Faíscas

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Brendon olha para o que um dia fora o pinheiro do quintal, há muito tempo cortado em pequenas tábuas e colocado no lugar das paredes do escritório. Os papeis estavam todos jogados em cima da mesa, e o trabalho rotineiro, que já não mais o importava, estampava o quarto de onde saíra todo seu dinheiro nos últimos 41 anos.

As lágrimas ao encarar seus projetos inacabados são incontáveis, que atingem sua respiração tão forte quanto o mais profundo dos socos, o peso que se mantinha em seu peito, aos poucos se esvaia. As lágrimas, leitosas e descompassadas vinham fortes, e essas que não se manifestavam há anos, lhe pareciam a única saída.

Os dedos ossudos e descoordenados tocaram mais uma vez a madeira do pinheiro. Sentiu as marcas no verniz, lembrou-se das pinceladas, beijos e risadas que aquele trabalho, fora de sua rotina, o havia proporcionado. Brendon encosta sua testa enrugada na parede, e a beija, como se a beijasse, precisava vê-la mais uma vez.

Ele caminha, com pequenos passos tortos e mancos até a sala, o cômodo seguinte, olha para todas as estantes de livros, todos os quadros e garrafas de vinho guardados há décadas. Cada um desses suvenires continha um fragmento de sua memória, o tinto que respingara no tapete, o branco que embebedara seus amigos em seu aniversário.

Apanha com dificuldade, sobre a mesa central, seu álbum de fotos preferido. Senta-se ao sofá e abre o empoeirado compilado de memórias. Suas lágrimas mantiveram-se por alguns momentos adormecidas voltam a se manifestar em sua face, apenas por visualizar os olhos de sua amada, as janelas de sua alma.

Lembrava-se do toque, de sua respiração naquele lindo pescoço, que com suas curvas atraentes o jogara a seus encantos. O maxilar marcado com um tímido sorriso, irreal na vida cotidiana, não era tão contida na realidade. Sorriso esse que encaixava perfeitamente em seu rosto, criando linhas sobre os lábios.

Sua pele, tão lisa quanto as linhas nobres que manipulara por toda sua vida, e os pontos distribuídos abaixo de seus olhos, postos perfeitamente por qualquer divindade irreal nas posições corretas, para que formasse a mais bela constelação no rosto da mulher que era teu universo.

Ela não tinha jeito com o afeto, não sabia abraçar, soltava o peso de sua cabeça, timidamente, mesmo após todo aquele tempo, sobre o peito de Brendon e se deixava ser apertada contra o mesmo, as piadas e trocadilhos ruins a tornavam quem era.

O homem, que a pouco se sentia pesado, agora, com o passar das fotos amassadas e até mesmo emboloradas se revigorava, não no sentido figurado, mas literal, se transformara em quem não via há mais de meio século, com os cabelos pretos enrolados e sobrancelhas grossas que um dia tivera.

Sua coluna envergada se pôs de volta à forma ereta, tão natural quanto jamais fora, não havia mais dor, nem em suas costas, nem em seus joelhos. Mas de que adiantava voltar a ser lindo se o único motivo para tal não está com ele? De que adiantava poder se levantar e dançar uma bela canção, se seu par não o acompanharia?

O ultimo folhear sobre os plásticos vacantes do álbum o entregam de volta ao estigma, e o pranto continua a florescer em seu rosto. Deposita a pequena pasta sobre o a mesa, no mesmo lugar de onde a tirara, afaga o sofá, e se levanta, indo em direção à porta.

E cada passo ali dado parece voar, não mais os sente, e o cheiro do cômodo o enche com a saudade. Ele toca a velha e pesada maçaneta, primeiro com a ponta dos dedos, depois com a palma da mão, respira fundo, e com um único e conciso movimento a abre.

O clarão que o trouxe para a casa se abre, novamente, diante de seus olhos, e por alguns momentos, seus sentidos são inundados com aquela força, não enxergava ou escutava, se segurava firmemente à porta. Aos poucos se prostrando à aquela infindável fonte de energia, e pensa em apena uma coisa, no lugar onde devia estar.

Ele abre os olhos, e logo a sua frente, como se encarasse um portal, vê sua querida Sparks deitada, chorando, ela se encolhe na grande cama e cada soluço parece apunhalar sua alma. Ele tenta entrar no quarto, mas não pode, não pertence mais a aquele mundo.

O homem agora jovial se levanta de seus joelhos, coloca a palma da mão sobre o campo de força que o mantem naquele lugar, e todos os sentimentos que o corrompiam, raiva, medo, tristeza, se vão, e são preenchidos com algo muito mais poderoso, a esperança. Brendon pigarreia, força ainda mais o corpo sobre o campo de força, encostando sua testa nele, e com a voz rouca diz:

-Na noite, sempre estarei lá, a cuidar de ti, minha faísca, e assim, nunca estarei morto.

FaíscasWhere stories live. Discover now