda mudança é positiva, nem todo movimento é para frente e nem toda verdade é eterna e imutável.
Perdida em meu próprio mundo interior, não percebo que meu nome está sendo chamado até ser repetido pela quarta ou quinta vez por uma voz que dificilmente seria esquecida facilmente.
Num tom rouco e impaciente, meu nome foi repetido outra vez e eu quase saltei da poltrona em que estava sentada na ante-sala. Dei de cara com a imponente e irritada editora chefe, certamente não seria eu a conseguir essa vaga.
Ao início da entrevista, tomada pelo estresse e nervosismo, tento ao máximo manter a calma e acabar logo com aquilo. Minha impaciência e ansiedade devem ter sido notadas pela morena de temperamento questionável, já que ela finalmente parou de ler meu nem tão comprido currículo, mesmo com vários exageros e mentiras do bem.
Ela me olha com fogo nos olhos, se pudesse, certamente me atiraria bolas de fogos por suas orbes castanhas ou me atiraria da janela do vigésimo andar.
- E então, senhorita Swan... - ela começa, dando ênfase ao meu sobrenome, provavelmente perguntando-se se um dia o patinho feio realmente se tornaria um cisne. - Ate onde está disposta a ir para conseguir chegar no topo?
- A-a-até onde for preciso, senhora Mills. - Minha falha tentativa de conter meu nervosismo provavelmente foi notada, já que ela retira seus horrendos óculos de grau com aro grosso e escuro, me encarando com sua imensidão cor de chocolate quase inexpressiva. Pingarreio e volto a falar, agora com a voz mais firme e com menos traços de nervosismo - Eu farei o que for possível para o meu crescimento profissional dentro desse jornal.
- Senhorita... é senhorita Mills. - Ela me corrigiu, e espero que ela não tenha notado quando desviei meus olhos e corei levemente. - Há alguma informação adicional que eu precise saber antes de considerar sua contratação?
- Eu tenho pouca experiência prática na área.. - Falo receosa, com medo de sua reação. Pondero um pouco sobre o que direi a seguir, devido à sua falta de resposta - Mas me esforçarei para aprender tudo de maneira rápida e eficaz. - Droga, Emma. Você nem conseguiu o emprego ainda. Tento me corrigir, mas acho que acabo tropeçando nas palavras- É.. quero dizer.. m-me esforçaria caso conseguisse a vaga.
- Bom.. - Ela começa a falar, já se levantando e se dirigindo à saída de seu escritório. - Aguarde o retorno do setor de RH, caso consiga a vaga. Tenha uma boa tarde, senhorita Swan.
- Boa... - Ao meio de minha fala, a morena fecha a porta de seu escritório e eu fico encarando sua porta até minha mente retomar seus sentidos depois de tamanha situação de estresse. -Tarde.
Ao sair da ante-sala da editora, recebo um "boa tarde" da recepcionista do andar que mal consigo responder pela enorme vontade de sair logo desse lugar infernal.
Enquanto tento dar partida ao velho fusca que me foi dado por meu irmão mais velho quando ele se casou, fico repassando milhares de vezes a entrevista em minha cabeça e já prevendo o resultado.
Com certeza não seria eu a conseguir essa vaga, já que me falta experiência na área, autoconfiança e sorte. Com essa mistura de sentimentos e pensamentos, potencializada pelos hormônios de minha gestação, bato a porta de meu carro com tamanho estrépito.
Ao chegar em casa, Ruby já aparece com uma avalanche de perguntas sobre a entrevista, mal me deixando respirar. Eu respondo a algumas, com meu pessimismo querendo aparecer nas entrelinhas de minha fala, e já parto para um banho morno e relaxante, que me ajudaria a esquecer momentaneamente meu atual fracasso.
De volta à sala de estar, decorada por Ruby, que mesmo com a falta de recursos para móveis novos, tornou-a simples e aconchegante. Sento-me ao lado de Ruby no espaçoso sofá azul de três lugares que achamos num desapego de móveis usados, enquanto ela procura algo para assistir, aconchego-me em seu ombro, já abrindo o pote de sorvete de amora, o favorito de Killian, meu falecido noivo.
Perdendo-me em meus devaneios sobre ele, lembro-me dos momentos bons que passamos juntos, que vão desde o mais simples passeio no parque até a minha festa de formatura, em que ele me pediu em casamento na frente de todos. Mesmo com sua morte, não consigo viver em eterna melancolia, já que o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.
