Era uma vez uma terra chamada Leste. Em Leste, todas as pessoas nasciam com belas asas que, por sua vez, nasciam com nomes. Cada par de asas tinha um nome diferente, como razão, lógica e objetividade.
Apesar de serem belas e resistentes, as asas dos moradores de Leste, infelizmente, eram feitas de metal e, consequentemente, eram pesadas de mais para que seus portadores conseguissem voar.
Tendo nascido já com estas asas, os habitantes de Leste decidiram esquecer o inútil sonho de voar e construir uma sociedade baseada no estudo, na realidade, na frieza e na lógica. Não havia espaço para sonhos ou fantasias, pois mesmo as crianças eram doutrinadas para trancar a criatividade e a imaginação.
Com isso, a terra de Leste obteve o poder e sucesso que almejava, enterrando o desejo de voar por gerações e se tornando a nação mais avançada do planeta.
Porém, muitas gerações depois da triste decisão, nasceu uma menina chamada Hope. A primeira vista, os médicos achavam que era só uma pessoa comum. Mas, quando as asas de Hope se abriram pela primeira vez, não eram de metal. Eram finas e frágeis, cobertas com algum tipo de penugem.
Logo, eles entenderam. A menina nascera com asas feitas de penas e ossos.
~Asas~
Conforme a menina crescia, suas asas foram crescendo e se desenvolvendo com ela. Ninguém soube explicar como e nem porquê, mas elas eram feitas de longas penas brancas e não o típico metal. Mesmo com várias teorias e anos de estudo, ninguém entendia porque a menina nascera com tal peculiaridade.
E esta não era a única coisa estranha sobre Hope. Diferente de outras crianças, ela criava histórias fictícias mesmo com as fortes broncas dos pais e a doutrinação. Seus cadernos escolares apresentavam desenhos e ela muitas vezes demonstrava algo absurdo: emoções.
Mas ainda havia algo pior. Suas asas, cujo nome vinha escrito como uma tatuagem entre elas, se chamavam "Imaginação".
~Asas~
Por causa de suas características peculiares, Hope se tornou alguém odiada pela sociedade de Leste. Era frequentemente castigada pelos pais e pelos professores.
Para fugir um pouco de tudo aquilo, a solitária garota se viu correndo para longe da cidade quando tinha doze anos, se isolando em um pequeno bosque que ainda não havia sido desmatado. Em Leste, isto era proibido, a não ser que você fosse uma autoridade.
Chorando, ela se encolheu debaixo de uma árvore e abraçou os joelhos, se perguntando:
— Por que não posso ser como os outros? Seria muito melhor...
Nesse momento, ela ouviu um assobio alto e melódico, seguido pelo som de algo batendo contra o vento. Levantando a cabeça para achar a origem dos estranhos sons, ela viu um belo pásbsaro azul.
Estupefata, ela observou o elegante animal voar entre as árvores, reparando que suas asas eram feitas do mesmo material que as suas.
— Mas... como...? — ainda olhando para o passarinho azul, deslizou a mão direita por sua asa esquerda.
Ainda perplexa com a imagem, ficou de pé lentamente e foi acompanhando o vôo do pássaro. Caminhou até que o animal sobrevoou um rio e chegou até o outro lado, pousando em um galho onde ficou observando Hope.
A garota bufou, mirando o rio aos seus pés. Era fundo e parecia turbulento demais para nadar.
~Asas~
Ela levou uma longa bronca dos pais por ter fugido. Mesmo assim não conseguia tirar a imagem da cabeça. O passarinho, tão livre e feliz, sobrevoando o rio, dominando os ventos com suas lindas penas azuis.
Então, no dia seguinte, pegou um pequeno dispositivo que impedia a localização de pessoas utilizado por si quando mais nova para fugir da detenção e foi para a escola. Assim que o sinal tocou, fugiu.
Fugia todos os dias depois da escola, alegando estar estudando em um café popular da cidade. Na verdade, estava na floresta, e o mesmo ritual se repetiu várias vezes. O pássaro voava, passava por cima do rio e a menina o encarava, frustrada.
Até que um dia, ela começou a pensar em algo. Se aquele pássaro conseguia voar e a estrutura de suas asas era como a dele... Hope também poderia voar? Achou besteira no começo, mas então resolveu testar.
Moveu suas asas como o pássaro fazia e começou correr atrás dele. A princípio, não funcionou. Mas, com alguns dias de prática, a menina conseguiu tirar os pés do chão, planando por um curto período de tempo e subindo um pouco... Antes de cair de cara no chão.
Apesar da queda desastrosa, e das várias que a sucederam, ela não desistiu. Queria muito alcançar aquele pássaro, mesmo sem saber o porquê. Bateu Imaginação, suas asas, com força e finalmente conseguiu realizar um vôo seguro sobre o rio.
Mal cabendo em si de felicidade, Hope olhou o passarinho azul, que voou e pousou perto da menina.
— Você finalmente me alcançou. — o pássaro falou, feliz.
Hope o encarou, confusa. Então se ajoelhou para poder ver melhor o pássaro e perguntou:
— Quem é você?
— Quem sou eu? — o pássaro repetiu a pergunta e então pulou para o ombro de Hope, empoleirando-se — Me chamo Liberdade. Agora vamos, há um longo caminho pela frente!
Fim.
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Asas
Short StoryUm conto sobre a sociedade de Leste, onde uma menina chamada Hope nasceu e descobriu o significado de liberdade. *A foto de capa não me pertence. *Esta história também foi postada no Amino.
