Prólogo

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''Márcio sentiu as pernas vacilarem. Não sabia a quanto tempo corria daqueles que o queriam em sua posse,mas a falta de ar denunciava que a tempos estava longe de onde partira. Enxugou a testa úmida,tanto pelo suor quanto pela fina garoa que caía.

Olhou em volta. Ele não conhecia aquele vilarejo,mas sentia certa familiaridade com o que via. Fixada no chão,havia uma estaca de madeira,com uma placa com os dizeres ''bem vindo a Pedra Azul''. Então era esse o nome do lugar que tanto lhe atormentava.

Puxou o ar mais uma vez,sentindo sua garganta arder,fechou os olhos com força e os abriu,precisava ter certeza de onde estava para então prosseguir,e o céu nublado não o ajudava. Apoiou suas mãos em suas coxas,para descansar seu corpo e recuperar suas forças. Encarou seus tênis cheios de lama e relva da floresta. O cheiro de eucalipto invadia suas narinas,embrulhando seu estômago. Qual era a última vez que havia feito uma refeição? Ele não conseguia se lembrar.

Endireitou seu corpo e olhou para trás,não havia rastro dos homens que o perseguiam. Respirou aliviado,soltando o ar que a tensão em seu corpo prendia,ajeitou a jaqueta marrom clara que ele carregava,quando ouviu aquela voz novamente.

"Eu vejo você.''

Ele sentiu seu corpo sobressaltar com o ávido sussurro. Reconheceria aquela voz no sol,na chuva. Em qualquer lugar. Não precisava olhar em volta para saber que ela não estaria ali,por mais que ele pedisse,ela nunca aparecia para ele.

"Eu preciso de você aqui,não entende?''

Não sabia se aquela voz estava sendo produzida por sua mente em total caos,ou se ela realmente existia. Julgou o estado de sua sanidade,precisava sair logo dali ou corria o risco de ficar preso a sua loucura.

"É melhor você correr,forasteiro. Eles estão atrás de mim.''

- Quem é você,garota?! – Ele gritou para o vento,uma corrente fria ricocheteava em seu rosto. A falta de ar o tomara com força,fazendo sua cabeça latejar – Por quê você me enlouquece assim?

Um clarão despontou atrás de si,parecia ser de um carro,ele não sabia dizer,mas conseguiu criar forças para sair dali. Suas pernas não tardaram a obedecer o comando da misteriosa voz. Por mais cansado que seu corpo estivesse,ele sabia que não podia parar. Precisava encontrá-la,e viu a razão que o movia quando fechou seus olhos. Ali,na sua escuridão,a única luz que o iluminava...

"Não pare! Por favor não pare,eu preciso de você.''

....aqueles olhos,tão misteriosos e famigerados. Aqueles olhos de prata,que lhe tiravam o sono.''

Márcio sentiu seu corpo sobressaltar sobre a cama,seu rosto assustado denunciava que a noite não tinha sido das melhores. Mais uma vez,aquele maldito sonho o assombrava.

O rapaz se sentiu aliviado ao respirar fundo e constatar que tal ato não era mais uma dificuldade,a lufada que agora se esvaía de seu corpo denunciava que ele estava mesmo acordado e que aquilo tudo passara.

Afastou as cobertas que o cobriam e encostou os pés no chão,por um segundo reparou que o ambiente estava mais quente que ele se lembrava. O rapaz se dirigiu ao banheiro e encarou seu reflexo no espelho. As olheiras diziam para quem quisesse ver que ele não dormia bem a alguns dias. Respirou,resignado,e abriu a torneira,levando a água até seu rosto,tentando eliminar qualquer vestígio de tórrido sonho.

Ao sair da pequena suíte,encarou o relógio de cabeceira,que marcava exatas cinco e dezenove da manhã. Era tarde demais para dormir e cedo demais para se arrumar para o trabalho. Precisava dividir seus pensamentos com alguém,ou enlouqueceria quando menos esperasse. Sentou-se novamente na cama e pegou o celular,discando aqueles números já conhecidos.

- Alô? – uma voz sonolenta atendeu,Márcio não precisava vê-lo para saber que o amigo não havia sequer aberto os olhos para ver quem o ligava.

- Álvaro,cara,eu preciso falar contigo,ou vou sei lá,surtar – o moreno disparou,apoiando os cotovelos em suas coxas.

- Ahn? Que papo é esse,pô? - Tentou se concentrar nas palavras de Porto,enquanto lutava para não apagar durante a ligação. – E isso lá é hora de ligar? Porra mano,cinco da madrugada...

- Cara,me escuta,depois cê' me xinga o quanto quiser – Sentiu o amigo concordar meio a contragosto do outro lado da linha – É aquele maldito sonho...

- Ah não,de novo isso?

- É,toda vez aquela floresta,aquela voz de mulher...e ela nunca aparece,por mais que eu peça. – Márcio contou,sabia que se fechasse os olhos,ainda poderia mentalizar seu olhar sobre ele,ainda que por frações de segundo. – Eu sempre acordo do mesmo jeito,assustado,com medo de algo que eu nem sei o que é. E agora eu tô aqu...

- Mano,vou te dá' a fita do que tu tem que fazer pra tirar essa mulher da cabeça. – Márcio ouviu e já sabia que ele havia ouvido somente uma parte do que ele falara – É o seguinte,tem uma zona que eu vou sempre,lá tem todo tipo de mulher que tu quiser. Dá até pra...

- Do quê tu tá falando,cara? – Franziu o cenho,tentando dissipar as imagens da descrição do lugar de sua cabeça. – Não tem nada a ver com sexo. Caralho,cê ouviu o que eu falei?

- Sim,mas parei na parte da mulher. O que tinha mais pra saber? – Márcio afastou o celular do ouvido por um instante e bufou,impaciente. Alvaro era um ótimo amigo,mas nem sempre um bom ouvinte. – Sei lá,se não quer ir até lá elas fazem um esquema de delivery. Não curtiu as playboy que deixei aí na sua casa,não?

- Álvaro,só me escuta,pode ser? – Ele tratou logo de cortar,tinha medo de onde os pensamentos do loiro iriam dar. – Se perguntarem de mim amanhã na empresa,diz que eu não vou essa semana.

- Tá beleza mano,mas aí,tu vai pra onde? – Ele quis saber o motivo – Porque os outros perguntarem é uma coisa,já o teu pai....a conversa com o tubarão branco é outra,tu sabe.

- Relaxa,com o velho eu me entendo. Tava precisando de umas férias mesmo,ele não vai ter como negar. – Não tardou a despedir-se do amigo e desligar o telefone,tinha muitas coisas a fazer,e se não começasse logo,temia por desistir.

Abriu o closet,tirando de lá uma mala grande. Flashes da pequena estaca de madeira vieram a sua mente.e ele pegou o celular,abrindo o GPS e digitando na aba de busca. Seu novo destino ficava a apenas cinco horas do Rio de Janeiro.

O mais novo da família Porto nunca fora de pensar para agir,a impulsividade o permeava e ele pode mais uma vez constatar tal fato quando fechou sua última mala,colocando do lado da cama. Rumou para o banheiro,ansiando por um banho quente para enfim começar um dia que ele não fazia ideia de como iria terminar.

- Me aguarde,Pedra Azul.

Olhos de PrataTahanan ng mga kuwento. Tumuklas ngayon