Angelita respirou fundo da porta do quarto de sua mãe antes de finalmente abrir a porta equilibrando a bandeja em suas mãos, o prato de comida balançava e a menina tinha que ter extremo cuidado para que o copo com água não caísse. A mãe de Angelita continuava deitada na cama apenas olhando para o teto, sua tristeza era notável em seu rosto, seus olhos tinham profundas olheiras e seu cabelo estava maltratado, toda a vida do rosto da mulher tinha sumido depois da morte do marido.
-Mama, trouxe sua comida- Angelita disse colocando cuidadosamente a bandeja ao lado da cama- A senhora precisa comer.
-Não. -Foi a única coisa que a mãe disse, desde a morte do pai de Angelita ela não se comunicava muito e se recusava a comer até o último minuto.
-Mama, o papai morreu a 9 meses, a senhora quer se juntar a ele? Vai largar a mim e Héctor aqui? -Nem a menção ao filho mais novo fez a mãe mudar sua expressão.
-Sai- foi a única coisa que ela disse, Angelita respirando fundo pegou a bandeja e saiu do quarto.
A avó da menina estava na cozinha preparando o pão de los muertos, que era o pão doce típico para a celebração que aconteceria no dia seguinte, Héctor estava ao seu lado decorando algumas caveiras de açúcar.
-Abuela, ela não quis comer de novo- Angelita disse colocando a bandeja em cima da mesa e começando a ajudar seu irmão.
Héctor era uma cópia do pai, os mesmos cabelos castanhos encaracolados, a mesma pele bronzeada e os meus olhos verdes, já Ange mesmo herdando os cabelos e os olhos do pai ainda tinha mais semelhança com a mãe por conta de sua pele um pouco mais clara que a do irmão.
-Ange, tenha paciência com sua mãe- A avó da menina disse quando viu que a garota estava quase quebrando as caveiras de açúcar- e cuidado com isso você gostaria de ter coisas malfeitas no seu altar?
-Abuelita quando eu vou ter meu próprio altar? - Héctor perguntou fazendo a avó rir.
-Espero que daqui a muitos anos querido. Ange vá buscar as cempasúchils na floricultura, você está estragando as caveiras. - A senhora disse enxotando a menina da cozinha com um pano de prato.
Angelita saiu de sua casa passando pela rua completamente movimentada, faltando apenas um dia para o dia dos mortos já era possível ver a empolgação da pequena cidade ao preparar seu desfile para a comemoração, no México o dia dos mortos era visto como um motivo de festa, já que seus entes queridos poderiam sair do mundo dos mortos e ir ao mundo dos vivos visita-los e ver seus altares.
-Olá Ange- Juan o dono da floricultura disse com um belo sorriso no rosto- veio buscar as flores para sua abuela?
-Sim senhor- Angelita disse abrindo um sorriso- as amarelas por favor, eram as preferidas do papai.
Juan imediatamente arrumou o melhor buquê de flores que conseguiu sentindo o forte cheiro das plantas.
-Sabe por que usamos essas flores no dia dos mortos Ange? - O homem disse chamando a atenção da garota que rapidamente balançou a cabeça em negativa deixando alguns cachos caírem em seu rosto- A cor vibrante e o cheiro forte servem como um guia para os mortos acharem seu caminho até o altar.
-O senhor acredita nisso? Que os mortos nos visitam? - A menina sempre foi curiosa quanto a sua cultura, não tinha tanta certeza que os mortos poderiam visitar os vivos, depois da morte de seu pai, começou a desconfiar mais ainda da tradição.
-É claro Ange, e pense, mesmo que não seja verdade, é bom achar que eles ainda estão aqui, não é? Nem que seja uma vez por ano.
O senhor deu um sorriso amigável para a jovem que o retribui pegando suas flores e saindo da loja. Angelita não sabia se os mortos realmente visitavam os vivos, mas uma parte dela queria achar que sim, ela queria acreditar que seu pai estaria ali, olhando ela e sua mãe que desde a morte do marido se recusava a sair da cama, ela vivia o luto de uma forma diferente dos outros, para ela, nem os filhos eram um motivo para viver mais.
KAMU SEDANG MEMBACA
Contos e encontros
Cerita PendekLivro feito para os contos do concurso do Projeto Magic Reading Capa feita por:@marenaavery
