O que é verdade, o que é mentira?
Até onde a fronteira entre a realidade e ficção é claramente perceptível?
mentira e enganação tem prazo de validade e, no fim, tudo se revela.
Estranha essa vontade de ser pedra ou pó. Ao me deitar, sinto as mesmas dores, na barriga da perna, nas coxas e nos quadris. Nem banho morno alivia; teimosos, os músculos não relaxam. Fecho os olhos. Parece que pairo sobre as pessoas, entre gôndolas, prateleiras e nuvens, correndo, esclarecendo dúvidas, levando troco para os caixas, buscando códigos de mercadorias. De repente, o susto, a impressão de estar caindo, rápido, muito rápido. O frio na barriga, a corrente gelada subindo da espinha ao cérebro. Antes de me espatifar no chão, sinto a cama estreita. Respiro aliviada e o rosto enorme do meu pai preenche o escuro do quarto. Seus olhos tristes, seu sorriso com aquele ar que minha mãe chamava de cínico. Vejo o bigode grisalho, o movimento da boca tentando falar algo que não consigo ouvir, pois a faixa de luz sob a porta me desperta. Rolo na cama. Ao meu lado, Luciana dorme tranquila, respira leve e em silêncio, como se estivesse com medo de incomodar. Lembro o dia em que nos conhecemos. Desespero e incerteza, caminhos sem volta, estradas sem fim. Meiga, me pegou a Mão e disse que não via motivos para pânico. Sinto o aperto na barriga, vontade de chorar. E o fantasma de meu pai toma conta de mim, do quarto e do mundo...
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