NOITE SOMBRIA

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As circunstâncias que me levaram àquela estrada naquela noite fria passavam diante dos meus olhos a cada vez que os fechava. O vento frio parecia agulhas perfurando a pele. As palmas das minhas mãos ardiam em contato com o tecido do casaco que as cobriam. O cheiro metálico que me cobria irritava meu nariz e o líquido vermelho manchava partes das minhas roupas e as pontas dos meus cabelos.

Caminhava sem rumo pela estrada quase deserta, minha mente perdida em memórias recentes. O último olhar de minha mãe vagava em minha mente, assustado. Sabia que nunca poderia voltar para casa. Estava sozinha, perdida, queria chorar mas não conseguia, era como se não existissem mais lágrimas. Abracei meu corpo por causa do frio, as unhas compridas perfurando a pele dos meus brasos, a dor trazendo um pouco do controle que eu precisava.

Os faróis de um carro ilumimaram a estrada e o som do motor me retirou dos meus pensamentos, fiz sinal na esperança, quase perdida, de que ele parasse pois hoje em dia ninguém confia em parar para estranhos no meio da noite por causa do perigo. Foi uma grande surpresa quando o carro diminuiu a velocidade, parando logo em seguida. Me aproximei da janela quando o vidro foi aberto observando o seu interior, um homem não muito mais velho do que eu, com uns vinte e cinco anos, usando um terno de aparência cara olhou para mim parecendo preocupado.

_Para onde está indo?_Perguntou.

_Para qualquer lugar, longe!_ Minha voz saiu quebradiça como se estivesse engolindo cacos de vidro, não foi mais do que um sussurro.

Ele pareceu ficar com pena e abriu a porta do carro. Entrei me sentando no banco do passageiro, me mantendo encolhida, nem o aquecedor do carro era capaz de aquecer minha pele gelada. Ele ligou o carro passando a dirigir pela estrada escura, me mantive em silêncio, minha expressão séria, meus olhos ardiam mas as lágrimas não saiam, um nó em minha garganta a fazia doer. Fechei os olhos tentando bloquear o mundo à minha volta mas a voz ao meu lado me obrigou a voltar à realidade.

_Qual é o seu nome?_Perguntou tentando iniciar uma conversa. Apenas olhei para ele me mantendo em silêncio, não podia dizer meu nome ou nada que pudesse me identificar, ainda não sabia o porque de ele estar me ajudando, não podia confiar em um estranho que me deu carona no meio da noite. Minha experiência me mostrou que não se deve confiar em ninguém. Ele notou que eu não diria nada então continuou:

_Me chamo Matt, sou de Londres e estou aqui no Brasil por causa de um projeto da minha empresa para auxiliar crianças carentes.

Então ele é um cara bonzinho que gosta de ajudar? Mas mesmo assim eu ainda não confio, já conheci pessoas assim, normalmente não são o que dizem ser.

Me abracei tentando espantar o frio, ele olhou em minha direção e, percebendo que eu tremia bastante ergueu a mão, me afastei instintivamente não querendo que ele me tocasse mas ele apenas pegou um casaco no banco de trás do carro o estendendo pra mim com um sorriso reconfortante. Ele parece gentil!Murmurei um agradecimento enquanto pegava o casaco e o vestia com todo o cuidado não conseguindo evitar um gemido de dor quando minhas mãos arderam em contato com o tecido. Mordi o lábio inferior tentando evitar um gemido mais alto mais isso foi o suficiente para chamar sua atenção, foi só então que olhou para minhas mãos me vendo aperta-las com força. Na hora sua primeira ação foi parar o carro no acostamento, se virou pra mim segurando meus pulsos, tentei me liberar mas não adiantou, ele olhou minhas mãos vendo os cortes profundos espalhados pelas palmas e nos dedos, gemi de dor o que o fez erguer a manga da blusa vendo mais cortes. Ele me olhou assustado e atentamente, finalmente percebendo que as pontas dos meus cabelos e partes das minhas roupas estavam manchadas de sangue.

_Quem fez isso com você?!_ Perguntou de forma aflita, novamente apenas o olhei, não dando nenhuma resposta apenas puxei minhas mãos me abraçando novamente, não diria nada, ele não poderia me ajudar, ninguém poderia, mas ele não desistiu.

_Olha, eu só quero ajudar...

_Porque?_O cortei no meio da pergunta. Precisava saber o porque de um completo estranho estar tão prestativo comigo.

_O que?_Ele pareceu confuso com minha pergunta.

_Porque quer me ajudar?_respondi, ele me olhou como quem olha para uma criança assustada e respondeu:

_Porque nunca em minha vida eu me recusei a ajudar alguém que precisa e no momento que te vi perdida e sozinha naquela estrada eu soube que tinha que te ajudar!_Ele sorriu de forma acolhedora, como se fosse um irmão mais velho preocupado.

_Eu jamais deixaria uma criança sozinha principalmente machucada._Respondeu olhando os cortes em minha mão mas não senti que estivesse se referindo a eles, então eu entendi, ele via em mim exatamente o que todos veem quando me olham, uma criança inocente e indefesa. Assim como a maioria das pessoas ele não enxergam a verdade!Se ele soubesse a verdade provavelmente não se daria ao trabalho de me ajudar, apenas me levaria de volta. Me entregaria sem pensar.

Ele estava disposto a me ajudar então aceitaria a ajuda, se ele via uma criança ao olhar pra mim era isso que eu seria. Essa era minha única saída e eu ia aproveitar, se tivesse que atuar tudo bem, sou boa nisso.

_Se você não se importa eu gostaria de dormir um pouco.

Disse e ele ascentiu com um olhar gentil. Me virei em direção à janela fechando os olhos, se eu estava com medo de dormir no carro de um desconhecido? Não, nem um pouco, medo é algo que não costumo sentir. Se ele tivesse coragem de tentar algo se arrependeria, de nós dois não era eu que corria perigo.

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