Junho, 1835
— Uma jovem de vinte anos deveria ter um guarda-roupa mais colorido —resmunguei ao examinar meu armário, sem conseguir decidir qual dos vestidos escolher: o rosa-claro, o azul-claro, o amarelo-claro, o verde-claro? Ou será que eu deveria optar por um creme? Quem sabe um dos inúmeros e sempre iguais brancos?
Já fazia mais de dois quartos de hora que eu estava ali abraçada aos joelhos,sentada ao pé da cama sobre os lençóis brancos com bordados cor-de-rosa, sem chegar a conclusão alguma.
— O que acha, Bartô? Algum deles parece interessante?
O gato preto ergueu para mim os olhos amarelos desalinhados e começou a lamber a pata.
— Eu concordo. — Soltei um suspiro.
Todos eles eram semelhantes. Foi por isso que não me dei o trabalho de ir ao ateliê de madame Georgette e encomendar mais um vestido pálido para a festa daquela noite. Pensando bem, assim como meu quarto rosado e branco, eles combinavam com minha vida sem graça.
Não que eu estivesse me queixando. Apenas gostaria de que, de vez em quando, o ponto alto do meu dia não fosse um chá da tarde. Claro que a ironia não me passou despercebida, já que eu estava justamente contemplando minhas opções para um baile.
Eu não me sentia inclinada a ir. Fazia muito tempo que eventos como aquele tinham deixado de me empolgar. Entretanto, era o aniversário da sra. Moura, eela decidira oferecer um baile de máscaras para comemorar. Eu até havia ajudado na escolha do cardápio e na decoração. Como poderia recusar o convite da mãe da minha melhor amiga sem ofendê-la?
Eu me estiquei para pegar a caixa com a máscara, sobre a mesa de cabeceira laqueada, e a analisei: branca, forrada de uma renda delicada e com minúsculas pérolas bordadas aqui e ali.
— Um dos vestidos brancos, então.
Separei o traje que eu usara para ir à ópera no mês anterior — um com mangas curtas diáfanas e pérolas diminutas formando desenhos florais na barrada saia — e, em um ataque de rebeldia, decidi prender apenas parte do cabelo,permitindo que as delicadas e espessas ondas negras me caíssem nas costas.
Minha nossa. Como eu podia ter uma vida tão enfadonha, a ponto de o simples fato de não prender o cabelo poder ser considerado uma rebeldia?
Está bem. Talvez eu estivesse me queixando um pouco. É que parecia que algo importante estava acontecendo na vida de todo mundo. Exceto na minha.
Sofia, minha cunhada — que eu preferia chamar de irmã, tamanha minha afeição por ela —, enfrentava diariamente um novo desafio em sua fábrica de cosméticos, além de cuidar das filhas e da administração da casa. Meu irmão,Ian, estava sempre imerso em documentos, ou no estábulo, ou então entre tendo minhas sobrinhas. Já não lhe sobrava tempo para se dedicar aos pincéis. Até mesmo Teodora tinha o que fazer: além de administrar a própria casa, minha melhor amiga tinha o pequeno Thomas para ocupar seus dias.
Quanto a mim? Ah, eu bordava muito bem, pintava demais — a ponto de já não sentir prazer algum em me sentar diante da tela — e lia. Lia tanto que me flagrei pensando em qual dos mundos eu passava mais tempo: o real ou o imaginário. Ah, sim! Eu também tocava piano e harpa. Ultimamente eu escolhia as composições mais complexas, apenas para ter um desafio e fazer o tempo correr mais depressa.
Por muito tempo eu administrei a residência da família. Ian e eu perdemos nossos pais muito cedo e ficamos por conta própria. Cuidávamos um do outro desde que eu tinha nove anos. Então, nós crescemos, Ian e Sofia se conheceram,se apaixonaram e, depois de alguns contra tempos, se casaram. Ela relutou em assumir seu papel de senhora da casa, mas acabou cedendo, se acostumando e se saindo muito bem. Fazia tempo que ela já não precisava de minha ajuda nesse departamento. De início, pensei que fosse gostar de ter um pouco de tempo livre,levar uma vida sem tantas responsabilidades, como a maioria de minhas amigas.Mas a verdade é que não demorou muito para que eu ficasse entediada.
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Prometida
RomanceLisa Clarke anda um pouco entediada. Seus dias parecem iguais e os bailes há muito deixaram de trazer algum prazer a ela. Não que seja uma surpresa, pois sempre que ela está presente os eventos se tornam um desastre! E é injusto, já que ela foi uma...
