"Um pão na chapa e um café puro, por favor". Foi assim que Patrício, pai de Augusto, cumprimentou a atendente que limpava a mesa e recolocava a toalha de mesa branca. Seria a primeira vez após mais de cinco anos que veria o filho após a briga no velório da mãe.
O semblante do velho trazia uma melancolia profunda, realçada pelas olheiras e pelos raros cabelos, agora brancos. Uma mistura de medo, frustração e vergonha passava pela sua cabeça e corava-lhe a face. Como seria retomar a conversa com o filho após todos esses anos? A conversa havia sido arranjada pelo pai em um ato súbito de coragem ou desespero telefonara para o filho, que confirmou a data e o local rapidamente, fingindo que a linha havia caído. O pai até tentou ligar duas ou três vezes novamente, mas sem sucesso em ter suas chamadas atendidas.
Terminava o café e já havia comido o pão com manteiga quando viu Augusto cruzar a rua. Ao ver o filho se aproximando sentiu o coração acelerar. Tentou manter-se o mais calmo que pode.
- E ai, seu Patrício?!. Cumprimentou o filho. "Caralho, mas o senhor tá bem acabado, hein?!". Não se recordava de que o filho falasse palavrão perto dele. Tinha na memória aquele menino mimado, mas bem-educado, que orgulhava a mãe com as melhores notas da sala. A mãe, que fez de tudo para que ele pudesse ser "gente na vida", como ela dizia, então insistia em colocá-lo nos melhores colégios, mesmo quando as condições não eram favoráveis.
- Poxa, filho. Que bom te ver novamente. Há muito tempo tenho esperado por este momento. Quer pedir alguma coisa?
- Já vi que comeu, né? Puta merda. Nem pra esperar o filho que sentia tanta saudade? Ah, me vê qualquer coisa, vai. Já vou avisando que não trouxe dinheiro. Deixei a carteira em casa pra não correr o risco de ter que pagar algo aqui...
- Não esquenta, filho. Pode deixar que pago. Oh, moça, por gentileza, me vê mais um pão na chapa e um café com leite. Anote aqui na comanda, pediu o pai.
- E ai, pai? Como estão as coisas? Andando com a aquela puta ainda?
- A Sheila Cristina não é puta não, meu filho.
- Como não, pai? Como um nome destes. Pelo amor de Deus, né?
Desde a morte da mãe, o pai começara a morar com uma antiga amiga. O filho soube por intermédio de uma tia que sem querer encontrou no estacionamento de um supermercado.
- Filho, sei que nunca aceitaria uma situação destas, mas a vida segue. Acho que sua mãe concordaria e faria o mesmo se estivesse por aqui.
Augusto ficou vermelho de raiva ao ver o pai mencionando sua mãe.
- Não abra a boca pra falar da minha mãe, está entendido. Ou eu vou embora desta porra agora! Depois de tudo o que aconteceu o senhor ainda tem coragem de falar sobre ela? Não me faça repetir tudo que disse naquele dia do velório, por favor.
- Tudo bem que não aceite minha nova situação, mas a vida é assim. Infelizmente, viúvo é quem se vai e não quem fica.
- Assim o senhor está me pedindo pra ir embora? É isso que quer? Se me levantar daqui nunca mais olho pra trás e nunca mais terá notícias minhas.
- Tá bom. Me desculpe. Mas temo que teremos que falar sobre sua mãe de uma maneira ou de outra. Nem que nunca mais nos falemos novamente.
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Santa Mônica (em andamento)
Short StoryDesde o velório da mãe, pai e filho nunca mais se falaram. Após cinco anos sem se verem, decidem se encontrar. Talvez pela última vez!