- Você 'tava pensando nele de novo, né? - Ruby rouba minha atenção novamente. Sem nenhuma resposta, ela continua a falar. - Ai patinha, eu sinto tanto por você. Mas um dia você vai achar alguém que te faça tão bem quanto ele, talvez até mais. Bem para você e para o bebezinho que cresce em teu ventre.
- Talvez um dia... - Falo e perco-me novamente em meus devaneios. Percebendo que eu preciso pensar, Ruby apenas acaricia minha cabeça e me deixa tomar o tempo que eu preciso.
Quando resolvo parar com tal angústia, percebo que o filme que minha amiga escolheu já está quase na metade e ela se mexe, inquieta, cada vez mais, provavelmente, se matando de vontade de me questionar sobre cada segundo da entrevista de hoje.
- 'Ta bom, você venceu, eu vou falar sobre a entrevista - Por fim, resolvo acabar com a sua angústia.
-Finalmente, patinha! - Ela quase berra ao meu ouvido. Mas completa, rindo: - Mas não é da entrevista que eu quero saber, pela sua cara já dá pra ver como foi.
- Do que voce quer saber? Sobre Regina Mills? - pergunto, mesmo já sabendo sua óbvia resposta.
- Mas é claro, já viu figura mais controvérsia que ela? - Ruby já inicia seu discurso de admiração, pela décima terceira vez seguida só essa semana. - Ao mesmo tempo tão geek mas tão gostosa. Aquela mulher é o próprio inferno!
- Aí Ruby, desse jeito eu não acredito que você é mesmo hétero. - Comento, zombando do jeito como ela insiste na heterossexualidade mesmo com a evidente atração por garotas. Mas mesmo assim, começo a tecer minha opinião sobre a misteriosa morena. -Bom, como posso descrever Regina Mills? Começando por sua personalidade, ela mantém sempre uma pose imponente... como se o mundo só girasse porque ela quer. Ela não fala muito, sempre com poucas palavras. O que transmite mesmo o que ela quer dizer são os olhos, e que olhos! São extremamente expressivos e por vezes amedrontadores.
- Ui, até arrepiei. - Ruby comentou. Mas completou, safada como sempre: - Vamos, Emma, você sabe que não é isso que eu quero saber...
- Mas a senhora é uma depravada mesmo. - Zombei de sua curiosidade, mas mesmo assim comentei. - Ok, lobinha. Ela tem uma aparência... marcante. Um corpo invejável, um estilo bem nerd despojado e cabelos na altura dos ombros bem despenteados. Ela estava vestindo um jeans azul, uma camiseta de Star Wars que dizia "Luke, eu sou seu pai" e um all star azul claro. Mas o que mais chama a atenção são os óculos, são horrendos e parecem comprados no século passado.
Com a curiosidade satisfeita, Ruby volta sua atenção ao filme, que a essa altura do campeonato já estava quase no final. Um tempo depois, nós duas acabamos adormecendo no sofá, mas provavelmente ela me levou para a cama no colo, já que foi na cama que eu acordei.
Depois de outro dia entregando currículos, volto ao conforto do meu lar já ao cair da noite, onde Ruby me espera com uma pizza de brócolis e aspargos, a minha favorita.
Durante nosso jantarzinho, ela conta as novas fofocas sobre o restaurante em que ela trabalha, principalmente sobre sua mimada e narcisista chefe (palavras dela), Zelena Mills.
O telefone começa a tocar, e, não reconhecendo o número desconhecido no identificador, já demonstro o meu descontentamento e falta de vontade em contratar um novo plano de internet ou assinar qualquer cartão de crédito através de palavras que eu prefiro não comentar.
- Não é nenhum tipo de telemarketing, senhorita Swan. Sou Fiona, chefe do departamento de RH do USA Today, liguei para informar-lhe sobre a sua contratação para a vaga de assistente de Regina Mills.
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Uma segunda chance para o amor
RomanceO que você faria se fosse uma jornalista recém-formada, desempregada, grávida e que acabou de perder o namorado? Se abriria novamente ao amor? Se afundaria num poço de melancolia? Emma, nesse furacão de emoções, não vê outra saída que não seja segui...
