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1. Passeio

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❝Querido diário, hoje de manhã tive um ótimo passeio com minha mãe.

Saímos cedo, o Sol já estava visível. O vento me causava alguns arrepios, provavelmente porque estava um pouco frio, então não me importei.

Primeiro tomamos café no restaurante da Sra. Sharon, experimentei os pães que ela mesmo fez, estavam deliciosos.

Em seguida, fomos ao parque, era um pouco distante daquele restaurante, há poucos metros dali, já me senti cansado. Minha mãe me carregou em seus braços enquanto continuava a andar, ela estava cheia de energia.

Enquanto caminhava, eu estava com minha cabeça encostada em seu ombro, ouvindo cada palavra que ela dizia.

De repente comecei a sentir os mesmos arrepios novamente, achei incomum aquilo ter acontecido, afinal, o dia já estava ficando quente. Minha mãe notou que eu estava sentindo um pouco de frio, quando ela parou de andar, me deixou no chão, abaixou-se e me disse:

— Filho, papai está aqui conosco, sinta.

Olhei ao redor, mas não havia ninguém, apenas eu e ela. Então imediatamente me lembrei de ter ouvido ela conversando com meu pai sobre ser médium, não entendia bem o que aquilo era, mas já a ouvi dizer que sentiu a presença de minha bisavó apenas com calafrios. Ela faleceu há uns 13 anos.

Acho incrível a habilidade que minha mãe possui de ver, ouvir e sentir pessoas que já se foram. Meu pai faleceu a 5 meses atrás, num acidente de moto. Nunca me senti tão contente ao sentir sua presença pela primeira vez depois de tanto tempo.

Os olhos verdes da mamãe olhavam profundamente para cada detalhe do meu rosto, como se estivesse se lembrando de algo. Talvez seja porque todos da minha família sempre dizem que eu tenho o rosto semelhante do meu pai quando era mais novo, e minha mãe deve sentir muito sua falta, porque ao acariciar meu rosto, seus olhos se encheram de lágrimas. Apenas fiquei em silêncio e passei a mão em seus longos cabelos negros e lisos. Sorri olhando em seus olhos enquanto ouvi-a dizer que eu sou o maior milagre de sua vida.

Passando alguns segundos, dei uma abraço nela e sussurrei em seu ouvido:

— Mamãe, vamos brincar?

Ela riu, encarou-me em silêncio e de repente pegou em meu ombro e gritou :

TE PEGUEI!

Minha mãe saiu correndo, enquanto eu, com meus passos curtos, tentava alcançá-la.

Depois de muitas brincadeiras no parque, já estava anoitecendo, minha mãe olhou para o céu, que já havia algumas estrelas, e me disse ofegante:

- Filho, temos que ir, vamos visitar sua bisavó e seu pai.

Todos os meses, ela ia ao cemitério. Meu pai explicou que era um lugar onde a vida acaba, com um recomeço pendente. Tentei ficar calmo, pois mesmo ao lado de minha mãe, me senti um pouco inseguro, afinal, nunca visitei um local assim.

Chegando ao portão, senti o tal calafrio, mas ele era forte e acompanhado de um sussurro, no qual não entendi nenhuma palavra. Segurei o longo vestido florido da minha mãe e logo ela notou que eu estava com medo, então mais uma vez ela me carregou em seus braços, dizendo que estou seguro.

Minha mãe era alta, então em seus braços tive uma visão melhor daquele lugar assustador, mas como o túmulo do meu pai não era longe dali, não demorou para que eu voltasse para o chão.

—Kieran, seu filho está aqui. Já sabe sobre você e o que aconteceu no dia em que você se foi, ele sente sua falta tanto quanto eu...

Enquanto minha mãe conversava com meu pai, apenas fiquei em silêncio e observei os túmulos próximo ao dele, e pude concluir que a vida pode ser perdida em questão de segundos, e se não fosse tão fácil perdê-la, o cemitério não estaria tão cheio. Por isso passei a refletir sobre aproveitar a vida enquanto há tempo.

Depois de muita conversa entre meus pais, finalmente voltamos para casa, já não aguentava mais aquela sensação estranha que sentia quando estava lá.

Aquele passeio foi maravilhoso, mas eu já estava muito cansado. Dei um beijo no rosto da minha mãe, coloquei meu pijama, escovei os dentes e fui descansar.

Naquela noite, tive o sonho mais estranho da minha vida. Nele eu via uma garota de olhos claros, pele branca com poucas sardas e vestido branco, ela estava dançando ballet sozinha num jardim cheio das mesmas flores em que minha mãe deixou no túmulo do meu pai em seu velório, e o mais estranho é que não conheço a garota, nem o jardim. Quem era aquela menina tão bonita?❞

14 de Setembro de 1973

Stephen Laville

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