Capítulo 1 - O Inverno

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O inverno havia chegado mais cedo ao reino de Ardem com toda a sua intensidade. Uma espessa camada de neve cobria a cidade, e fortes correntes de vento gélido sopravam do sul, intensificando o frio. Naquela manhã, as ruas, transformadas em verdadeiras pistas de gelo, estavam quase desertas. A maioria dos habitantes de Ardem procurava o conforto de seus lares para se proteger da rigorosa estação.

Nas redondezas da cidade, pontuadas por pequenas fazendas, vivia Addy Ogden. Com seus quatorze invernos, o garoto era magro e de pouca força física. Seus cabelos loiros caíam sobre o rosto que chegavam até a ponta do nariz comprido, quase escondendo seus olhos diferentes: um negro profundo e outro verde esmeralda, pareciam guardar segredos inimagináveis. A cada manhã, Addy iniciava seu dia com uma rotina simples. Mas naquela manhã gélida, algo era diferente. Ao despertar, uma dor aguda pulsava em suas têmporas, acompanhada de uma sensação estranha, como se milhares de vozes sussurrassem em seus ouvidos. Com um gesto desesperado, tentou abafar aquele ruído infernal, batendo as mãos contra as têmporas.

Tremendo de frio, apressou-se em vestir-se. Procurou em seu baú uma camisa branca, as mangas marcadas por pequenos rasgos semelhantes a garras. Vestiu uma calça marrom, surrada pelo tempo. Enfiou nos pés as pesadas botas de couro que chegavam aos joelhos e, por fim, jogou sobre os ombros ossudos um casaco de pele grossa, herança de tempos mais frios."

Abandonando o quarto, Addy se aproximou da janela da cozinha. A neve caía em flocos maciços, cobrindo o campo como um manto branco e implacável. Suas plantações estavam cobertas por uma espessa camada de gelo. Os porcos, visivelmente abatidos, procuravam se aquecer. Com um suspiro resignado, saiu da pequena cabana e rumou até o chiqueiro. Ao se aproximar, sentiu um puxão em sua calça. Era Clave, seu fiel cão de caça, a pele solta que forma dobras profundas no rosto e pescoço, além de orelhas longas e aveludadas, que o recebia com uma alegria contagiante. O animal, grande e desajeitado, lambia suas botas e soltava latidos entusiasmados, fazendo-o sorrir apesar do frio, fez carinho em seu cachorro para acalma-lo.

Caminhando até o fundo do estaleiro, Addy recuperou seu equipamento de caça. Desprendeu o arco da parede de madeira e o ajustou em suas costas. Em seguida, pegou a aljava, com suas poucas flechas, e a prendeu ao cinto. A vara de pescar, um companheiro fiel em dias mais quentes, também foi adicionada ao seu fardo. Com o lago prestes a congelar, sabia que precisava aproveitar aquele momento para garantir o sustento. Sabia que a pesca seria difícil, o frio intenso, mas a necessidade o impulsionava e antes que o lago se congele por inteiro, então saiu em direção a uma floresta próximo.

Com passos firmes, Addy seguiu pela estrada de pedra, agora transformada em um caminho branco e silencioso. A cada casa que passava, seus vizinhos o saudavam com um caloroso "bom dia", lamentando a chegada precoce do inverno e as consequências para as plantações. A comunidade era unida, mas a desconfiança em relação aos estrangeiros era um sentimento de ódio entre eles. Mas o garoto precisava seguir em frente. A floresta o aguardava, com seus mistérios e desafios.

Ao adentrar a floresta, Addy e Clave desapareceram sob a copa das árvores. A trilha, levemente marcada, conduzia-o ao lago. O frio era intenso, penetrando em seus ossos. Cada passo era um desafio contra a natureza inclemente. A neve ainda não havia alcançado aquele recanto da floresta, mas a umidade do ar e o vento gélido o faziam sentir como se estivesse sendo cortado em pedaços e transformavam a caminhada em uma prova de resistência.

A solidão do lago era quase palpável, mas ainda não estava congelado. Addy depositou seu arco e flechas contra um tronco caído que se estendia até o lago. Em seguida, concentrou-se em preparar sua vara de pescar. Com um arremesso preciso, lançou a isca nas águas geladas. Escolheu um tronco caído como assento e ali permaneceu, olhos fixos na boia, aguardando pacientemente que algum peixe decidisse morder a isca.

