Dois dias. Dois dias sem comer. Gemo em reprovação quando meu estômago ronca. "É para o seu bem, estou sem comer por que fiz algo errado". Sentada no chão frio e gélido de forma fetal, extremeço quando minha pele entra em contato com o mesmo. Não posso reclamar, estou "errada".
-Você apanhou por que você merece, deve me obedecer para a gente ser uma familia feliz. -Escuto seu murmúrio rouco e grave de sua voz preencher o quarto.- Entendido?
-Sim.- Quase não ouço minha voz de tão baixo. Com um suspiro sôfrego levanto a cabeça e o olho... Seus olhos me passam medo... Pavor, como se eu estivesse acorrentada e no escuro sem poder fazer nada. Sinto cheiro de desespero. O meu desespero.
- Ótimo filha. É para o seu bem.-Sua voz ecoa pelos meus ouvidos, como uma bombinha preste a cair antes da explosão total e a dor tornar a arder.
Com pensamentos distantes, escuto o ranjer da porta e meu corpo rapidamente responde, logo estou tremendo e com os olhos já úmidos, temendo outra sessão de tortura. Dores se alastram pelo meu corpo e já posso sentir a cor roxa marcada na minha pele como uma tatuagem queimar, e reprimo um rugido de dor. Tenho que ser forte. Por ele. Tirá-lo daqui. Sinto leves e delicados dedos acariciarem os meus fios de cabelo suavimente, quase com timidez. Não poderia ser ele. Faz dias mais ainda lembro claramente das sensações de suas mãos ásperas tocando bruscamente o meu corpo.
Do estalar e a queimação, vinda junto com a vermelhidão nas minhas bochechas já finas. Com os olhos arroxeados, com olheiras profundas causados pelos seus murros em minha face.
"Você mereceu", essa voz soa no mais profundo de minha mente, trato logo de me "convencer". Os poucos minutos que pareciam horas ainda me causam várias cenas de puro terror e uma horrível sensação de liberdade -por mais mínima que seja-. Eu finalmente o enfrentei, porem paguei caro por isso. Meu corpo é a prova. Não deveria ter sido tão descuidada, mas agora eu preciso continuar. Seguir o plano. Todavia, posso sentir exatamente a já conhecida dor da fivela de seu cinto me causou. Saiu da realidade quando seus delicados dedos param e a ouço sussurrar:
-Filha, você precisa o obedecer, mereceu levar aquela surra. A gente precisa dele para pagar as contas, Emma. Você fez errado, mereceu aquilo. Eu preciso de dinheiro, ta bem. O obedeça.-
Sabia que ela diria aquilo, ela sempre falar depois de eu apanhar.
-Vai se arrumar. Você tem aula e ele já saiu.
Levanto-me cansada e exausta psicologicamente. Eu tenho que aguentar, pelo Igor. Eu vou tirá-lo daqui. Escuto o bater da porta e tento segurar as lágrimas. Ela se foi e sem poder mais aguentar derramo tudo que tem me cortado. Soluçando como uma criança, lembro de Igor e sorrio perante as lágrimas. Ele é meu porto seguro... Minha força.
Flashback on
Entro desesperada no quarto e o olho. O pai estava bêbado e poderia querer fazer algo com ele, não iria deixar ele tocar em um fio de cabelo de Igor. Ele não. Meu motivo de viver e minha destruição. Lembro-me quando o peguei no colo pela primeira vez. Suas maozinhas quente tocando minhas bochecha, seus olhinhos de cor âmbar feito caramelo me observando claramente com medo e uma pitada de curiosidade no olhar, suas duas meixas coradas no seu rosto já rosado, seu corpo tão pequeno e delicado em meus braços e claro, o seu choro contido pois sabia que poderia confiar em mim. Eu o amava antes mesmo de lhe conhecer. Ainda o amo. Saindo de meus desvaneios, dei dois passos para perto do berço e logo vejo seus delineados lábios abrirem um sorriso tão belo quando me vê. Aquele sorriso foi a melhor coisa que me aconteceu e esqueço das agressões de Alex. Com o dorço da mão direita, limpo os vestígios de lágrimas que nem eu sabia que tinha. Encontrei um motivo para suportar isso, e tirá-lo daqui será o meu objetivo. Não posso o ver apodrecer junto com essas pessoas. Nunca. Ele é a luz no fim do meu túnel. Igor não merece viver no mesmo mundo caótico em que vivi. Estendo meus braços delicadamente e o puxo para mim. O sento no meu colo e sinto seu cheirinho de pinheiro e terra molhada que só ele tem, e é tão gostoso. Riu com meus pensamentos. Suavimente eu digo olhando em seus pequenos olhinhos:
-Eu vou te tirar daqui irmãozinho, vou te dar um mundo melhor.- com a voz embargada, os olhos marejados e um olhar amoroso- Eu te amo irmão.- e lhe dou um beijo na testa.
Flashback off
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Minha querida vida.
Short StoryUnhas me cortam, dilacerando-me, rasgando minha pele como de fosse um pedaço de carne qualquer. A minha garganta implora por ar, para respirar, ela queima e arde clamando por não me calar. Não posso. Correntes se alastram pelo meu corpo, submetendo...
