Com um pirulito adoçando minha saliva em plena seis da manhã, passo direto pela minha mãe secando o cabelo no banheiro com a porta aberta, a alça da mochila em meu ombro e meus cadarços desamarrados saltitando pelo chão a cada passo meu. Pego minha chave no gancho, e dou uma pequena corrida em meio aos pingos de chuva até o carro de Lalisa do outro lado da rua, que dá a partida assim que eu entro pela porta.
– Ei, sem doces logo cedo, aqui uma comida decente. Brigou com sua mãe? – pergunta desconfiada, me entregando um saco com um pacote de bolachas e uma maçã, arrancando meu pirulito da minha boca e jogando pela janela. Estava tão gostoso, droga, Lisa!
Ela me conhece tão bem até pela expressão, sabe exatamente quando tem algo de errado. Desde já sabe que eu uso doces para me consolar quando estou mal.
– Nada demais. Só cheguei em casa e dei de cara com um peladão no meio da minha sala, e ainda por cima animadinho! Ele veio na minha direção perguntando se eu era algum tipo de assistente da "Pyttes".
– Ew, que nojento. – diz, dirigindo até o centro de Sacramento. – A tia Lia realmente usa esse nome?
– Prostitutas não usam o verdadeiro nome, segundo a mesma. E ela ainda disse que o maluco tinha oferecido cachê extra, jogando a desculpa das despesas que eu faço, por mais que eu diga que não dependo da droga do dinheiro sujo dela.
– Ela se esforça, de qualquer forma. – declara, dando de ombros.
Minha mãe começou com isso desde que chegamos aqui na Califórnia, por volta dos meus dez anos, e foi um pesadelo, apesar de eu não lembrar de tanta coisa. Sei que Lalisa Manoban é minha vizinha da frente aqui desde sempre, que também tinha acabado de chegar da Tailândia com o irmão gêmeo e os pais. Incrivelmente falando inglês melhor que eu, que fiz curso desde criancinha, e ela só aprendeu na escola. Foi difícil nossa comunicação, cada uma sentada no asfalto das duas extremidades da rua, apoiando o queixo com a mão, e ouvindo o barulho da ré do caminhão com móveis recém comprados estacionando na calçada. Dias péssimos. Mas ela foi uma companhia excepcional, até hoje é.
Começamos a estudar numa espécie de escola com professores que falam várias línguas, recebendo pessoas de todo o mundo, basta saber o básico de inglês. Hoje em dia dou monitoria para o pessoal vindo da Coreia (país onde cresci, meu pai era engenheiro mecânico e foi chamado quando eu tinha 3 anos), para o pessoal do Brasil, que não tenho tanta afinidade, mas sei bastante coisa, já que minha mãe geralmente só fala em português comigo, desde sempre.
Enfim, verifico antes de descer do carro se não esqueci algum papel. Hoje vou ter novos alunos na monitoria, segundo o Sr. Caputo, meu supervisor e atual professor de Física do segundo ano do ensino médio. Todos são muito envolvidos aqui, cada um sabe da vida de cada um, e chega a ser estranho, mas nos conhecemos há tanto tempo. Assisti aula sem muita empolgação, mal esperando dar logo meio dia para eu ir almoçar meu sanduíche.
– Rose, me passa o ketchup? – pede Lisa com a boca cheia do seu almoço, e eu reviro os olhos, arrastando a cestinha com sachês do molho.
– Sabe que não gosto que me chame assim. – reclamo, mordendo meu sanduíche.
– Rosemarie é tão lindo! Queria ressuscitar esse apelido.
– Que foi estragado graças ao meu pai. E meu primeiro nome é Agnes, você sabe.
– Agnes Rosemarie Green. Seu nome é marcante. – declara, e não concordo tanto. – Você nunca contou o que aconteceu com seu pai. Por isso nunca sei por que ele estragou.
Suspiro pesadamente, e me perguntando o fato de nunca ter contado. Achei tão inútil que só acoplei essa memória no meu passado.
– Meu pai é um assassino, e está cumprindo sua pena em alguma prisão coreana.
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Mindstream
RomanceEu tenho andado fora do tempo do resto do mundo, no timing da minha própria mente. Há tempos eu lido com a incompreensão das pessoas, que mandam eu respirar quando eu nem sei o que significa minha falta de ar. Meus dias passam com a rapidez de eu se...
