Eu ainda me lembro, um poco vago, daquele momento que tivemos quando já não nos recordávamos mais de nossas origens, mas ainda tínhamos as lembranças de nossos momentos mais apaixonantes. Ele era a mais querida memória que tive o prazer de jamais esquecer, mesmo sendo tão impulsivo, ainda cativava meu coração cada vez que evoluía.
O início sempre foi um clichê, ditas as poucas recordações de momentos singelos que tivemos. Quer saber? Ouça...a música está tocando!
O céu era de um azul piscina forte e o sol já se escondia entre às árvores perto do rochedo escarlate. Em poucos minutos a noite tomaria conta de tudo e já não seria mais seguro andar sozinho pelas Terras Sem Nome, estas que permeavam toda a região norte de Primavera, algo incomum para um país tão calmo.
Nosso mundo era dividido entre estações anuais que embuiam de suas próprias características. Existia a região sul que era abraçada pela neve do inverno. A região norte recebia o beijo do verão. Na região leste, o outono sorria. E aqui, na região oeste, toda uma imensidão de cores e arco íris da Primavera era podada abruptamente pelo paredão verde amorfo das árvores Sem Nome.
E eu, como de costume, devo seguir, sem me desviar do caminho, a trilha de safiras que percorria todo o interior desta sinistra floresta. Infelizmente, a cada ciclo de doze anos nossa região necessita de um sacrifício em nome de Dabi para que não seja consumida pelas Terras Sem Nome. E eu sou o encarregado de buscar tal sacrifício que será consumido por todos da Primavera.
Me tornei um Caçador da Primavera há muito tempo, já não aguentava mais ver tantos morrerem à flor da vida, sem ao menos terem a oportunidade de conhecerem seu amor. E assim, assinei um contrato espiritual com os sacerdotes locais para que pudesse ter a força necessária para trazer a paz ao nosso pequeno mundo.
Existem coisas que me fugiam da memória, como o significado da cor verde em meus sonhos ou o cheiro de erva-doce que sinto quando estou feliz, mas os sacerdotes, encarregados de todo e qualquer ato que traga harmonia entre as estações, me disseram que isso seria uma possível sequela do tal acordo. Mas, ainda sinto que tenho coisas importantes para recordar e fazer.
Sinto que estou ficando sem tempo...e as coisas estão mudando drasticamente.
Sinto meu corpo fraquejar, os cabelos cinzas perdendo a vida. Minha pele descascada, quase em carne viva, era como uma forma de penitência por ter de caminhar em escolhas altamente duvidosas. Já não tenho a permissão instintiva de tocar no que carrega a vida. Essa regalia agora é reservada aos sacrifícios.
Antes, qualquer ser vivo servia, um lobo de pelagem azul ou uma águia de bico rubro. Conhecida como a Era dos Animais, uma época frutífera sem peso na consciência. Mas nada de bom dura por muito tempo nessa região e a mais evitada Era chegou. A Era dos Filhos.
Ultimamente, as exigências ficaram mais específicas. À 36 anos solicitaram um filho da noite escravo do sol. Depois, queriam um filho do dia escravo da lua. Passados mais de uma década, decidiram que um filho da floresta seria o necessário. E agora, querem algo de extrema dificuldade. Um filho da luz terrena.
Esse tal filho de luz terrena não é de fácil localização e nunca, em mais de milênios, tivemos vestígios que pudessem comprovar, minimamente, a existência de tal ser. E por mais que eu fale, nada é impossível para a Primavera, já que tecnicamente, somos o primórdio de toda a existência das regiões e suas estações. E de praxe, nossos sacerdotes são muito orgulhosos e jamais diriam que estão errados ou algo semelhante.
Como tenho privilégios de ser o Caçador encarregado de buscar a oferenda perfeita, a noite pode ser mais convidativa do que o próprio dia primaveril. Uma casca sem energia espiritual e emoções exteriores como eu, não necessariamente se sente acuado por qualquer ser mistico que venha ao meu encontro.
