"De tarde quero descansar, chegar até a praia e ver se o vento ainda está forte e vai ser bom subir nas pedras, sei que faço isso pra esquecer, eu deixo a onda me acertar e o vento vai levando tudo embora..." (Vento no Litoral – Legião Urbana)
As ondas deslizavam suavemente pela praia, o mar estava realmente tranquilo naquela tarde, e ao longe o sol estava quase se pondo, deixando a água pintada com tons de dourado e vermelho. O vento não passava de uma leve brisa que mal conseguia mover os cabelos encaracolados do rapaz sentado na areia. Uma cena bastante melancólica, pensou Pedro enquanto bebia o último gole de whisky que havia na garrafa. O cheiro do mar era bom, por alguns instantes estar naquele lugar transmitia certa paz, diante daquela vista Pedro quase podia entender porque Bernardo havia escolhido aquele lugar. Levantou-se rapidamente como que por impulso, largou a garrafa vazia na areia e começou a dar passos em direção ao mar.
-Eu te entendo – disse ele como se alguém realmente estivesse lá para responder – eu entendo – disse novamente – é um bom lugar para morrer.
Dizendo isso mergulhou no mar, a primeira coisa que sentiu foi o gosto salgado da água, era realmente tão salgada assim? Apesar de morar tão próximo fazia muito tempo que não mergulhava no mar. Ele fechou os olhos enquanto as ondas o acertavam levando-o cada vez mais para longe da praia. Em sua cabeça revivia aquele maldito dia: o telefone tocando, a voz do amigo se despedindo do outro lado da linha, sua corrida desesperada até a praia e o pior de tudo: o corpo do amigo caído a beira mar, rodeado por estranhos aturdidos e confusos, enquanto seu sangue escorria pela areia em direção a água até desaparecer. De um lado estava o celular, e do outro a arma que ele havia usado para atirar na própria cabeça. Os fones ainda estavam conectados, a lista de reprodução possuía uma única música: vento no litoral, de Legião Urbana, música preferida do suicida. Aquele desgraçado! Pensou o rapaz, ele tinha mesmo que ter preparado tudo tão detalhadamente? Aos poucos ia se perdendo em seus pensamentos tentando conter o desespero que gradativamente brotava por estar se afogando.
Enfim perdeu a consciência. Perdeu mesmo? Ele pensou. Novamente estava no ponto de ônibus, era por volta de 21:30 da noite quando o celular tocou.
- Alô?
- Sou eu, só queria me despedir, estou indo embora.
Pedro reconheceu a voz do amigo instantaneamente, estava tão trêmula, parecia estar chorando.
- Indo embora? Para onde? - Pedro perguntou já começando a ficar nervoso.
- Sinceramente eu não sei cara, você sabe que não acredito muito nessa coisa transcendental.
Sua suspeita havia se confirmado, Bernardo iria tentar suicídio novamente, há alguns meses atrás ele já havia tentado, e se Pedro não tivesse chegado e o levado para o hospital imediatamente ele realmente teria morrido, cortou os pulsos tão profundamente e perdeu sangue suficiente para ficar meio inconsciente, quando Pedro chegou até ele em total desespero começou a gritar por ajuda. Bernardo estava sentado no chão encostado na cama, no som a musica estava muito alta, e seu sangue escorria pelo quarto. Sua família era muito rica, mas naquele dia tinha apenas uma empregada na casa, era um domingo. O amigo tentou estancar o sangue com pedaços do lençol que rapidamente rasgou, tentou chamar seu nome, mas ele apenas o olhou nos olhos e não disse uma palavra. Pedro sabia que não daria tempo se chamasse uma ambulância e o hospital que a empresa do pai do amigo financiava ficava a penas 3 minutos de carro da casa. Não esperou mais, pegou Bernardo nos braços e ao fazer isso o amigo pareceu reagir, e com a voz baixa disse:
- Não tem jeito P, você sempre cuida de mim. – com essas palavras perdeu totalmente a consciência o que fez Pedro correr escada abaixo até o pátio frontal da casa onde o carro do desmaiado estava estacionado, com tamanha velocidade e desespero do rapaz a empregada surgiu e logo entrou em desespero.
