O DESPERTAR

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                             Uma chuva torrencial se abateu sobre os escombros do que antes era o imponente Internato São Lucas, e daquela triste tarde de domingo sobraram apenas os gritos de agonia e desespero, que ecoavam carregados pelo vento sem chegar a lugar algum, pobres crianças, agora sofrem o reflexo de sua própria maldade, a natureza humana sempre nós leva a temer o que não é comum, o diferente sempre nos assusta, parece soprar com um ar de ameaça, mas a realidade é que com isso nós criamos nossos próprios demônios, e temos que aprender lidar com eles, nem tudo que parece inocente e frágil, é indefeso, e os meninos do internato descobriram isso da pior maneira.

Tudo começou com a chegada de Enki, uma criança um tanto peculiar em seus modos, recluso, pouco falava, e pouco se sabia sobre ele, apenas que era filho de um cientista famoso, que saia em revistas com frequência, mas o pai do menino não era bem um cientista era um reconhecido e respeitado zoologista, que sempre dedicou a vida a descoberta de novas espécies, casado com Sarah que por sua vez era uma antropóloga que acabou ficando famosa quando sua dedicação em registrar o intrincado desenvolvimento cultural de uma tribo no interior da Etiópia, lhe rendeu um reality show e também vários prêmios internacionais, mas a jornada de Enki iniciou bem longe de toda essa civilização, na verdade nenhum deles sequer imaginava o quanto suas vidas iriam mudar quando receberam a proposta de trabalhar no interior da floresta  amazônica, em uma área nunca antes explorada e com espécies nunca antes vistas, Sarah animou-se com a proposta uma vez que a base da equipe seria em uma tribo indígena recém descoberta e com pouquíssimo contato com o homem, mas apesar disso, são muito receptivos segundo parte dos pesquisadores que já estiveram no local, a base de pesquisa já está completando 3 anos, e sempre há um revezamento entre os especialistas no local, e alguns dos indígenas já se comunicam perfeitamente, o único impedimento seria a gravidez de Sarah já perto de completar três meses de gestação,do primeiro filho do casal, mas como consideraram está uma oportunidade única, principalmente de trabalhar juntos, resolveram fechar os olhos e embarcar nesta aventura, inicialmente ficariam por 6 meses no centro de pesquisa no interior floresta, retornando a tempo de Sarah ter seu filho na cidade, na civilização, chegando ao local ficaram entusiasmados com toda a estrutura disponível, e Jonathan apaixonado com as infinitas possibilidades, Sarah de pronto dedicou-se a conhecer a tribo, os costumes e sua rica cultura, muito ligada a natureza, uma índia chamada Ocuniê ficou responsável pela inserção de Sarah na cultura de seu povo, Sarah sempre optava por uma experiencia de imersão na cultura e costumes, Ocuniê se tornou muito próxima de Sarah, e era sempre bem detalhista em todas as informações que passava sobre seu povo, que apesar de somente a pouco tempo ter contato com a civilização, demonstra claros padrões de sociedade, com regras claras, organizados, dividiam-se em grupos para efetuar as tarefas do dia a dia, a única coisa que remetia aos padrões de povos mais antigos e menos civilizados era sua crença em uma entidade da floresta a qual eles chamavam de Haruna, um ser muito poderoso que segundo sua crença vigiava o portão entre os mundos natural e não natural onde viviam criaturas magicas, mitológicas e sobrenaturais, conhecidas apenas nas cantigas e nas histórias passadas de geração em geração, além de vigiar o portão entre os mundos, Haruna controlava todas as forças da natureza e conversava com os animais como iguais, revelaram ainda a crença em uma antiga profecia, de que um dia uma criança nascida entre os mundos será a encarnação de Haruna na terra, e que por ela este portão entre os mundos será aberto, e neste dia o mundo como conhecemos deixará de existir, será o dia em que o predador se tornará a presa, e a presa governará o novo mundo, nos meses que se seguiram Sarah integrou-se completamente a tribo, conseguindo comunicar-se com praticamente todos da tribo, participando inclusive dos rituais de adoração a Haruna, o senhor da floresta, desde que passou a participar dos rituais da tribo Sarah passou a ter um sonho recorrente, onde caminhava na floresta de mãos dadas com alguém que ela nunca conseguia ver o rosto, tudo correu bem até que quando completaram quatro meses na base e Sarah completando