Capítulo 1

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Ouço o meu coração bater, lento e frio como se, finalmente, repousasse, mas não o fez. Ouço-o como se permanecesse colado aos meus ouvidos e pergunto-me "Porquê?". Lentamente começo a sentir partes do meu corpo, os nervos ganham vida a partir do meu cérebro e dirigem-se a todos os cantos do meu organismo, preguiçosamente. Respiro e o ar fresco passa-me até aos pulmões. Será que morri e estou agora a crescer noutra vida? Com outros pais, num ano diferente, um ser novo?

De repente, sinto uma dor aguda no meu antebraço esquerdo, pelo menos, penso que seja aí que se encontra a dor, não tenho muito bem a certeza, para ser sincera. A pouco e pouco começo a sentir até os pequenos detalhes do meu corpo, sinto uma mão quente que treme agarrada à minha mão esquerda, o que me provoca eventualmente mais dores no braço, o corpo repousa em algo razoavelmente confortável o que me dá a sensação de estar a voar, sinto frio nos pés, um frio de sepultura que parece nascer nas extremidades do corpo e lentamente crescer para o interior e, finalmente, aquilo que me parece criar mais desconforto, um silêncio horroroso parece já residir no sitio onde me encontro. Não pode ser isto a minha nova vida... O que será, estão?

Começo a abrir os olhos devagar pois creio que o mais pequeno gesto irá fazer a minha cabeça explodir. A única coisa que avisto é a ligação de uma parede azul-bebe a um teto completamente branco e, por algum motivo, isso preocupa-me um pouco. Foco melhor o olhar para ver em redor, sendo difícil com a luz suave que está espalhada. Estou deitada, assim como já desconfiava, mas ainda não consigo responder onde. Levanto um pouco a cabeça, embora esta me doa imenso, e avisto uma sala em tons de branco. Estou deitada numa cama, do lado esquerdo encontra-se um armário de madeira e a porta de saída no canto parece fechada pois não há nenhum ruido a entrar por ela ou luminosidade, na parede à minha frente encontra-se um sofá preto ao lado de uma mesa de madeira e metal. Sentado na cadeira encontra-se um homem cansado que dorme com a cabeça por cima dos braços. Está vestido com um casaco castanho claro, cor areia, que reconheço tão bem e a boina castanha escura que lhe cobre o cabelo já a ficar grisalho, não me deixam duvidas, é o meu pai. O que estará aqui a fazer? Já parece ser de noite.... Dou outra vista de olhos pela sala, embora já com algumas dores no pescoço, e é quando vejo uma mulher sentada numa cadeira debruçada sobre a cama onde me encontro, também ela parece já estar a dormir, é ela que me segura a mão. O seu cabelo negro com partes grisalhas e a sua pele clara denunciam-na. Mãe?

O meu antebraço está ligado e tenho uma espécie de bata branca vestida. Estou no hospital? O que aconteceu? Volto a deitar a cabeça na almofada e de repente, todas as memórias me chegam à mente. Lembro-me da discussão, de chegar a casa a chorar e de só conseguir pensar em acabar com tudo! Lembro-me da dor que sentia no peito e das vozes que teimavam em falar alto na minha cabeça dizendo que só havia uma única solução. Lembro-me de recordar todos os acontecimentos, todas as pessoas à minha volta, enquanto rasgava o mais forte que conseguia o meu braço. Lembro-me da dor que isso me criava e do nojo que era ver o meu próprio sangue. E lembro-me de não doer mais...

Sem dar conta sinto uma lágrima escorregar pela minha cara até à almofada. Como será ter sido para ela encontrar-me assim? Como terá sido para eles sentirem que me perdiam sem sequer saber porquê? Começo a sentir de novo a culpa apoderar-se de mim. Na verdade, eu nunca quis morrer, eu apenas quis desaparecer. Quando alguém morre, essa pessoa deixa em vida pessoas que sofrem por ela ter partido, mas quem vai, descansa. Eu apenas queria morrer sem que alguém ficasse cá a sofrer. Mas, ao pelos vistos, nem isso eu consegui fazer bem, porque fiz sofrer pessoas continuando viva, o que, já não era novidade.... Tenho vontade de chorar, na verdade, tenho imensa, porém estou tão farta disso! Por que é que eu não poderia simplesmente deixar de sentir? Abro os olhos. É isso! Só basta deixar de sentir! Eu já o fiz tantas vezes, também o posso fazer agora. Fixo o olhar num ponto invisível e penso em tudo, concentrando-me apenas em não sentir nada acerca de nada. Eu bem sei que o processo demora tempo, mas o facto é que, realmente resulta. Eu não preciso de nada. Não preciso de ninguém. A vida significa nada.... Sinto as minhas emoções evaporarem-se e um profundo desinteresse sobre tudo apoderar-se de mim silenciosamente. As lágrimas param de correr e a minha mente torna-se uma completa folha branca. Olho o teto.

Beautiful DiamondsWhere stories live. Discover now