1. O Sino

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     Um vulto corria pelo corredor. Seus passos ecoavam pelo piso, passando pelas portas e janelas do prédio, a alça de sua mochila pendendo de seu ombro enquanto subia as escadas. Das portas, as pessoas observavam, algumas perplexas, entediadas, outras comemorando pelas suas apostas ganhas.

     — Quem é aquele? — perguntou um novato.

     — Ah, aquele? É o Millers. Chega atrasado todos os dias — respondeu um dos veteranos, pegando seu dinheiro. Já estavam acostumados. Afinal de contas, isso acontecia há três anos.

     Era o primeiro dia de aula de Henry em Lierts, seu terceiro ano no colégio. Corria como o vento para pelo menos tentar chegar nos primeiros dez minutos da aula. Mas, aparentemente, levantou do lado esquerdo da cama hoje.

     Henry Millers era um garoto de 13 anos que sempre se metia em encrenca, mas (quase) nunca por sua culpa. Tinha cabelos castanhos, olhos da mesma cor e um péssimo senso de horário. Nesses dois anos estudando em Lierts, chegou na hora apenas duas vezes. E isso sem contar os atrasos dos clubes. Nesse ano estava tentando melhorar, mas claramente não começou muito bem.

     Henry sabia que era um atrasildo. Como não saber, se te lembram disso todos os dias? Mas dessa vez não foi 100% minha culpa, pensava. Claro, ele se esqueceu de ativar o despertador de novo, mas porque Bin não o chamou? Isso foi muito injusto.

     Bin era seu colega de quarto: constantemente zoado pelo seu jeito e aparência, seu único amigo era Henry. E ele não se incomodava. Qual é o problema de parecer diferente, ué? Bin era um cara legal e um bom colega de quarto. Não havia razão para mantê-lo longe. E jogava uno muito bem. Os torneios que eles faziam eram muito loucos.

     Sua outra desculpa era que ele havia passado de ano, o que significa que suas aulas mudaram do prédio B para o prédio C. No ano anterior, não tinha se atrasado, pois Bin o acordou às pressas e ambos conseguiram chegar a tempo na aula. Essa foi uma das duas vezes em que não se atrasou. Por isso, esse ano, acabou entrando no prédio B e entrando correndo na sala errada. Parecia um tomate quando saiu, ouvindo as risadas daquelas crianças. Ótimo, mais gente pra rir da cara dele todo santo dia.

     Terceiro: Seu tênis não entrava no seu pé.

     Parou no meio do degrau e pensou na idiotice que tinha acabado de inventar.

     Descartou a desculpa. Nem era totalmente verdade mesmo.

     Chegou ao segundo andar, quase caindo por causa de seu cadarço desamarrado (Viu? Quase verdade). Abriu sua mochila, destrambelhado, procurando seu quadro de horários.

     — Cadê essa coisa? — murmurou nervoso para si mesmo. Abriu a mochila e a virou de ponta cabeça, deixando tudo o que tinha dentro cair: Um lápis, cadernos, um baralho de Uno e outras aleatoriedades foram parar no chão na virada repentina. Pelo menos ele tinha arrumado a mochila na noite anterior, ainda que a pedido de Bin.

     Fez uma anotação mental de agradecê-lo depois.

     Agachou-se e começou a procurar quando viu o papelzinho ali no meio, largado no meio das tralhas.

     — A-há! — sussurrou, animado, pegando o pequeno papel já rasgado e cheio de desenhos. Abriu-o e procurou seu horário: segunda-feira, nove horas. Sala seis. Fim do corredor. Começou a guardar suas coisas de qualquer jeito na mochila e saiu correndo mais uma vez, deixando várias cartas de Uno pra trás e provavelmente mais alguma coisa.

     "Finalmente", pensou ele enquanto corria. Se tivesse tomado café hoje, teria entrado no prédio certo e, quem sabe, não teria chegado tão atrasado. Seu plano era simplesmente parar assim que chegasse à porta e fingir ser um aluno educado. Fácil como tirar doce de criança.

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⏰ Last updated: Aug 17, 2019 ⏰

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