já o sétimo mês de gestação começou a sentir-se muito mal, inicialmente achou que tratava-se de um mal estar comum a gravidez, mas com o passar dos dias, as dores pioraram e Jonathan a convenceu de ir a cidade consultar um médico, pois ela não estava tendo acompanhamento devido à localização deles, Ela concordou em ir levando junto Ocuniê para que ele desse andamento em suas pesquisas, pois a cidade mais próxima ficava muito distante, teria que enfrentar nove horas num barco, mais 3 horas num jipe, pois estavam em mata fechada e preservada, que não permite nenhum tipo de intervenção do homem, somente o vilarejo que se localizava a esta distância possuía uma área aberta o suficientemente para o pouso de um helicóptero, que a levaria para a cidade, e assim foi feito, apesar da dificuldade Sarah e Ocuniê fizeram boa viagem, chegando a cidade Sarah cuidou de todos os detalhes de sua consulta, sentia-se bem disposta, a índia estava muito assustada, nunca tinha visto nada daquilo, a agitação da cidade a deixava apavorada, e não largava o braço de Sarah nem por um minuto, enfim no hospital após uma série de exames, foi detectado que ela havia desenvolvido (DEAC) dissecção espontânea das artérias coronárias, uma condição rara, com incidência de 0,07% a 1,11%, principalmente em mulheres, o que tornava sua gravidez de alto risco, sua chance de sobrevivência no pós parto era mínima, sem contar o risco de ter infarto agudo do miocárdio a qualquer momento, ou até mesmo, morte súbita, a reação de Sarah a possibilidade de morte eminente foi bem estranha, não esboçou grande preocupação, agradeceu ao médico e disse que tomaria algumas providencias e retornaria para o acompanhamento da gravidez mais efetivo até o parto, o que não ocorreu, após aquele fatídico dia todas as atitudes de Sarah tornaram-se bastante obscuras, ela omitiu o diagnóstico de seu marido e tornou-se muito mais próxima das mulheres da tribo, participando ativamente dos rituais, a desculpa era a técnica de imersão, sempre que questionada pelo marido, e ele tomado pela quantidade de trabalho, acabou deixando passar despercebido o que acontecia com a esposa, até que ao final do oitavo mês de gestação ele voltou sua atenção para ela e filho que já estava prestes a nascer, e a questionou sobre o retorno deles a cidade, para que ela concluísse a gestação e desse a luz na civilização, como haviam combinado, mas Sarah estranhamente disse ao marido que já havia cuidado de tudo, que iria pra a cidade acompanhada de Ocuniê e que o avisaria assim que fosse internada, com tempo dele chegar para assistir o parto, Jonathan ficou intrigado com a atitude da esposa, mas como estava em meio a descobertas importantes sobre as ervas medicinais indicadas pelos nativos, achou até bom o desprendimento e compreensão da esposa quanto a importância de seu trabalho, alguns dias depois Sarah comunicou a Jonathan que partiria para cidade junto com a india, separou algumas coisas e levou, ele as acompanhou até a embarcação, Sarah apresentava uma estranha tranquilidade e ao se despedirem falou uma frase na língua dos nativos, como não compreendeu pediu de pronto que a traduzisse, Sarah respondeu que ele deveria descobrir sozinho antes de ir encontra-la para o nascimento do filho, Mas o que Jonathan não suspeitava, é que Sarah escondia muito mais do que frases soltas em dialeto Moonbajji, ela havia se entregado de corpo e alma a crença Moonbajji e uma vez desacreditada na medicina moderna, havia colocado sua vida nas mãos dos nativos e nas mãos de Haruna, Sarah já vinha se tratando secretamente com os medicamentos naturais fornecidos pelas curandeiras da tribo, e fazia regularmente seções com as benzedeiras, e apresentava melhoras significativas, mas estava ciente de que o esforço para o nascimento da criança, fatalmente ocasionaria sua morte, mas Sarah estava certa de seu propósito, e para tanto após despedir-se do marido dizendo que se dirigia para a cidade, na verdade seguia em direção ao coração da selva onde seria realizado a cerimonia de chegada do escolhido dentro das crenças e tradições da tribo Moonbajji, que acreditavam que ela, a mulher da cidade agora carregava em seu ventre  aquele que cumpriria profecia, Jonathan certo de que a esposa havia partido rumo a cidade, no dia seguinte entrou em contato com o hotel, e foi informado que não havia reserva em nome de sua esposa, então ligou para o hospital onde acabou descobrindo a gravidade da situação de sua esposa, e que ela não