Alguém procura por um interruptor. Seus dedos deslizam pela parede e a mão tateia com dificuldade, mas encontra o que procura.
Surge a luz. A claridade invade o ambiente e revela um lugar decrépito, visivelmente abandonado. É como um enorme ferro-velho, composto por quinquilharias e carcaças. Se não fosse pelo som das engrenagens e o ruído de um computador ao iniciar o sistema, o simulador enganaria facilmente todos ali.
- Esse lugar já viu dias melhores, - diz a primeira figura que surge por trás de uma coluna de cimento aos pedaços - Mas eu sempre gostei de visitar o Miragem. Era o meu projetor holográfico favorito quando criança e sempre, sempre amei essa reprodução. Foi a primeira vez que atirei em alguém. Todos com um cartucho de tinta e eu carregando chumbo.
Silêncio.
A figura começa a andar e segue na direção de um grupo de pobres almas acorrentadas e vendadas, com armas apontadas para suas cabeças. Atrás deles, estão os executores, escondendo sua identidade atrás de suas máscaras de distorção facial.
- É claro que não seria o ideal estar armado em uma inocente partida de paintball. Ninguém espera sair de lá em um saco preto, o ideal seria comer uma pizza com a sua equipe depois de uma vitória. Mas eu não estava lá para jogar, - ele para na frente de seus prisioneiros e observa suas reações - Eu estava lá para provar um ponto. E estou aqui para fazer a mesma coisa, com a ajuda de vocês.
Um dos executores empurra a arma mais perto da cabeça de sua vítima.
- De joelhos.
- Eu... eu não sei do que precisa, mas se for dinheiro, todos nós aqui podemos resolver isso, - gagueja e tenta argumentar a pobre alma com seu captor - E ficaremos em silêncio, não vamos falar nada, é sério. Você sabe que eu...
- Nome - interrompe a figura.
- Daniel, - responde com dificuldade - Eu não tenho intenção...
- Pretende colaborar?
- Eu não entendo...
- Repito: Pretende colaborar?
- Por que está fazendo isso conosco? Eu achei que seria... - Daniel é interrompido pela bala que atravessa seu maxilar. Ele desmaia.
Todos os acorrentados ficam em choque.
- Temos mais três possíveis colaboradores, além de munição e tempo suficiente, - a figura volta a falar enquanto chuta o corpo de Daniel para o lado, checando seus bolsos e procurando por algo escondido, mas não encontra qualquer coisa de seu interesse - E eu sou paciente, mas tudo tem um limite. Vocês me cansam. Não sabem como é ver pessoas como vocês vindo aqui em baixo, nos vigiar, como se fossemos uma atração de circo, só porque suas vidas não tem sentido algum nas colônias.
Ele volta a atenção para o próximo da fila e começa a encará-lo, esperando colaboração.
- Lincoln... Lincoln Tar, - o prisioneiro tenta encontrar as palavras - Pretendo colaborar.
- Viu só? Você poderia estar inteirinho agora, Daniel. O seu amigo, Lincoln, vai me dizer de qual colônia ele vem, não vai?.
- Sim, eu vou, - diz Lincoln entre os dentes - Eu venho de Felix.
- Há! Excelente, eu já peguei um grupinho de Felix que era bem parecido com vocês. Um deles se mijou todo, mas pelo menos eles foram educados o suficiente para não me fazer gastar balas, não é mesmo, Daniel? Mas está tudo bem, vocês tem sorte, eu posso estar na sua lista de terroristas por um motivo, mas não chego a ser um assassino. Isso quer dizer o que? É isso aí, vocês vão voltar para casa!
Ele faz um sinal. Os executores tiram as algemas e correntes dos prisioneiros e devolvem toda sua documentação, mas não deixam de apontar as armas.
- O que vamos fazer é bem simples. Prestem atenção. Sabe quando você captura um grupo e espera que pelo menos um dos integrantes colabore com o interrogatório, aí libera esse único e solitário ser de volta para mandar algum tipo de mensagem? Então, eu não funciono dessa maneira. Acho que você deve manter o máximo de pessoas vivas para que a mensagem seja entregue o mais rápido possível e para a maior quantidade de pessoas que puder. O seu amigo aqui, - aponta para Daniel, que já estava começando a acordar, soltando um gemido de dor - Ele é o que chamamos na industria do entretenimento de 'um exemplo'. E vocês sabem que eu tenho um apelo pelo dramático, os trouxe em um simulador abandonado só para criar essa atmosfera intimidadora. Mas eu não quero matar seu colega de trabalho. A bala não perfurou nada de muito importante, então depois de uma visita ao melhor hospital de Felix, e eu sei que vocês tem os melhores, tenho certeza que Daniel estará de volta ao seu escritório, e vocês poderão se encontrar na hora do almoço para conversar sobre aquele dia engraçado em que vieram até o meu planeta, aproveitaram das minhas prostitutas, das minhas bebidas, e do meu estilo de vida exótico, e voltaram vivos para contar para todos na sua linda colônia que eu pretendo pegar de volta o que é meu. Foram vocês que nos abandonaram, não adianta chorar pelo leite derramado, esse planeta não é mais seu.
Todos voltam a ficar em silêncio, confusos.
- É mesmo, eu esqueci de dizer, - ele sorri e aperta a mão de Lincoln. - Eu não me introduzi. Meu nome é Robert e se tudo der certo, poderemos nos encontrar novamente mais cedo do que imagina.
BINABASA MO ANG
Perdido no Ruído.
Science FictionUm ataque terrorista desencadeia uma guerra civil e uma intervenção da frota é iminente. Foto da Capa: Steve Roe
