Uma verdade eu não posso negar: o Clube dos Corações Partidos teve seu nascimento e término semelhantes à minha vida amorosa. Ambos se iniciaram muito ao acaso, em conversas a princípio tímidas, que se tornaram divertidas e sem quaisquer segundas intenções. O tempo passou e a história evoluiu, ganhando ares sérios e importantes. Tudo se tornara grandioso demais para se controlar. Por fim, o seu término foi rápido, repentino, horrível e traumatizante.
A grande diferença, porém, é que os finais de meus relacionamentos sempre foram envoltos por tristeza, lágrimas e solidão; o mais importante era que afetava apenas a mim. O final do clube, por outro lado, acabou em terror e medo, e a vida de diversas pessoas mudaram após aquilo.
O clube nasceu de uma piada, de uma brincadeira que teve como objetivo livrar a minha mente do pesar e tristeza, e buscar de alguma forma alegria e motivos para viver. Lembro perfeitamente daquele dia: trancafiado em meu quarto, deitado em minha cama, soluçando de tanto chorar e ignorando o roncar em minha barriga. Vanessa havia terminado nosso namoro de seis meses, e hoje já não me recordo de seus motivos. Lembro que eu gostava dela, a considerava como a mulher da minha vida, e pensar numa vida sem ela castigava meu coração. Tudo acabou rápido demais, sem explicações. Apenas acabou. E por isso eu chorava, por isso estava isolado, por isso sentia fome. A tristeza transformou-me em um inútil, incapaz até mesmo de me alimentar.
A tristeza também me fez escutar The Beatles.
The Beatles sempre exerceu grande poder em mim. Emoção, alegria, prazer. Eu buscava consolo nas músicas românticas, encontrava motivos para viver nas canções alegres e divertidas. Eu poderia viver para sempre ouvindo John e Paul cantarem, George fazer sua guitarra chorar e Ringo manter alegria em suas baquetas. Ouvir suas canções, mesmo que no modo aleatório, me fariam viver eternamente satisfeito.
Então tocou o clássico Sgt. Pepper's. Não sei o que deu em mim naquele momento. Talvez tenha sido a repetição incessante daquele nome, ou tenha sido um desejo de mudar minha vida em algum quesito; o importante é que prestei muita atenção ao nome da banda controlada pelo infame Sargento Pimenta. A banda dos corações solitários. Pensei sobre o significado daquelas palavras. Eles, os membros da banda, possuíam uma tristeza em seus corações, uma solidão terrível, e mesmo assim eles estavam unidos, partilhando aquele mesmo sentimento, combatendo-o com a felicidade de tocarem juntos. Eles estavam felizes! Cada um apoiava o pesar do outro, e esse apoio os tornava alegres, e com essa alegria eles seguiam em frente e tocavam.
A piada nasceu ali. Pulei para frente de meu computador e criei um grupo com o nome de Clube dos Corações Partidos. Seria um clube, pois eu não queria soar como "vamos montar uma banda?", e escolhi o termo "partido" ao invés de "solitário", pois queria partilhar meus sentimentos pós-término sem ser julgado. Convidei alguns amigos para participarem, aqueles que eram ou confiáveis ou que eu tinha certeza que iriam ignorar todo o drama romântico ali exposto.
Abaixo do título, na área destinada à descrição do grupo, escrevi:
"Bem-vindos à primeira reunião do Clube dos Corações Partidos.
Sofredores e magoados são bem-vindos para desabafar.
Não há julgamentos aqui.
Apenas amigos, conselheiros e ouvintes"
Selecionei oito amigos, no começo. Então escrevi o meu relato em um longo texto, e compartilhei entre os membros. Não escrevi explicações, não fiz questão de ser notado. Apenas escrevi meu desabafo, falando do modo repentino que meu relacionamento acabara, de como eu amava Vanessa e da falta que eu sentia dela. Tirei o peso dos meus ombros. Não senti medo de ser julgado. Só fiz o que os membros da banda fizeram: busquei ser feliz.
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Clube dos Corações Partidos
NouvellesApós vivenciar o luto de uma separação, Carlos decide criar um grupo de apoio para aqueles vivendo o pesar de um término de relacionamento. Mas, ao ouvir relatos de outros participantes, questões surgem em sua cabeça. O significado de amor para uma...