apenas não tinha se internado, como também dispensado os serviços do seu médico meses atrás, o desespero tomou conta de Jonathan, que não conseguia entender as atitudes da esposa, atitudes que colocavam sua vida em risco, ele saiu desnorteado sem saber ao certo o que fazer, saiu do centro de pesquisas rumo a aldeia, chegando lá tentava se comunicar ainda muito ofegante balbuciava algumas palavras mas começou a ver tudo turvo e foi perdendo a consciência, até que desmaiou, e no período em que permaneceu desacordado se viu trilhando um caminho na floresta que se abria diante dele, como se todas as coisas ali estivessem mais vivas e o guiassem nessa caminhada, ele sentiu um alento em meio a sua agonia, quando avistou ao longe Sarah em meio a um clarão na floresta, caminhou mais rapidamente mas as plantas que hora o guiavam agora pareciam atrasar seus passos, enroscavam em suas pernas até que caiu em meio a mata e perdeu Sarah de vista, a floresta parecia fechar em cima dele como se o abraçasse, mas de uma forma que ele sentia-se sufocando, quando de repente ouviu um sussurro no ouvido com a voz de sua esposa, que repetia a mesma frase que Sarah havia dito ao despedir-se no dialeto Moonbajji, "Nagune ette" Ele então volta a si, e com a palavra em mente, repete para os nativos que o rodeavam, o mais estranho que ele notou assim que recobrou a consciência foi que naquele momento existiam apenas jovens e crianças ali, não havia nenhum adulto ou idoso, Jonathan repetia a frase aos nativos na esperança de que o ajudassem mas eles apenas balançavam a cabeça em sinal negativo, até que uma menininha veio e segurou sua mão, repetindo a frase "Nagune ette", repetia a frase e o puxava pela mão, ele então seguiu a garotinha até a margem do rio, ela apontou para o outro lado da margem do rio e repetia "Nagune ette, Nagune ette..." Jonathan então percebeu que as respostas que procurava estavam naquela direção, já era fim de tarde começava a anoitecer, o ar úmido se espalhava uma brisa se formava deixando tudo meio turvo, então sem pensar muito pegou uma pequena canoa presa à margem do rio e seguiu o caminho apontado pela criança, ele sentia-se observado durante a travessia, a floresta parecia mover-se ao seu redor de uma forma que nunca viu antes, ouvia sussurros indistinguíveis, que o rodeavam e ficavam mais altos a medida que ele se aproximava do seu destino, percebeu ao longe vaga-lumes, mas que se moviam tão rápido que formavam feixes de luz, em alguns momentos sentia batidas na canoa, que quase a viravam mas prosseguiu, preferindo acreditar que era apenas sua imaginação, quando finalmente chegou ao outro lado da margem, se deu conta da loucura que estava fazendo, sozinho a noite em meio a mata fechada de uma floresta intocada e selvagem, por um momento cogitou voltar e pedir ajuda, foi quando ouviu uma cantiga ao longe e resolveu segui-la em meio a mata, avistou uma iluminação distante e seguiu em sua direção, quanto mais se aproximava do local a mata parecia fechar a sua frente, era cada vez mais difícil continuar até que sentiu alguém segurar em sua mão, olhou e era um menino pequeno aparentando uns 3 anos de idade e não tinha semelhança com as crianças nativas, a mata parecia abrir-se diante deles agora como se fossem esperados, avistou em meio as pessoas reunidas Ocuniê que o tomou pela mão, nesse momento ele se deu conta que não havia mais menino olhou apressadamente para os lados mas não avistava mais o menino que antes o guiava, na verdade não havia ali uma criança sequer, em meio as pessoas que cantavam em língua nativa e pareciam em transe com os olhos brancos e fixos, percebeu então Sarah lá deitada também, cantando em língua nativa com os mesmos olhos dos que a rodeavam, num impulso avançou em sua direção mas nesse momento um grito de Sarah e um clarão seguido de um vento forte que antecedeu uma escuridão completa e um silêncio absoluto, nem mesmo os barulhos da mata, quando de rompendo  silencio ouviu-se o choro da criança, as chamas das tochas reacenderam misteriosamente clareando todo o  ambiente, foi quando Jonathan notou que Sarah havia dado a luz ali, em meio aquele ritual, no meio da floresta, ela esboçava um sorriso em seu rosto e pediu que Jonathan se aproximasse, se abraçaram ele ainda em choque sem entender o ocorrido ali, então Sarah perguntou: - Qual a resposta? 

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⏰ Last updated: Feb 13, 2021 ⏰

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