Ela estava sentada numa cadeira de balanço. Não era velha. Era nova mas queria ser velha. Afinal sempre fora apaixonada pelo passado. Seus cabelos estavam totalmente esvoaçantes. Preguiça. Cansaço. Ela não enxergava direito. De alguma forma, ela, os cabelos, impediam a visão de si mesmo e do mundo. Era um daqueles momentos raros onde a mente dela parava e ela mal sabia onde estava. Sem pensar. Sem se culpar, planejar, rir, sofrer... Viver? A cadeira de balanço era algo fora da vida. Quando o estado alpha passa e a realidade vem à tona. Ela lembra do que doeu e do que deu prazer. Pesa na balança. Mas a cadeira de balanço deixa os pesos confusos. Parece que a cadeira tem vida própria. Ela sente medo ... de envelhecer, da cadeira passar a ter significado temporal e não atemporal. Doi? É a vida. Ai vem aquele peso que nem o pessoal da academia carrega. Não se compra. Se ganha. O existir? Pesa pra diabo ou pesa pra pecado. O que ela é? É o que ela escolheu ser. Mas ela pensa que é o que sobrou pra ser. Ela sente medo. A essa hora a noite já caia... Aguça o medo. Medo de Sartre, Medo de Paulo, de Jesus, talvez de mim. Logo de mim que a amo. O peso caiu nela, ela tentou segurar mas esse tal de existir é pesado demais. E as vezes cega pro além, a cadeira leva ela pra infância, ela era criança, e doeu. Porque mesmo criança ela queria. E quem quer se esforça, sonha. Sonhos não envelhecem, mas nós sim. Dói demais ver um sonho novo e a gente velho. Ali na cadeira, que era tudo que realmente importava. Ela Leu, escreveu... Foi poeta? Foi! Enxergou a beleza com os olhos de Edgar Allan Poe? Acho q sim, mas existe poesia na dor. Mas ela poderia ter olhado pro outro lado, já que a cadeira é atemporal, ela enxergaria a poesia do AMOR. E Ele escreveria poemas melhores pros caminhos dela. Ao fundo tocava o "primeiro andar" do Amarante. "Começo por onde a estrada vai". Ela pensou: Uma canção começa, e não tem nenhuma responsabilidade! Ela não se escreveu, Amarante a fez assim. A mensagem é linda. Mas se for feia, também não é culpa dela. Ela quis ser canção. A cadeira balançou mais. Quase que mostrando pra ela que ela tinha opção. De Ser uma canção de amor ou de dor. Espero que ela escolha o AMOR. Ele sente saudade dela. A mãe gritou que o jantar estava pronto. Ela se foi da cadeira. Foi alimentar o corpo. Mas a alma parou a refeição na metade.
