O relógio da parede marcava 3h17 da manhã.
Angel estava sentado no chão da sala, encostado na parede descascada, os joelhos dobrados e os braços envoltos ao redor deles. A cabeça encostada no reboco frio. Encarava o vazio à sua frente como se ali houvesse alguma resposta, alguma saída.
O silêncio do apartamento parecia gritar, pesado e opressor. O único som era o tique-taque insistente do relógio — cada segundo que passava era uma lembrança cruel de que o tempo não parava, mesmo quando a vida de alguém se estagnava por dentro.
O lugar inteiro cheirava a mofo, poeira antiga e luto mal resolvido. Umidade nas paredes, o sofá coberto por um lençol manchado, as janelas fechadas desde o último suspiro da única pessoa que o amava de verdade. A mãe. Ela se fora fazia exatos trinta e dois dias, e Angel ainda sentia o cheiro do chá de camomila que ela preparava nas madrugadas em que a dor não a deixava dormir.
Na parede da cozinha, o calendário continuava parado em abril, com um círculo em vermelho em volta do dia 11 — o dia em que ela partiu. Ele não teve coragem de virar a folha.
No canto da sala, as caixas de papelão ainda estavam ali. Algumas cheias de roupas dela, outras com fotos, remédios, livros antigos. Angel começara a organizá-las, mas parava sempre que o cheiro familiar de lavanda o acertava no peito. Não estava pronto. Talvez nunca estivesse.
Ele se levantou devagar, sentindo as articulações doerem. O estômago roncou, mas era um som vazio, automático. Não havia o que comer — apenas um pacote de macarrão instantâneo vencido e uma garrafa d'água na geladeira quase vazia. Ele sequer acendeu a luz da cozinha. Já conhecia a escuridão daquele lugar.
Voltou para a sala e abriu a janela. O vento da madrugada gelada bateu no rosto, trazendo o cheiro distante de gasolina, chuva e cidade insone. Lá fora, a cidade parecia outra. Prédios iluminados ao longe, sirenes distantes, buzinas ocasionais. Tudo seguia normalmente, enquanto a vida de Angel afundava em silêncio.
Ele apoiou os braços no parapeito da janela, olhos fixos no horizonte.
"Quantas pessoas estão vivendo agora? Comendo, rindo, dormindo em camas limpas... E eu aqui. Esquecido."
Voltou para o colchão no chão da sala — o único móvel onde ele dormia — e pegou o celular velho, com a tela trincada. Desbloqueou o aparelho. Sem notificações. Nenhuma mensagem. Nenhum sinal de vida. O 4G mal funcionava, mas ele abriu os aplicativos de emprego mesmo assim.
Auxiliar de limpeza. Operador de caixa. Repositor. Entregador de mercado. Carregador de carga. Todos pediam experiência. Ou cursos. Ou paciência. Coisas que Angel já não tinha mais.
E foi então que viu aquele anúncio.
"Casa de Massagem recruta atendentes. Boa aparência. Sem experiência necessária. Pagamento diário."
Ele franziu o cenho. O nome do bairro chamou atenção — Jardins, um dos mais caros e discretos da cidade. Angel nunca esteve lá. Nem sabia como chegar.
Desconfiado, clicou no número de contato. A imagem de perfil era de uma mulher elegante, de cabelos ondulados, maquiagem marcante, sentada em uma poltrona de veludo vermelho. Parecia mais uma socialite do que uma recrutadora.
Angel hesitou. Sentia o coração bater mais rápido — um misto de medo, curiosidade... e desespero.
Voltou a ler o anúncio. "Sem experiência. Pagamento diário."
"O que eu tenho a perder?", pensou.
Digitou lentamente a mensagem, com os dedos tremendo levemente:
"Olá. Vi o anúncio. Ainda estão contratando?"
A resposta veio em menos de um minuto:
"Boa noite, querido. Sempre. Pode vir amanhã às 18h? Me chamo Penélope."
Angel ficou encarando a tela. O nome Penélope parecia saído de um romance antigo, ou de um filme noir. Soava elegante demais, perigoso demais. Como um perfume francês que deixava rastro por onde passava.
Ele digitou: "Ok, estarei lá." Mas apagou antes de enviar.
Apenas bloqueou a tela, largou o celular ao lado e deitou no colchão de forma resignada, com os olhos fixos no teto manchado de infiltração.
"Amanhã..." ele sussurrou, quase sem som.
E pela primeira vez em semanas, Angel adormeceu sem chorar. Não por ter esperança... mas porque o medo começava a dar lugar a outra coisa: impulso.
Ele não sabia, mas naquele instante, com aquele simples "olá", havia dado o primeiro passo para o fim da sua inocência.
E talvez... para o começo de sua ascensão.
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O Preço de Ser O Mais Desejado
RomanceAngel com sua beleza única encanta Penélope, uma cafetina experiente e influente no submundo da cidade. Ela o convida para um teste em uma suposta casa de massagem. Sem muitas opções, ele aceita - mas logo descobre que o lugar é, na verdade, uma lux...
