Bar

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O salão estava cheio. Era um daqueles eventos de gala, alguma premiação, reconhecimento de alguma autoridade ou algo desse gênero. Eu sei lá, isso não importa.

Ele vestia um terno preto, dos básico, chapado. A gravata também era preta, slim, fininha. Combinava bem com o caimento da roupa num geral. Ele acabara de levantar duma mesa redonda e cheia de flores magníficas, estava em direção ao bar. Diversas conversas sobre diversos assuntos triscavam seu ouvido enquanto passava pelo mar de gente. Se ele pensava que o salão estava cheio, então nem sabia o que dizer do bar. No balcão não cabia mais nenhum cotovelo e braço debruçado, pois todos já estavam lá. Algumas pessoas se enfiavam pelas frestas que o corpo de outras duas faziam, e foi assim que ele se encaixou. Demorou um bom tempo até que realmente se adequasse um espaço para o corpo inteiro, mas assim aconteceu.

Ele queria duas cervejas, uma para ele, outra para a namorada. O evento – novamente, tanto faz o que fosse – estava prestes a começar e ele sabia que não seria uma missão fácil voltar a tempo, mas se esforçava para tal. Os atendentes, porém, não faziam questão de ajudá-lo. Entre todas as outras pessoas ali, diversas mulheres lindas e desesperadas por um drink atraiam a atenção dos homens atrás do bar e, sem dúvida alguma, a atenção era toda delas. Chame do que quiser, ele chamava de cachorrice, mas mesmo assim continuava a falar em um bom tom que desejava as duas cervejas.

Um alto estalar das caixas de som, no salão principal, fez com que metade das pessoas ali a espera de uma bebida fossem desviadas ao som de uma música de apresentação, dando início àquilo que vinham prestigiar. Os poucos que ficaram no bar foram sendo atendidos e assim que um rapaz saiu da frente, levando um copo de uísque, foi liberado o caminho para que ele a enxergasse.

O ar pareceu apertar. Ela estava inclinada no balcão, os dois braços apoiando o corpo que claramente estava cansado de esperar. Envergonhado, mas ainda assim tentado, ele percorreu o corpo inteiro dela com os olhos. Desde o alto salto de sua sandália, até o topo de seu cabelo preso. Ele fazia de tudo para não encará-la, não parecer um esquisitão, daqueles que secam toda e qualquer mulher de forma nojenta. Realmente se esforçava, mas parecia estar hipnotizado. Talvez fosse o jeito que ele a enxergava meiga, enrolando fios de cabelo entre os dedos, enquanto esperava calmamente o seu drink ficar pronto. Ou as breves lançadas de olhares para as dezenas de garrafas nas estantes atrás do bar, como se ela nunca tivesse visto algo tão legal. De fato ela era avoada. Viajava nos detalhes em sua volta. Largando o cabelo, ela circulava as marcas d'água que os copos molhados deixavam no balcão, ele reparou. Era inocente. Ele achava peculiar. Não deixava de reparar na beleza dela, tanto no seu jeito, quanto seus detalhes. A forma que leves traços formavam seu rosto e o jeito que seu cabelo parte preso, parte solto em uma franja, a deixava linda. Ele ignorava a maquiagem, buscava reparar no natural, como a cor dos olhos, por mais branda que a iluminação estivesse lá, ou o formato que os lábios tinham, ainda mais quando ela os mordia enquanto se concentrava na mistura de bebidas e cortes de frutas que o bartender fazia em sua frente. Ele estava paralisado.

Um dos homens atrás do bar chegou até ele e perguntou o que queria, o retirando de seu transe. Com a voz falha pediu duas cervejas.

Ela que acompanhava todo o movimento do bar, arrastou os olhos à direita onde o rapaz acabara de pedir duas de alguma coisa, já que o sinal com os dedos era tudo que ela tinha reparado. Ele parecia sem jeito e quando viu que ela o olhava, lançou o foco para outro lugar. Ela tentou fazer o mesmo, mas se prendeu na mão dele, que coçava a nuca, como se não soubesse o que fazer com as mãos em um momento de troca de olhares. Ela achou fofo. Ele era alto, mais do que ela mesmo com salto. A barba para fazer dava uma aparência mais velha para ele, ela achava, mas sabia que não devia ter muito mais do que a própria idade. Ela demorou a perceber que ele corria os olhos para todos os lugares, pois tentava evitar voltar a olhar para ela. Cruzando os braços, ele olhava que horas eram e bufava impaciente. Ela o assistia olhar para o bartender com duas cervejas na mão enquanto ficava de papo furado com uma garota do outro lado do balcão, e depois olhava para a entrada do salão principal, inquieto. Ela enxergava aquilo como uma dança, especialmente por toda a força que ele fazia para não cruzar olhares com ela, enquanto claramente falhava nisso. Ela sorria. Achava engraçado.

O homem finalmente foi de encontro a ele e o entregou duas garrafas longneck em sua mão. Ele se virou a ela, que ainda o observava com um sorriso no rosto. Por um instante pensou em recuar o olhar, mas o manteve. Foi breve, mas os dois se conectaram e então ele também sorriu. Ela, logo foi chamada no bar. Eram seus dois drinks de vodka com frutas vermelhas. Assim que ela voltou o olhar, reparou que alguém vinha em sua direção. O homem pegou um dos copos de sua mão e passou o braço em sua cintura. Algumas palavras foram ditas e os dois foram andando sentido o salão principal. Ele, por sua vez, encarou a boca das garrafas em suas mãos. Olhou profundamente, até que viu apenas dois buracos negros e nada mais. Respirou fundo. Levantou a cabeça, olhou para frente e também tomou seu caminho de volta ao salão. Ali ela foi para um lado e ele para o outro. Mas antes, em um último impulso, olhou na direção dela e sem nem esperar, encontrou ela fazendo o mesmo.
Seus olhares cruzaram mais uma vez, algo que não durou nem um segundo e um momento que não precisou fazer o tempo parar.

Os dois sabiam.

Só eles saberiam.

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⏰ Last updated: May 11, 2018 ⏰

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