Quando nos conhecemos

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Imaginava pra mim um futuro completamente diferente do que o que hoje escrevo nesta carta. Será sempre doloroso recordar da importância que você teve em minha vida. E ao olhar para o passado posso concluir que minhas melhores lembranças são aquelas em que te tenho ao meu lado. Espero que não esqueça, em hipótese alguma, de que foi o seu sorriso que me ensinou a importância e a verdade por trás da vida. Gabo-me a chance, mesmo que remota, de que talvez eu tenha proporcionado o mesmo ensinamento a você.

Por muito tempo temi pela possibilidade de te perder, seja para o tempo, ou para outro alguém. E a minha obsessão por este sentimento fez-me esquecer de salientar a você o porquê era essencial que ficasse. Hoje acompanho sua evolução e me pergunto: "será que ela ainda sente a minha falta como eu sinto a dela?".

Ambos sabemos que a culpa não foi inteiramente sua ou minha. E quem sabe ainda estaríamos juntos se não nos preocupássemos tanto com isso. No fim, não importa de quem foi a culpa, mas sim do qual não foi capaz de abdicar de seu próprio orgulho. Quanto a isso, somos igualmente culpados.

Seria hipocrisia minha negar meus sentimentos por você. Eu ainda te amo, como jamais serei capaz de amar outro alguém, e ainda espero pela sua volta assim como no dia em que a vi partir. Mas para sua surpresa esta carta não é um pedido para que volte, apesar do meu coração implorar por isso. Meu intuito é simples e objetivo: tudo o que eu quero é que se lembre; lembre-se de que um dia me amou o tanto quanto foi amada.

Talvez seja egoísmo meu querer despertar em outra pessoa o sentimento que por anos me atormenta, mas não posso suportar a ideia de morrer em suas lembranças.

Ainda me lembro de como nos conhecemos. Eu a reconheci logo que entrou na cafeteria, ainda mais linda de perto do que quando a via passar pela calçada. Encantei-me de imediato por sua beleza, por seu cabelo cacheado que caía sobre os ombros, sem ao menos suspeitar de como chamava atenção dos que passavam por você. Seus olhos castanhos harmonizavam com sua pele negra e também o vestido amarelo que usava. Sua presença me intimidava, mas ainda assim não conseguia deixar de te olhar. Com certeza estava fascinado.

- Não vai atendê-la? - perguntou Rob ao meu lado. Ele era esperto e certamente já havia notado meu interesse em você. Ainda desnorteado fui em sua direção.

A cafeteria era simples, tinha bancos e mesas de madeira, mas apesar disso, estava quase sempre lotada - ficava de frente a uma universidade, o que explicava o movimento. Naquela tarde, entretanto, não estava cheia. As mesas em sua maioria estavam vazias e havia lugares de sobra para quem quisesse relaxar depois de um dia exaustivo de aula.

Mesmo com tantos lugares ao seu dispor, você se sentou em frente ao balcão estreito com os pés apoiados na base do banco. Você mexia em um de seus cachos tão naturalmente que pude concluir ser um hábito seu. Parei ao seu lado com meu bloco de anotações na mão. Mantive-me tranquilo quando olhou para mim. Seu olhar era seco e desinteressado.

- Uma cerveja, por favor. E não tenho preferência pela marca. - nossos olhares se sustentaram por alguns segundos até que percebi o quão estranho era aquilo.

Peguei em uma das geladeiras a melhor marca de cerveja que tínhamos, que na minha opinião não era tão boa assim, e voltei, entregando a você, que por sinal nem mesmo agradeceu. Em quesito de educação você parecia ser completamente desprovida.

Com o tempo, a cafeteria foi ganhando movimento e os garçons carregavam xícaras de café para lá e para cá. Como pode imaginar, eu era um deles.

Não pude deixar de rir ao notar a diferença entre você e os outros. Pra falar a verdade, ainda acho engraçado a forma como você trocava qualquer coisa por cerveja.

TEMPOS AO VENTOStories to obsess over. Discover now