Olhos de mar

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Era alguém comum. Acordava sempre às 7h em um rigoroso cotidiano que não havia a necessidade de despertadores ou de outros mecanismos eletrônicos.

Todos os dias às 7h, acordava e de um salto saía da cama, vestia a camisa de linho branco, presente de sua esposa, ou ex-esposa, essa, outra história de amor mal resolvido. Calçava seus tênis e ia tomar o café. Um dia comum de alguém comum que, parece, adorava a chata e monótona vida.

Naquele dia comum, tentando esconder o interior de seu ser foi surpreendido, em sua mesa de trabalho, por um perfume adocicado com notas florais. Era como se o pequeno espaço que compreendia sua mesa e a estante de livros fosse preenchido completamente pelo êxtase daquele perfume que, vagarosamente, tomava conta de seus pensamentos.

Em seu íntimo sabia que não deveria afastar-se de sua linda e bela vida construída pelo suor e obstinado sonho de uma vida comum e, ao que parece, próspera. O perfume o foi levando ao sonho, aquelas adocicadas notas pintavam uma imagem brilhosa e ao mesmo tempo: conhecida e estranha.

Já absorto nos pensamentos que não deveria nutrir, nem tê-los, a imagem tornava-se mais nítida. Mas não devia ser, não podia ser, esse amor impossível devia estar morto, mas estava latente e vivo e a cada minuto voltava doendo o peito no espaço onde diziam haver o coração. Parece que é verdadeira a luta entre a razão e a emoção.

A imagem já nítida estava ao seu lado direito, nas costas: a moça doce e sensível que vivia um conto de fadas com seu príncipe encantado, que não era ele. Nesse momento, contudo, sua imagem se materializava trazida por um perfume, gostos, absorvente de ipê roxo florescendo na primavera.

-Sou seu Anjo querido...

Mas eu não posso pensar, eu não quero lembrar que... Mas a moça estava ali, parada, risonha e doce, olhando pra ele com aqueles olhos que lhe lembravam o mar, a serenidade do mar. Tentando escapar desse amor, dessa dolorosa paixão que o perseguia, não havia outra alternativa. Junto à moça de seus pensamentos faz uma despedida; naquele momento sem cartas, nem adeuses, fez-se poesia afogado naqueles olhos de mar.

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