Se o aniversário é pra ser uma data inesquecível, eu não sei, mas pra mim é a pior data do ano. Hoje, dia 14 de abril de 2010, eu completo 80 anos de idade. Meu nome é Davis Waters, moro no Kansas, Estados Unidos. Sou casado há 62 anos e confesso que não vejo diferença entre estar casado e não estar casado.
Conheci minha esposa no dia do meu aniversário de 16 anos, em uma festa surpresa dos meus amigos. Pessoas de toda a escola, professores, alunos, funcionários e dezenas de convidados dos quais eu não sabia quem eram. Melina estava lá. Com seus cabelos ruivos presos com grampos, deixando alguns fios caindo sobre a testa. Pensei que era só uma garota, como todas as outras; mas ela não pensou o mesmo de mim.
Aquela figura que exalava pureza e complexidade levantou-se e veio ao meu encontro. Ela andava de forma leve, como se estivesse flutuando nas flores do seu vestido folgado e curto. Melina se sentou ao meu lado e apresentou-se, disse que tinha me visto algumas vezes pelos corredores da escola, e me achava muito bonito. Eu agradeci e disse que nunca tinha a visto antes, nós rimos. Seus dentes, sua boca e o som do seu riso entravam em perfeita harmonia. "Davis?" disse ela, tentando me acordar. Depois desse momento mágico, marcamos um café. E a história começou aí.
Há quatro meses, eu e Melina fomos ao médico, fazer exames que fazemos todos os anos. Daquela vez foi diferente. No final da minha tomografia, fui falar com meu médico, como de costume. Ele estava com a aparência triste, o que deu a entender que alguma coisa estava errada.
Então ele disse:
- Senhor Waters, sinto muito ter que contar isso ao senhor, sei que conheço o senhor há muitos anos e que temos uma...
- Diga logo, Roy. Sei que tem coisa ruim por aí.
- O senhor foi diagnosticado com câncer no pulmão e no diafragma, nivel 3 e 4.
- Tenho que fazer ou comprar algo?
- Sim. O senhor terá que procurar o Instituto do Câncer e comprar alguns remédios.
- Vocês não irão me drogar.
- Não se mate, meu amigo.
- Meu corpo já faz isso por mim, o senhor mesmo disse.
Peguei os exames e sai da sala. Contei a Melina o que aconteceu, e foi uma questão de instantes até ela ficar quase transparente e desabar no choro em meu peito. Não entendi, como sempre, aquele exagero da parte dela. Quando chegamos em casa, Melina começou a dizer que iria cuidar de mim e que iríamos fazer tudo o que o médico mandasse, ela terminou com "Você vai ficar bem, meu amor." e eu disse "estou bem, Melina.". Ela me abraçou forte e sussurrou algo em meu ouvido, mas eu não pude ouvir. Até hoje não fui a nenhuma quimioterapia e não comprei nenhum remédio. Eu economizei o dinheiro desses gastos desnecessários para fazer algo hoje. E nós fizemos.
Hoje é terça-feira e estamos na Rússia. Já passamos por cinco países: Inglaterra (Reino Unido), Bélgica, Alemanha, Itália, e Grécia. Amanhã de manhã iremos para Austrália, e sexta voltaremos para monotonia do Kansas. Eu odeio os Estados Unidos.
O médico não iria me permitir sair do país "no meu estado" apesar de eu estar bem, então, tive que burlar algumas leis e datas de alguns exames para legalizar meu passaporte sem Roy nas minhas costas. Melina não concordou com nada disso, do inicio ao fim, eu já estava ficando de saco cheio de ouvi-la. Geoffrey, meu filho, estava triste, mas a empolgação de viajar o mundo a custa de seus pais era muito mais evidente. Geoffrey era um rapaz
que desde pequeno queria ser contador. No final das contas, ele virou assistente de contabilidade; com um salário que só dá pra comprar um fast-food por semana e ir para o shopping uma vez no mês. Eu trabalhei com juiz por 42 anos, estou aposentado há 8 e recebo um salário considerável, que me permitiu fazer essa viagem, planejada desde sempre por mim
Quando abri os olhos pela primeira vez hoje, me senti pesado, como se ainda tivesse que dormir por um dia inteiro para me recompor daquele cansaço. Eram por volta de dez horas e Melina e Geoffrey já estavam acordados. Não me importei com nada, como sempre e voltei a dormir. Quando eu acordei eram 4 horas da tarde. Acordei num pulo, e esse pulo me custou bastante. Fiquei de pé ao lado da cama nem por dois segundos e me sentei de novo. Eu estava pesado, cansado, com dor nos pulmões, na cabeça, e em outros órgãos que eu nem sei o nome. Veio-me uma vontade de vomitar, e ela foi suprida, com resultados não muito agradáveis. Olhei para o chão e me deparei com uma poça de sangue misturado com algo
preto, dando um contraste no tapete branco. Olhei pra os lados e eles não estavam lá "Devem ter ido comprar um café...", pensei. Posso aguardar deitado. Ou em pé. Posso ir comprar um café também. Mas primeiro preciso me lavar. Fui até o banheiro, tirei a roupa e liguei a água da banheira. A água estava quente. Deitei-me lentamente, e com a porta aberta e as roupas no chão, e dormi novamente. Sinto como se tivesse dormido por dois minutos, e Melina estava lá, me segurando pelos braços, seus cabelos soltos encostando levemente na água, que discretamente tingida de vermelho
- Davis, querido, você está bem? Davis? Fale comigo.
