Conto 1 - A Festa nunca acaba...

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A Festa que Nunca Acabou

O céu de chumbo pesava sobre o bairro, engolindo a luz do fim de tarde. Nina, 18 anos, encostada na parede da sala, mordia o canto da unha, os olhos inquietos fixos na prima Sara. A aniversariante de 10 anos dançava no quintal com outras crianças, os rostinhos suados de tanto correr.

O cheiro de balões de látex e glacê artificial impregnava o ar, doce demais, quase sufocante. Risos infantis ecoavam, mas algo na atmosfera fazia o estômago de Nina revirar. Ela não sabia o quê. Ainda não.

Sara tinha insistido no palhaço.

— Quero um palhaço divertido, Nina! — dissera semanas antes, os olhos brilhando.

Nina, sempre protetora, achou a ideia brega — e ainda pior, algo a incomodava de forma estranha. Tentou argumentar, sugerindo outras opções, mas os pais de Sara insistiram, rindo:

— Ah, Nina, não me diga que você tem medo de palhaços! — Zombou o tio, encerrando a discussão.

Agora, vendo o tal "Palhaço Alegria" entrar pela porta, Nina desejava com toda força ter insistido mais.

Ele era bem estranho, não sabia como explicar, mas sentia que sua energia era bem ruim. A maquiagem branca descascava nas bochechas, revelando uma pele acinzentada que parecia pulsar. O sorriso pintado, largo demais, esticava-se além do que qualquer rosto humano deveria permitir. Seus olhos, fundos e opacos, fixavam-se nas crianças por tempo demais, como se as despisse de algo invisível. Seus movimentos eram trêmulos, como uma marionete manipulada por cordas frouxas.

Nina sentiu um arrepio subir pela nuca.

— Tá tudo bem? — Beatriz, amiga de Nina, apareceu ao seu lado, segurando um copo de refrigerante. Sua voz tinha um tom forçado de descontração.

— Não sei... — Nina murmurou, sem desviar os olhos do palhaço. — Ele me dá calafrios.

— Relaxa, é só um cara mal pago tentando animar a festa — Beatriz riu, mas o som morreu rápido. Até ela parecia inquieta.

No quintal, Sara ria enquanto o palhaço jogava balões coloridos. As outras crianças o cercavam, alheias ao frio que começava a rastejar pelo ar, como se o próprio tempo estivesse segurando a respiração.

Nina pegou um panfleto da mesa, amassado e manchado de glacê: Posto Alegria – Pizzas & Diversão. O nome soava como uma piada cruel. Ela o guardou no bolso, sem saber por quê.

Os minutos se arrastavam, pegajosos. Os adultos, espalhados pela sala, conversavam sobre banalidades, alheios ao desconforto que crescia como mofo nas paredes. Nina tentou se convencer de que era paranoia. Afinal, era só uma festa.

Mas então ouviu: um som baixo, como unhas arranhando madeira, vindo de algum lugar dentro da casa. Ninguém mais pareceu notar.

— Vou ao banheiro — disse a Beatriz, a voz tensa. Ela precisava de um momento para respirar, para afastar aquela sensação de que algo estava muito, muito errado.

O corredor era estreito, as paredes decoradas com fotos de família que pareciam observá-la. O som de arranhões voltou, mais próximo, agora acompanhado por um sussurro abafado, como vozes de crianças presas em um sonho ruim.

Nina parou, o coração disparado. "É só a festa", pensou, mas suas mãos tremiam ao abrir a porta do banheiro.

Quando voltou, o mundo tinha desmoronado.

O salão estava vazio.

Os balões murchavam diante de seus olhos, o látex enrugando como pele morta. As mesas, cheias de pratos intocados, pareciam abandonadas há anos. As paredes, antes brancas, agora exibiam manchas escuras que pulsavam, como veias sob a superfície.

O silêncio era tão denso que Nina sentiu o peito apertar, como se o próprio ar a esmagasse.

— Sara? — Sua voz saiu fraca, engolida pelo vazio. — Beatriz? Eduardo?

Ninguém respondeu.

Então, um grito cortou o silêncio, seguido por outro, e outro.

Pais cambaleavam pelas salas, os olhos arregalados em pânico puro. Mães puxavam os cabelos, as vozes quebrando em soluços. Pais socavam as paredes, os nós dos dedos sangrando.

— Cadê minha filha? — gritou uma mulher, a maquiagem derretendo em lágrimas pretas.

— Era só uma festa! — rugiu um homem, chutando uma cadeira que se partiu como ossos secos.

Nina correu para o quintal, o coração na garganta. As cordas dos balões balançavam sozinhas, como se dançassem com um vento que não existia.

Ao longe, na calçada, ela viu o palhaço. Ele estava parado, a cabeça pendendo para o lado, como se o pescoço não aguentasse o peso. Seu sorriso rasgou a pele da bochecha, revelando dentes tortos, escuros, impossíveis.

Ele a encarou, e Nina sentiu algo dentro de si se despedaçar.

— Nina! — Beatriz surgiu, puxando-a pelo braço. Eduardo, o irmão mais novo de Beatriz, corria atrás, o rosto pálido. — Temos que sair daqui!

