Denise ou Giuliana?

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Era uma terça feira, por volta de meio dia, eu esperava minha melhor amiga para discutirmos mais uma vez sobre o que eu deveria escolher como tema do meu TCC.

A laíssa tinha uma dificuldade enorme em chegar nos lugares na hora – desde que nos conhecemos na escola quando só tínhamos 8 anos ela nunca chegou na hora marcada em lugar nenhum- e dessa vez não era diferente.

A Starbucks estava cheia e eu estava ocupando sozinha uma mesa com 4 lugares. O dia era típico de outono – eu amo o frio, mas a garoa constante me incomoda- e eu não estava com a menor vontade de interagir com ninguém.

Enquanto eu esperava a atrasadinha, uma garota com curvas bem definidas e um rosto angelical se aproximou e pediu educadamente para sentar-se na mesa que eu estava pois não havia mais lugares para se sentar.

-Oi! Tudo bem? Você se importa se eu me sentar aqui? Esse lugar está super cheio e preciso terminar um trabalho da faculdade urgente.

Eu apenas assenti com a cabeça e puxei minhas coisas que estavam espalhadas por toda mesa.

Embora eu não estivesse com vontade de interagir, era impossível não notar a beleza da menina.

Ela era ruiva, olhos de um tom de azul que eu nunca havia visto, não era alta mas tinha um tom de pele branca com sardas discretas, e um corpo perfeito- dentro dos padrões que são impostos pela sociedade- parecia um anjo.

-Esses trabalhos de faculdade ainda vão me deixar louca! Você faz faculdade?

A garota tentava de todas as formas iniciar uma conversa comigo.

-Uhum, verdade - eu só queria mesmo fazer o meu trabalho sobre figuras de linguagem- triste!

Nesse momento eu resolvi olhar para a garota e notei algumas olheiras e um resto de maquigem –como quando você volta da balada e fica com preguiça de tirar toda a camada de delineador que você passou na noite anterior- e talvez meus olhos estivessem enganados, mas me arrisco a dizer que haviam vestígios de lágrimas.

Resolvi então dar atenção.

-Eu faço faculdade de jornalismo aqui na Augusta mesmo e você? Aliás...qual seu nome?

-Eu me chamo Deni...Giuliana, e faço medicina. E Você?

-Eu me chamo Maria Helena mas todo mundo me chama de MaHe . Você faz medicina?! Minha mãe iria te adorar- confesso que essa frase saiu seguida de uma revirada de olho- ela sempre quis que eu fosse médica.

-Acredite, a ultima coisa que sua mãe gostaria é um filha como eu!

-Ué, claro que não! Uma menina bonita, aluna de medicina, inteligente...é a filha que minha mãe pediu à Deus hahaha!

No fim da minha indagação a moça estava com lágrimas nos olhos e eu fiquei sem entender nada.

-Giuliana o que foi? Eu falei algo de errado?

-Não MaHe, não falou nada de errado só não estou no meu melhor dia.

Na porta do café, eu avistei Laíssa entrando com aquele olhar de desespero achando que eu havia ido embora – eu realmente teria ido pois já fazia mais de uma hora que eu estava esperando, mas a menina ruiva me segurou.

-Olha minha amiga chegou, vou apresentar vocês, ela vai gostar de você - até porque a Laíssa gostava de todo mundo, ela era a pessoa mais sociável do mundo.

Mas a garota pegou a bolsa e saiu as pressas.

-Desculpa, eu estou atrasada para um compromisso. A gente se encontra por aí. E vê se cuida dessa ferida ai hein!?

Ela apontou para um corte no meu braço adquirido nas ultimas semanas, de uma forma que eu só queria esquecer.

-Ah! Ok! Até mais então.

Laíssa se sentou ao meu lado e viu a menina saindo esbarrando em outras mesas sem entender nada.

-Você fez uma nova amiga?! Devo chamar um médico?

-Muito engraçada você Laíssa, devia ser comediante e não publicitaria!

Nós duas passamos o dia todo conversando sobre o meu TCC e os possíveis temas. Minha amiga continuava insistindo na ideia do blog sobre signos e suas características.

Eu não queria falar sobre astrologia, eu queria jornalismo relevante, queria fazer diferença na vida das pessoas, e ser uma canceriana não necessariamente resolveria a vida de alguém. 
Os dias se passaram e a sexta-feira(grande amiga dos universitários) chegou.
A Laíssa já tinha um milhão de baladas e bares para me obrigar a ir -me pergunto de onde ela tira tanto ânimo, eu só consigo pensar no meu colchão e cobertor para o fim de semana.
A minha melhor amiga terminou o namoro com o -rei da cocada preta, senhor segurança e melhor que todos no universo- Nicolas a mais ou menos dois meses de uma maneira não muito legal, e desde então ela se jogou numa constante rotina de baladas e autoafirmação, a lala( como minha mãe chama) não chora nunca, em anos de amizade eu só a vi chorar uma vez pelo cachorrinho que faleceu. Não é que ela não sofra, ela só não demonstra.
Nesse fim de semana a Laíssa decidiu que eu deveria ir junto e beijar uns caras (palavras dela).
Então limpei meu all star branco de couro, passei um delineador torto e um batom vermelho, e coloquei minha melhor roupa de " não seduzir ninguém".
Eu já não via mais sentindo em procurar relacionamentos vazios em casas noturnas, tinha problemas maiores.
Chegamos na balada e eu procurei correndo meu cantinho para sentar(bem coisa de jovem mesmo né).
Foi uma noite normal, Laíssa beijou uns 8 caras, engraçado a desenvoltura que ela tinha para iniciar conversas - invejável.
Como todo universitário sem "paitrocínio" esperamos o metrô abrir e subimos a Rua Augusta a pé e ligeiramente alcolizadas- eu menos que a laí.
Quando chegamos na esquina da Paulista com a Augusta eu avistei parada em frente ao semáforo a Giuliana e como o álcool me dá uma vontade que nunca tenho de socializar, resolvi cumprimentar.
Eu já estava levantando a mão para gritar por ela quando vi um homem a puxando pela cintura e abrindo a porta de um belíssimo carro que não sei o nome mas deve custar meu rim.
Ela não parecia feliz ali então, corri e puxei ela pelo braço.
- Ei!!! Você não pode levar ela cara, ela não quer.
A expressão da Giuliana foi de total desespero.
- Escuta Denise, eu não paguei barato, então fala para sua namoradinha que agora o horário e do papai aqui.
- Denise?! Quem é Denise meu senhor?!- eu passei de revoltada a confusa em dois segundos.
- MaHe, eu não posso explicar agora, na verdade eu não devia te colocar nessa história. Mas me encontra segunda-feira no mesmo lugar daquele dia e eu prometo que te explico tudo!
A Giuliana Denise sei lá o nome dela entrou no carro e foi embora e eu fiquei na calçada ouvindo a laí berrar desesperada do outro lado da rua.
- Alguém viu minha amiga? Eu fui abandonada, algum garoto bonito disposto a me salvar desse lugar?
Eu voltei para o lado dela e acalmei-a.
- Estou aqui drama queen, chega de tequila por essa década ok?!
- Eu te amo sabia- disse minha amiga enrolando a fala e tropeçando nos próprios pés.
Fomos para casa dela e dormimos até as  cinco da tarde.
Acordei com uma enxaqueca digna de quem perdeu a dignidade na noite anterior.
Mas só conseguia pensar em quem era aquela menina de verdade, por que ela tem dois nomes? Será que ela precisava de ajuda.
A jornalista em mim já queria investigar.

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