Ela dizia meu nome várias vezes e também outras coisas das quais eu não conseguia entender. Minha cabeça estava girando e meus pulmões estavam prestes a explodir. Sussurrei que a banheira estava suja, minha esposa logo entendeu. Melina esvaziou a banheira e encheu de água fria, e, pela primeira vez, fiquei envergonhado por ela ter me visto nu - apesar de isso não fazer sentido algum. Eu não conseguia fazer nada, nem me mexer, nem falar. Só conseguia pensar.
Pensar que em toda a minha vida fui um desperdício de recursos naturais, pensar em como não fiz nada revolucionário ou algo que mudasse pequenas coisas, a questão é que eu não mudei nada. Só conseguia pensar em como nasci, reproduzi um filho inútil e casei com uma mulher burra (burra por se casar comigo). Eu sentia a vida ir embora, todas as chuvas e o sol, a neve e o extremo calor. As lindas montanhas e as profundezas dos ricos oceanos. Toda a beleza e a tristeza de toda a forma de vida passavam diante de mim. Não estava pensando apenas em mim, mas em Melina. Sempre fui muito dependente de Melina e ela ainda mais de mim, mas eu, especialmente, não conseguia cuidar muito dela - nem de mim. Geoffrey era minha menor preocupação. Acho que depois do choque da minha morte ele ficaria bem feliz em receber parte da minha herança. Eles eram minha única família, e eu os deixaria. Deixaria a mulher que entregou sua vida inteiramente a mim. Que egoísmo!
Quando abri os olhos novamente, estava na cama, de pijama. Geoffrey estava sentado numa poltrona, mexendo no que eles chamam de "smartphone", algo que nunca irei tocar na minha vida. Ah, eu esqueci que estou morrendo, deixa pra lá. Melina estava sentada ao meu lado,
chorando, bem baixo.
- Melina querida, sabíamos que esse dia iria chegar. - disse eu.
- Davis, meu amor, não diga isso, preciso de você aqui.
-Você ficará bem, Melina.
- Você não pode me deixar, Davis, eu...
Ela chegou mais perto do meu ouvido e disse: "Quem cuidaria de Geoffrey? Quem, quem cuidaria de mim? não posso perder você..." eu não sabia o que fazer, então disse "Você ficará bem, Melina". Ela desabou no choro, mas de repente parou.
Melina tentava falar, mas além de não fazer sentido o que ela tentava reproduzir, ela quase não fazia som algum. Ela levou o braço direito até o esquerdo e ficou segurando ele, então, eu entendi: Melina estava tendo uma parada cardíaca. Fiquei desesperado, e ao mesmo tempo, tinha uma paz dentro de mim, inexplicável.
-Ei, ei, Melina, fica comigo. Geoffrey, chame uma ambulância.- Eu disse pro meu filho limitado.
- O que está acontecendo? Pai, pai, o que está acontecendo?
-Só liga, Geoffrey!
Melina dizia que quando morresse, poderíamos fazer o que quiséssemos com o corpo dela. Eu dizia que iria cremá-la, ou que queria ser cremado. Ficariamos no pacífico, na maravilhosa profundeza das lindas águas. Melina se deitou ao meu lado com a mão no coração e disse "Eu te amo", fiquei bem feliz por ela ter conseguido pronunciar alguma coisa.
Disse que também a amava e ela se foi. Minha única esposa, em toda a minha vida, se foi.
Não chorei, porque isso era algo impossível pra mim, mas fiquei desolado. Eu perdi tudo, dos almoços de domingo e os sermões pelo vaso sujo até às massagens de noite e as viagens para a Europa. Eu iria me recompor um dia, mas não agora. Me sentia perdido mas não
demonstrava pra Geoffrey, que começou a chorar como uma criança sem pirulito. Cremamos Melina na Rússia e fomos pra Austrália, e lá, já me recompus, sem Melina.
Que falta sinto da minha mulher.
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Frio na Rússia
Short StoryDavis é um senhor que trabalhou como juiz a vida inteira e agora está aposentado, e com câncer. E fez questão de não fazer tratamento algum. Davis não se importa com nada, mas aos 16 anos teve uma recaída por Melina, sua atual e única esposa. Também...
