Jasira contou vinte auroras e vinte e um ocasos antes de as portas serem abertas. A luz da tocha incidiu em seus olhos púrpura com ardência, mas foi rapidamente coberta por uma figura avantajada e um pequeno candelabro. A porta fechou novamente, e então ela via o rei.
— Minha execução será secreta? — perguntou baixinho. O rei balançou a cabeça e sentou-se do outro lado da cela. — É antiético.
— Você não pode falar de ética, Jasira. — Ele pôs o candelabro de lado. Seu nome era Ezeamaka, mas ninguém o chamava daquela forma desde que ascendera ao trono, aos catorze anos. — Queria que sim, mas não pode.
— Eu não posso muita coisa, Eze. Estou acorrentada debaixo da terra.
— Porque quis.
— Porque você tirou o que é meu.
Eze riu, mas não foi cruel. Foi apenas um sorriso com um som. Jasira não o via daquela forma há muito tempo.
— É isso que irmãos fazem, não é? Tiram coisas dos outros. — Ele suspirou. Seus olhos púrpura brilhavam em sutis lágrimas. — Você também tirou a mamãe de mim.
— Não fiz nada. Ela se atirou na minha frente para me salvar, Eze, porque mães fazem essas coisas.
— Mesmo depois de você se voltar contra ela.
Jasira não teve uma resposta. A mãe havia sido uma rainha poderosa num mundo que derrubava mulheres o tempo inteiro, porém, Zara tivera muitos amantes ao longo da vida. Um deles era o pai de Ezeamaka. Jasira era filha do esposo dela, um príncipe de outro reino que viera para se casar.
Jasira considerava-se mais legítima que o irmão mais novo, mas ele era um homem. Embora Zara tivesse sido rainha, por ser a única criança de seu predecessor, Ezeamaka ainda era o primeiro na fila. E assim fora.
A garota lembrava-se da guerra. Do pai fugindo com ela e aliados para o sul para montar aliança contra aquela rainha. Das batalhas ao redor de seu escudo. Da invasão ao castelo e da flecha envenenada que teria parado em seu coração se a mãe não a tivesse empurrado e levado no pescoço. Do pai decapitado por traição. De sua prisão. De ainda não entender muito bem o que estava acontecendo.
Ela abraçou as pernas.
— O que você quer, Eze?
— Você é minha irmã. — Esticou os braços. Era grande para um garoto daquela idade, com longos cabelos cor-de-ouro e uma sedosa pele preta como carvão. Jasira era exatamente igual a ele. — Você é minha melhor amiga desde que nasci. E eu não consigo dar uma sentença de morte.
— Pode passar para o seu pai. Soube que virou seu conselheiro.
— Meu pai é um bruxo. Eu sou filho de uma caçadora de bruxos num país de caçadores. Seria um estúpido risco que não quero correr. — Ezeamaka suspirou. — Eu amo você, Jasira. E não vou mata-la.
— O que vai fazer, então?
A luz do candelabro tremeluziu.
— Levanta. Quero mostra-la algo.
Jasira aceitou a mão que o irmão estirou para ela e ficou de pé. Quando a porta abriu, escondeu-se no braço dele para fugir da chama que ardeu de novo. Tudo que Eze fez foi empurrar os carcereiros e puxar uma tocha.
Subiram escadas que ela nunca esqueceria, atravessaram corredores que brilhavam sob a luz da lua que entrava pelas janelas, abriram e fecharam portas até o último quarto da torre mais alta. Jasira sabia que aquele quarto era do rei.
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Entregue ao Inferno
NouvellesEla traiu o irmão, seu próprio rei, e esperou pela sentença. Só era muito pior do que imaginava.
