“Você está bem?” O que ele quer que eu diga? “Sim, estou excelente, nada mal para quem levou uma surra.”? Apenas aceno positivamente com a cabeça, não vale a pena discutir com esse homem, especialmente se você ameaçá-lo com uma faca. O lindo príncipe encantado, que se transformou no mais ardiloso monstro, que clichê… Só estando muito vulnerável para cair nessa, ou não. Eu era extremamente bem-sucedida, com uma carreira promissora e estável, e feliz, nossa.... Como eu era feliz, até tudo mudar.
A festa estava mais calma do que você poderia esperar de um anfitrião milionário e excêntrico, resumida a pessoas tediosas, conversando com outras pessoas mais tediosas ainda. Apenas meu corpo estava presente, minha mente transitava entre uma e outra futilidade ou afazeres que ainda deveriam ser cumpridos, quando o vi pela primeira vez. Existiam diversas características que poderiam classificá-lo como atraente, porém, seus olhos foram a primeira que cativaram a minha atenção. Eram de um castanho claro com incríveis nuances douradas, e transmitam algo que eu me identificava bastante, poder.
Saímos algumas vezes, e logo fui convencida de que o elegante homem de negócios não era apenas mais um rostinho bonito. Na verdade, a conversa era ótima, recheada com os mais pertinentes questionamentos. Os dias tornaram-se meses, que cada vez ficavam menos despretensiosos. Começamos a criar planos, que incluíam inevitáveis diálogos relacionados à matrimônio e filhos hipotéticos, que, se dependessem de mim, estariam praticamente no limbo, e fiz questão de deixar isso bem claro.
Bom, aparentemente não ficou tão óbvio quanto eu esperava, senão não estaria em um hospital, desfigurada e morrendo de dor. Ele fez isso comigo sem a menor hesitação ou pena e não tenho a menor intenção de deixar barato. O breve tempo que ficaria preso seria nada comparado aos meus planos, ainda mais depois de algumas semanas, quando descobriria que não fui a única.
Val foi violentada brutalmente, sendo encontrada quase morta pela equipe de bombeiros na sua casa em chamas. Hilda achava que tinha seduzido mais um cara rico, só não contava que estivesse armado. Sophia sofria em silêncio durante anos para proteger a reputação do seu marido, até ser culpada pela disseminação de um boato, as consequências… Vocês podem imaginar. São as cúmplices perfeitas para uma vingança infalível, pois nada aproxima mais as pessoas, do que o ódio que sentem por algo em comum.
Com o plano definido, só nos restava esperar o momento certo. Felizmente, a oportunidade perfeita não demorou a aparecer. Ele saiu da prisão dias depois, com um sorriso cínico nos lábios ao me ver esperando. Dei o melhor dos beijos e o mais demorado abraço, dizendo que o perdoava por tudo o que tinha acontecido. Entramos no carro, conversamos, aturei suas obcenidades de sempre, afinal, precisava ganhar tempo para as garotas, escondidas na parte de trás do veículo, arrumarem tudo.
O fator surpresa foi essencial, uma vez que elas conseguiram amarrar seu pescoço no assento sem maiores complicações, armas falsas também podem ser ótimas para esse tipo de situação. Dirigi por horas e horas, até chegar no meu lugar preferido, a casa perto do lago, o único laço material que consegui estabelecer com a minha mãe antes de falecer. Irônico não? Um lugar que guarda tantas lembranças boas, testemunhar um homem manchando seu piso de sangue.
Mantivemos ele em cativeiro por muito tempo, matando o tempo com tipos diferentes de tortura, minhas preferidas foram as psicológicas. Era divertido ouví-lo esbravejar sempre que eu ameaçava expor todos os seus segredos. Mas, como toda diversão, uma hora fica chata demais e precisa acabar.
Toda a ajuda foi necessária para colocá-lo no pequeno barco e chegar até a parte mais profunda do lago. Ele está quase inconsciente, então não foi necessário amarrá-lo novamente. Não vou mentir, foi gratificante ver o medo em seus olhos enquanto o seu corpo afundava cada vez mais na água gelada, não senti nenhuma culpa, ou remorso, e o único som audível era a risada das meninas ao fundo. Você provavelmente está me julgando, e pode achar que tem razão. Mas ao mesmo tempo, pode me culpar?
