Prólogo

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Navio Imperial, ano 1288

Mar Túnico, S 60º 25' 40''
15h20

Tempos de exploração não eram condescendentes com lar, não eram condescendentes com família, e muito menos com os desejos de qualquer marinheiro. Por meses, o mar os fazia morada, e tudo o que se via era horizonte.
Dândaro mirava as águas com uma luneta a procura da terra desconhecida, a Nação Sombria, para muitos inabitada e para outros tantos o portal para demônios adentrarem nosso mundo.

Este era o mundo mais belo que poderia existir. Mesmo sendo metade do dia, era possível vislumbrar as luas que pairavam solitárias no céu, mas a sua mitologia era o que mais encantava à Dândaro pois o fazia lembrar de sua falecida esposa, Felicia, a qual ele tinha certeza que havia sido sacrificada em um ritual bruxo.

Ele se lembrava da lareira acesa e da cama feita de feno amarrado, e da casa simples de madeira que retinha o cheiro da sopa borbulhando no caldeirão ao fogo. E sua mulher entoava baixo:
"Duas irmãs, de serenidade e conduta como tais, andavam por campos de flores altas, rindo e usando sua magia para mudar a cor das plantas abaixo dos seus pés. Seus vestidos esvoaçados ao vento, e seus cabelos de um tom azul tão semelhante a cor do céu ao fim do crepúsculo.

Com uma estranha sensação de estar sendo observada, uma das irmãs, Ambät, a mais velha, avistou um homem ao fim da campina. Sua pele era bronzeada, seus cabelos ruivos como as folhas no outono, e as vestes como as de um camponês qualquer. Ele a chamava, apenas com o olhar, e Ambät podia sentir a magia irradiando dele, então avisou a irmã, com encanto na voz, mas cuidado nos pés.

Imbät, a mais nova, sentiu-se conectada com o homem misterioso, e logo a paixão platônica à arrebatou e ela caminhou na direção a ele, com a irmã chamando seu nome ao encalço.

A Paixão cegava Imbät, assim como tentava controlar Ambät que resistia. Ao se aproximarem, e conversarem, descobriram que seu nome era Sumiråt e que seu poder ia além das muralhas do mundo.

As irmãs deleitaram-se da atenção de alguém tão poderoso. E assim passaram o dia, até o entardecer quando Sumiråt disse que necessitava partir, mas Imbät não queria que ele fosse, e tentou faze-lo ficar, sem êxito.

Ele tentou, então, levá-las com ele em sua caminhada árdua, pois apenas com elas seus pés não se cansariam. Mas Ambät que não se via longe de casa, negou, indignando a irmã a qual não iria sem ela. Sumiråt não aceitando a rejeição segurou seus braços com as mãos brilhantes, causando queimaduras nas irmãs, que gritavam de dor.

Ambät olhou o céu, e sentiu a energia entrando em seu corpo.

Enquanto a noite vinha, seu corpo brilhava em um azul claro, pois este não continha tamanho poder. Ao ver ambas as irmãs irradiando magia, Sumiråt tentou mata-las com sua lança, feita dos mais fortes raios solares, o que fez o coração de Imbät se quebrar e pensar "como o seu amor poderia voltar-se contra ela?"

As irmãs uniram força para conter a ira do homem, e como uma saída desesperada às explosões de magia que por pouco não as atingia, elas decidiram colocar Sumiråt numa capsula no céu, onde ele não poderia lhes fazer mal, e se tentasse só causaria belas luzes para serem admiradas por quem ali passasse.

Após a prisão de Sumiråt, o remorso corroía Imbät, que ainda amava o homem, afinal, ela queria ir com ele, queria amá-lo.

Temendo que a irmã libertasse tal monstro, Ambät aprisionou-a em outra cápsula no céu. Uma menor, que depois de conter a menina, emitia uma luz azul tão límpida e tão pura.

Ambät quebrou-se em lágrimas ao ver o brilho da irmã, e viu que não podia longe dela estar. Usando sua própria mágica, a menina construiu um novo casulo, e ao lado de sua irmã consolidou-se, irradiando uma luz ainda mais brilhante.

Então o mundo ganhou mais uma lua.

E dizem as boa línguas que Imbät, a lua menor, continua apaixonada por Sumiråt, tentando com todas as suas forças, se aproximar de seu amado, e é Ambät que à segura, por isso - Normalmente Felicia o beijava na testa nesta parte - podemos vê-las durante o dia também. "

Dândaro sorria conforme a lembrança ao poucos deixava sua mente, ele ainda a amava, assim como Imbät amava Sumiråt. Olhou pela luneta mais uma vez e viu terra. Um continente logo na linha do horizonte.

-Terra à vista. - Dândaro gritou, mas o barco sacolejou, tão forte e bruscamente que os marujos que estavam à estibordo e bombordo caíram no mar, desaparecendo imediatamente.

Tentáculos imensos emergiram da água e agarraram o navio, forçando-o até as tábuas do assoalho começarem a desprender e o navio a partir ao meio.

O monstro não parara, mas durante toda a destruição Dândaro só conseguia pensar que estava na frente de um Kraken, a criatura mais temida dos onze mares, era um tipo de lula gigante, com quatro fileiras de dentes e tentáculos capazes de cortar ao meio o corpo de doze homens de uma só vez sem a menor preocupação. Dândaro via a cena e apenas esperava que Ambät tivesse piedade de sua insignificante alma. 

A Deriva das SombrasStories to obsess over. Discover now