Eles dispararam pela rua, o asfalto rachado ecoando sob seus pés.

Ao virar a esquina, o horror os encontrou novamente: um ônibus enferrujado, parado no meio da rua, balançava sozinho. As janelas, sujas de fuligem, exibiam marcas de mãos pequenas, como se dezenas de crianças tivessem tentado escapar.

O motor rugiu de repente, e o ônibus avançou na direção deles, os faróis piscando como olhos famintos.

— Eduardo! — Nina gritou, puxando-o para o lado.

O ônibus passou a centímetros, o ar quente cheirando a óleo e podridão. Então, tão rápido quanto surgiu, ele desapareceu, evaporando como uma miragem.

Nina caiu de joelhos, a visão embaçando. Durante o desmaio, fragmentos de um pesadelo a engoliram: viu Sara, presa em uma caixa de metal, os olhos ocos, a boca sangrando enquanto sussurrava seu nome. Viu paredes que pulsavam como carne viva. Viu o palhaço, agora sem maquiagem, um ser antigo, a pele cinzenta coberta de vermes, sorrindo com uma boca que não era uma boca.

Ela acordou com Beatriz sacudindo-a, o rosto molhado de lágrimas.

— Nina, precisamos ir! Pro Posto Alegria!

Elas sabiam. O panfleto no bolso de Nina parecia queimar.

Correram até o endereço, um prédio torto e encardido, como se tivesse sido desenhado por uma mente quebrada. As janelas, tapadas com tábuas, pareciam olhos fechados.

Uma música infantil, arranhada e distorcida, vazava pela porta entreaberta:
"Alegria, alegria, venha brincar..."

Dentro, o ar era pesado, cheirando a mofo e algo mais podre, como carne esquecida.

Os corredores eram estreitos, as paredes cobertas de arranhões que formavam palavras desconexas: KIDS. RUN. NEVER.

Nina sentia o pânico crescer, mas a imagem de Sara a impulsionava.

— Ela tá aqui, eu sei — sussurrou, a voz tremendo.

Beatriz apertou sua mão, mas seus olhos denunciavam o medo.

Atrás de um armário quebrado, encontraram uma escada espiral descendo para a escuridão. O cheiro de podridão ficou insuportável, como se o próprio ar estivesse apodrecendo.

No fim da escada, um corredor terminava em uma parede de tijolos.

Nina, desesperada, jogou uma pedra contra ela.

As letras surgiram, sangrando na superfície: K-I-D-S.

— Sara! — Nina gritou, socando a parede.

Ela desmoronou em uma nuvem de poeira, revelando uma sala infinita, iluminada por lâmpadas pisca pisca. Caixas de aço alinhavam-se como túmulos, cada uma selada com cadeados enferrujados.

Nina correu para a mais próxima.

Dedos frágeis se estenderam por uma fresta, e uma voz sussurrou:

— Nina... cuidado...

Era Sara. Seus olhos, antes cheios de vida, agora eram poços de terror. O sangue escorria de seus lábios rachados.

Mas Nina viu — entre os dedos feridos, ainda estava lá: a pequena marquinha em forma de estrela, borrada como uma aquarela, seu código secreto, sua ligação invisível.

O sinal de que, apesar do terror, Sara ainda estava ali. Ainda era ela.

Nina tentou abrir a caixa, as unhas quebrando contra o metal.

A música parou.

O chão tremeu.

Uma presença encheu o ar, fria e antiga, como um vazio que engolia a luz.

Nina virou-se lentamente.

O palhaço estava lá, mas não era mais um palhaço. Era algo mais velho que o medo, algo que vestia a pele do riso como um disfarce rasgado. Sua boca se abriu, revelando um abismo de dentes que não pertenciam a este mundo.

— Você veio brincar... — disse, a voz como mil agulhas na mente de Nina.

Ela gritou, mas o som foi engolido pela escuridão.

Nina acordou em um breu viscoso, o chão sob suas mãos pulsando como carne viva.

O som de risadas infantis, distorcidas e agudas, perfurava seus ouvidos.

— Sara? Beatriz? — Sua voz saiu engasgada, sufocada pelo pânico.

Luzes tremeluziram acima, revelando o horror: Crianças pregadas nas paredes, as bocas costuradas em sorrisos grotescos, os olhos implorando em silêncio.

Nina cambaleou, o estômago revirando.

O "palhaço" não estava sozinho. Dezenas de figuras deformadas, vestidas com retalhos de fantasias, rastejavam pelos cantos, suas cabeças pendendo em ângulos impossíveis.

No fundo da sala, uma porta enferrujada. Acima, uma placa torta, escrita com algo que parecia sangue: Sala de Espetáculos.

Nina sabia que Sara estava lá. Ou o que restava dela.

Com o coração batendo tão forte que doía, ela segurou a maçaneta gelada.

A risada do palhaço — ou de algo muito pior — ecoou pela escuridão.

— O show... só está começando.

E, ao longe, a música infantil recomeçou, arranhando sua alma:
"Alegria, alegria, nunca mais vai escapar..."

"

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