Ela levantou o pingente na tentativa de que a luz do sol revelasse uma pista, um código escondido ou uma inscrição que a fizesse entender o porquê daqueles homens hostis desejarem tanto colocar suas mãos no pequeno e reluzente objeto. Constatou que não havia nada de especial ou fora do comum e guardou-o na bolsa tão rapidamente quanto retirou. Olhou em volta e aliviou-se por ter conseguido despistar seus perseguidores, pelo menos por enquanto. Seguiu para a igreja, onde pensava encontrar qualquer conexão, por mais simples que fosse, com o pingente.
Quando Ângela entrou, os fiéis procuravam onde se sentarem. A missa daquela manhã ainda não havia começado. Procurou e encontrou um lugar vago para se misturar e tentar se esconder. Sentou-se ao lado de um idoso e de uma senhora, que rezava um terço pacientemente. "Reze pra mim, Dona", pensou. O altar estava repleto de enfeites. A cidade celebrava, uma vez por ano, a padroeira da cidade, Santa Rita de Cássia, da qual herdou o nome, Santa Rita de Ouro Preto. Estava frio, mas a adrenalina correndo nas veias de Ângela a fazia suar pela testa. Um terrível sensação de estar sendo espremida acometeu-a à medida que os fiéis lotavam a igreja. Espremeu os lábios e virou-se para trás. Seus olhos procuravam os homens que a perseguiam, mas a visibilidade estava cada vez mais comprometida pela massa de homens, mulheres e crianças que entravam no local. Levantou-se e verificou as saídas laterais. Nem sinal dos seus perseguidores. Sua chance de escapar era aquela. Tinha que aproveitar.
Na saída lateral, Ângela olhou novamente em volta para ver se o caminho estava livre. Havia uma escadaria à direita, que levava para uma ladeira de pedras. Esperou para misturar-se à multidão e saiu, atenta aos flancos. Desceu pela escada e olhou para trás. Não viu ninguém e continuou. Lá embaixo, decidiu ir para a esquerda pois a ladeira à sua direita tinha poucos transeuntes. Queria se misturar, passar despercebida. Juntou-se novamente à massa de fiéis e seguiu por um estreito caminho, onde barraquinhas minúsculas de ambulantes jogavam os passantes uns contra os outros, roubando a maior parte da rua. Com dificuldade, a jovem de cabelos compridos e tratado com luzes conseguiu chegar ao outro lado. O sol da manhã refletiu em sua pele clara, mas Ângela nem se deu conta daquela suave sensação. Seus sentidos voltaram-se completamente para o homem que a observava a distância. "Droga!", praguejou ela em voz baixa. Virou-se rapidamente quando o seu perseguidor deu o primeiro passo em direção a ela. Desta vez não foi tão educada e os transeuntes fuzilavam-na com olhares de repreensão por conta de sua falta de educação. Saindo da massa, parou em frente à escada por alguns instantes, mas decidiu descer a ladeira. Voltar para a igreja poderia ser um erro e não arriscou.
Sem olhar para trás, Ângela desceu. As pedras da calçada da ladeira impediam-na de apertar o passo. Entretanto, não precisaria apressar-se por muito tempo. Um dos seus perseguidores encarava-a do outro lado da rua, como um predador encurralando sua presa, apenas esperando o momento certo para atacar. Nesse momento, ela viu uma oportunidade. Um banheiro público. A jovem sabia que não poderia fugir mas ali dentro poderia ter alguns minutos para pensar no que fazer. Um pensamento invadiu sua mente. Percebera que tinha mais sangue frio do que imaginava. Qualquer um naquela situação teria surtado. Ela não. Sabia que não podia confiar em qualquer um e pedir ajuda para um estranho poderia complicar ainda mais sua situação. "Onde está a polícia quando você precisa dela?", resmungou ela, entrando em uma das repartições do banheiro público. O cheiro forte de urina impregnava o lugar, mas Ângela nem se deu conta do problema. "Sem bateria no celular também", reclamou, guardando o aparelho no bolso do casaco. Enfiou a mão na bolsa e retirou de lá o pingente. "O que você tem de tão especial?", perguntou ela ao pequeno objeto na esperança do mesmo responder. Apertou-o com força e decidiu colocá-lo no outro bolso do casaco. Resolveu abandonar a bolsa, pois teria mais liberdade para movimentar-se com maior rapidez, se fosse necessário.