- Ligue para o hospital agora, diga que estou levando o filho do Ávila em estado grave – Pedro ordenou para ela enquanto colocava o amigo no carro. O percurso que já era curto e levaria 3 minutos com a velocidade em que o garoto foi nem mesmo chegou a 2. Quando chegou na porta do hospital rapidamente vieram enfermeiras e um médico e levaram Bernardo já inconsciente para a ala de risco, Pedro não pôde acompanhá-lo mais, no entanto ainda poderia ajudar de outra forma: ambos tinham o mesmo tipo sanguíneo e por isso foi ele o doador do sangue que ajudou a salvar seu amigo.
- Adeus P, - a voz do amigo no celular o fez sair de suas lembranças.
- Berne, eu estou indo ai, por favor, me espera – Pedro ouvia o som das ondas ao fundo e sabia exatamente onde o amigo estava.
- Sinto muito P, não posso – dizendo isso desligou o celular, o que fez Pedro gritar e assustar as pessoas que estavam também no ponto de ônibus. Ele saiu em disparada até a praia, não era longe dali, e ele correu mais do que seus pés podiam aguentar. Ao longe avistou a praia, ela costumava ter algum movimento, mesmo a noite, mas ele sabia que aquela movimentação era irregular, principalmente naquela parte da praia, que era pouco frequentada, devido a dificuldade de se passar pelas pedras para chegar até ela, e era exatamente por isso que Pedro e Bernardo iam tanto lá, era o lugar perfeito para dois adolescentes fumarem seus baseados, beber a vontade e pensar nas desgraças de vida que cada um tinha. Ali ambos pensaram e até mesmo planejaram seus suicídios, mas Pedro nunca concretizou nenhum daqueles planos.
Seu coração saia pela boca a cada passo que dava em direção ao aglomerado de pessoas que se formava em sua frente, podia ser por causa da corrida. Naquele momento, Pedro que nunca teve muita fé em Deus algum pediu a todos que conhecia para que aquilo não fosse o que parecia e o que ele imaginava. Tamanho foi seu desespero ao ver seu amigo caído na areia, a princípio ficou paralisado sem saber o que fazer, mas logo em seguida correu até ele gritando seu nome e o tomou em seus braços desavisadamente o que deixou todos a sua volta ainda mais confusos, e foram muitos os avisos de que ele não podia mexer no corpo. Corpo?! Ele pensou. Não! É meu amigo! Não apenas um corpo!
Alguém havia chamado a ambulância e não demoraram muito a chegar, mas infelizmente só serviu para confirmar o que todos ali já sabiam mas Pedro não queria acreditar: Bernardo estava morto, e não havia mais nada a ser feito por ele. Os socorristas decidiram levar o rapaz que parecia em choque para o hospital, no caminho fizeram várias perguntas como: qual era a relação dele com rapaz morto? Como soube que ele estava ali? Onde moravam? Qual o nome de seus pais? Quais as idades? Pedro respondia tudo no automático sem processar o fato deles falarem de Bernardo no passado, era difícil acreditar que ele realmente tinha feito aquilo. Um turbilhão de pensamentos invadiram sua mente, muitos deles eram de culpa: porque não ligou para a ambulância assim que seu amigo desligou o telefone? Porque não foi mais rápido? Se ele tivesse chegado a tempo teria evitado aquilo. Não tem jeito P, você sempre cuida de mim. A lembrança dessas palavras de Bernardo fez Pedro chorar, não como antes, de forma contida, mas com tamanho desespero que espantou até mesmo os socorristas. Suas lágrimas eram salgadas, ele podia senti-las, o que mais era salgada? Ah, a água do mar. Por alguns instantes ele recobrou a consciência e saiu de seu transe de memórias, seus pulmões queimavam, juntamente com sua garganta e nariz.
- Eu te culpei tanto Berne, por ter partido assim – ele pensou e quase podia ouvir sua voz, os ondas o acertavam sem trégua – agora eu também irei partir. - E mais uma vez perdeu a consciência.
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Quimera Das Estações
Romance"Não tem jeito P, você sempre cuida de mim". O que fazer quando seu melhor amigo se suicida? Como lidar com o sentimento de culpa e o vazio que ficou após sua partida? Pedro tenta resolver esses questionamentos enquanto luta para continuar vivendo...
