Talvez eu deva dizer que não me lembro de você. Mas ora, dizer também é lembrar não é?
Devo admitir que essa vontade de correr para seus braços para contar como foi meu dia já não é tamanha quanto foi ontem.
Ainda estou esperando você tocar aquela música pra mim, aquela, você sabe... Eu disse que me lembrava de você quando a melodia ressoava.
Vez ou outra eu morro de vontade de ligar, ouvir sua voz, que eu sempre achei tão bonita. Mas de que adiantaria? O trabalho, o dia a dia, não deve deixar você se lembrar do pequeno átomo que eu fui. Seria tolice. E eu bem morro. Você sabe, eu disse, eu sempre tive esse dilema de lutar comigo mesmo - cérebro e coração - e desde você os dois não tem andado muito juntos. Se agridem e se ofendem quase que o tempo inteiro.
Se eu soubesse teria pintado um quadro seu, tipo Van Gogh. Teria pendurado ele na parede branca e vazia do meu quarto, só pra dizer ao mundo que foi real, que eu não menti. Que existiu. Existiu?
Se eu soubesse teria ouvido bossa nova em um barzinho a meia luz, me embebedando de bebida doce e rindo alto sobre as coisas da vida, repousando minhas mãos em cima das suas, e dar a desculpa que estou muito alta no momento.
Mas eu jamais fui de interagir com essa coisa de arte, cultura e tudo o mais. Qualquer coisa que me venha eu já quero cuspir as palavras pra fora antes de me engasgar. Porque isso é o que não podem tirar de mim.
Teria fotografado seus olhos também, e suas mãos. Porque nos seus olhos se escondem o maior dos planetas e a mais bela das estrelas. E suas mãos, bem, me parecem bem capazes de me carregar por aí.
Perguntei para minhas paredes rachadas, perguntei ao mundo se você volta, mas ele ficou mudo. Eu também.
A vida tá mudada e os passos vezes leves, vezes pesados. Depende de que lugar a nuvem vai estacionar durante as várias horas vagas do dia.
A lembrança está velha e embolorada, escondida debaixo do travesseiro na lateral do meu sofá marrom. Eu as pego de vez em quando só para me ver espernear e o estomago revirar em cima daquilo tudo. Tudo o que?
O silêncio anda tão marcante quanto a solidão que acompanha os passos que a gente dá pra tentar ser feliz.
Eu ficaria feliz se você segurasse minha mão por debaixo da mesa, com receio de alguém ver.
Eu ficaria feliz se você assoprasse a poeira que está se estacionando em cima de mim.
Ou, se conseguisse apenas explicar como os meus olhos jamais esquadrinharam uma alma, como fazem com a sua. Acho que toda a coisa bonita tem de ser feias um pouco pra equilibrar também.
- A. C. Pinheiro 29/11/2018
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Sobre o que não existiu.
Short Story• Obra Registrada! Em breve terá o isbn disponpivel e será publicada em formato físico. Lembrem: plágio é crime e dá dor de cabeça. ♡