A solidão do lago era quase palpável, mas ainda não estava congelado. Addy depositou seu arco e flechas contra um tronco caído que se estendia até o lago. Em seguida, concentrou-se em preparar sua vara de pescar. Com um arremesso preciso, lançou a isca nas águas geladas. Escolheu um tronco caído como assento e ali permaneceu, olhos fixos na boia, aguardando pacientemente que algum peixe decidisse morder a isca.

O silêncio era ensurdecedor, quebrado apenas pelo som do vento nas árvores e também da água. Minutos se passaram, intermináveis minutos. O frio se intensificava a cada instante, penetrando em seus ossos. Addy tremia, os dentes e olhava para seu cesto vazio. A ideia de acender uma fogueira cruzou sua mente, mas a umidade do ambiente tornava a tarefa quase impossível.

O latido frenético de Clave cortou o silêncio da manhã. Addy tentou acalmá-lo, ordenou que ficasse quieto, com medo de espantar os peixes, mas seus esforços foram em vão. Mas o cão parecia sentir algo, algo muito mais perigoso. Quando olhou na direção do barulho, seu coração disparou. Um enorme urso negro emergia da floresta, seus olhos brilhando sob a luz fraca. O animal, completamente alheio e ignorando completamente a fúria e a presença de Clave, caminhava em direção ao lago, sua figura imponente contrastando com a paisagem tranquila.

 O coração de Addy disparou ao ver a enorme figura do urso negro. Nunca havia estado tão perto de um animal selvagem e tão imponente. Em um movimento instintivo, saltou para trás do tronco, seu corpo tremendo de medo e adrenalina. O arco e as flechas, do outro lado do tronco, pareciam inatingíveis. Clave, do outro lado, latia freneticamente, mas de repente, seu uivo se transformou em um choro baixinho. Um silêncio sepulcral se instalou. Cautelosamente, Addy espiou por cima do tronco, mas o urso havia desaparecido. Clave, agora calmo, olhava para ele como se nada tivesse acontecido. A dúvida o assombrou: teria sido apenas uma alucinação? Um urso negro, no meio do inverno? Era algo inimaginável.

O frio era tão intenso que até mesmo Clave, normalmente tão agitado, buscava o calor do corpo de Addy. Encolhido nas pernas do garoto, tremia incontrolavelmente. Addy, sentindo o frio penetrar em seus ossos, olhou para o lago e sentindo o desconforto, seus olhos se arregalaram. Na margem oposta, uma figura sombria observava as águas. Um homem, vestido com uma túnica escura e um capuz que lhe cobria parte do rosto, permanecia imóvel, fitando as águas calmas. Seus olhos, se é que podiam ser vistos, pareciam como uma escuridão, o medo congelou o garoto. Addy sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquele homem, com sua aparência sinistra e seu comportamento enigmático, era perturbador. E Clave, normalmente tão protetor e alerta, permanecia imóvel, como se a figura fosse uma ilusão. A estranheza daquela cena o deixou perplexo.

O medo gelava Addy, mas a necessidade de proteção o impulsionou à ação. Empunhando seu arco, esticou a corda e mirou a flecha em direção à figura misteriosa. 

"Quem é você e o que faz aqui?", gritou, sua voz ecoando pela floresta. 

O homem não se moveu, como se estivesse o desafiando.

 "Responda ou atiro!", repetiu, a voz mais firme desta vez.

 Um sorriso sinistro, revelando dentes afiados, contorceu os lábios da figura encapuzada. Palavras indistintas escaparam de seus lábios, em uma língua desconhecida. No mesmo instante, Addy percebeu algo aterrorizante: o homem não tocava o chão! Flutuava sobre a água, como um fantasma. O pânico se apoderou dele. Agarrando Clave, saiu correndo desesperadamente pela floresta. Uma dor aguda explodiu em sua cabeça, obscurecendo sua visão. E então, tudo ficou escuro.

O Homem Sem Alma - Cronicas das SombrasOpowiadania do pokochania. Odkryj je teraz