Medo. Terror. Confusão. Nada mais ocupa minha mente do que isso. Estou trancada, olho para os lados e não vejo portas ou janelas por onde fugir. A água vazando já chegou aos meus joelhos. Uma sensação de desespero atinge meu corpo como um raio. Eu analiso cada canto deste cômodo, um cômodo que um dia já foi minha casa, que um dia já chamei de lar, agora está todo dominado por dor e medo, e não é possível achar uma saída, Não há uma saída.
De repente já posso sentir a água na minha barriga, meu corpo todo se arrepia. Tento correr, talvez fugir, mas não há lugar pra se esconder.
E então quando o líquido finalmente chega ao meus pescoço, eu desisto, entrego o jogo.
Não sobreviverei.
Quando simplesmente deixo de tentar, a água invade meus pensamentos, já estava acima da minha cabeça. Eu fiquei ali. Pura e inocentemente flutuando, ainda prendendo a respiração, talvez não tivesse desistido por um todo.
E então eu acordo, como sempre no mesmo ponto, nunca descobri o que poderia acontecer se eu não acordasse.
Percebo que estou suando, então abro os olhos. Ao abrir vejo o mesmo cômodo, sim, aquele do sonho. Só que agora está diferente, cheio de meninas e meninos.
Imagino que você não deva estar entendendo nada, então vou explicar, eu moro em um orfanato. Junto comigo mora mais 10 crianças e 5 adolescentes, já está na capacidade máxima. Me mudei pra cá quando tinha 10 anos, hoje tenho 17. Passei tempo o suficiente aqui para me acostumar. Me acostumar a não ter ninguém pra me apoiar ou pra cuidar de mim. Me acostumar a nunca ganhar um beijo de boa noite, ou uma bronca no final do dia porque fiz besteira. Enfim, me acostumei com a famosa solidão. O que eu provavelmente não deveria ter feito.
Você já se perguntou o que a solidão faz com uma pessoa?
Essa pergunta me assusta, me aterroriza.
Talvez porque eu saiba exatamente a resposta pra ela, ou talvez porque eu esteja bem perto de descobrir. E isso me assusta mais do que tudo.
Enfim me levanto em meio de gritos e risadas, as crianças já haviam acordado. Sento na cama esfregando o rosto como se quisesse tirar o sono do meu corpo, fico alguns minutos assim até criar coragem e ir ao banheiro. Quando entro vejo uma cena ao qual já estou acostumada: várias garotas se maquiando ou penteando seus longos cabelos. Porém hoje estavam demandando um pouco mais de tempo a isso, e logo a explicação atingiu minha cabeça como uma flecha, era o primeiro dia de aula. Eu fiquei encarando a parede por longos segundo pensando em como aquilo seria terrível. Era o último ano do ensino médio, mais um ano pra conviver com pessoas insuportáveis. Logo, uma voz me tira de meus pensamentos:
- Ei, terra chamando Amora!- diz Sofia, enquanto termina de trançar seus cabelos loiros.
Eu gostava de Sofia, ela era minha única colega ali dentro. Isso mesmo, colega, eu não tinha amigas.
- Bom dia, Sofia. - digo indo em direção a pia. - Está ansiosa para o primeiro dia de aula?
- Não sei ansiosa, talvez aflita. - ela diz ajudando uma menina a se arrumar. - Eu acho que esse será o melhor ano.
Assenti com a cabeça, obviamente mentindo, aquele seria o pior ano.
Lavo o meu rosto, passo uma leva maquiagem e arrumo meus cabelos, então um barulho invade meus ouvidos, era o sinal do café da manhã. Todas as garotas se apressam a sair dali, eu fico uns tempos me encarando antes de partir. Meus cabelos curtos, no comprimento do ombro, era castanho mas eu pintei as pontas de rosa, o que enlouqueceu a Irmã Suzi (é um orfanato católico), mas eu nem liguei, afinal, preferia assim. Depois de um tempo refletindo a minha patética existência, resolvi descer.
Estava usando a ridícula roupa da escola, uma saia xadrez azul e branca (que mais tarde eu ergueria, odeio roupas grandes), uma blusa social branca que acompanhava uma gravata também azul, um par de meias brancas que ia até os joelhos e um all stars preto, esse não era o sapato certo mas eu convenci a Irmã Suzi a me deixar usá-los.
Tomei o meu café da manhã, peguei minha mochila e junto com os outros adolescentes fomos para o ponto esperar o ônibus. Depois de alguns minutos já estávamos a caminho.
Era irritante a angústia que roía meu estômago. Eu só queria que chegasse logo para acabar logo. Passados 40 minutos, finalmente chegamos.
Esperei o ônibus partir e arrumei minhas roupas. Ergui a saia para que ficasse na metade de minhas coxas, tirei a blusa que estava por dentro da saia, afrouxei a gravata, passei um gloss e entrei, não esperando os outros.
Passei da entrada e senti alguns olhares sobre mim, eu adorava aquilo. Não demorou muito até que alguns idiotas vieram falar comigo, por dentro estava rindo de cada um mas por fora fingia interesse só pelo prazer de ver suas carinhas imaginando que dariam um possível beijo na minha boca. Era patético.
Finalmente bateu o sinal, esperei alguns minutos e enfim entrei.
A professora chegou e anotou seu nome na lousa, inutilmente pois todos já a conheciam dos anos anteriores. E então apareceu aquela figura na porta. Uma pessoa. Um garoto.
Ele era uma mistura de anjo angelical com o pior demônio do inferno, não falo que ele era feio, longe disso, era o menino mais lindo que já vi. Mas aqueles olhos, aqueles olhos castanhos, eu reconhecia seu olhar, era a escuridão, o inferno em forma de olhos. Eu sabia que ele seria problema, é por isso que de imediato já me interessei.
Eu gostava de problema.
Logo me ajeitei na cadeira, cruzei minhas pernas e joguei meus cabelos de forma natural pro cima dos ombros. Fiquei o encarando do momento que entrou na sala, eu queria que ele me notasse.
Então a professora anunciou:
- Alunos, eu sei que todos já se conhecem, mas esse ano teremos um novo colega.- ela disse com uma expressão alegre, como se realmente estivesse feliz. - Ele é aluno de intercâmbio, então façam de tudo pra deixá-lo confortável. Pode se apresentar, por favor.
O menino se virou pra a classe, todos os alunos estavam interessados e com olhos arregalados, fingi desinteresse. Então ele finalmente falou:
- Meu nome é Nathan, tenho 18 anos e sou do Brasil. - disse com um sorriso no canto dos lábios. Ele era lindo, eu precisava beija-lo.
Então, a professora apontou um lugar atrás pra ele se sentar. O menino assentiu e começou a andar e virou na minha fileira, eu o encarei. Então caminhando ele começou a encarar alunas meninas, com um certo interesse em seu olhar, e finalmente passou por mim. Passou direto por mim, sem ao menos se importar em olhar. Eu sabia o que ele estava fazendo, como sabia, eu usava aquele truque o tempo inteiro.
Foi então que eu pensei. Esse garoto quer jogar, mas mal sabe ele que eu adoro um jogo. Porém só há um jeito de terminar um jogo comigo, e ambos saem extremamente machucados, e ninguém ganha.
No meu jogo, eu sempre sou o predador, e a presa nunca me escapa.
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Até a última gota
Romance"Você já se perguntou o que a solidão faz com uma pessoa? Essa pergunta me assusta, me aterroriza. Talvez porque eu saiba exatamente a resposta pra ela, ou talvez porque eu esteja bem perto de descobrir. E isso me assusta mais do que tudo." Amora...
