capítulo 1

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O despertador cortou o silêncio do quarto às sete da manhã, um som agudo que parecia vibrar nas paredes tingidas de cinza e azul escuro. Alec não se mexeu de imediato. Ele ficou parado, os olhos fixos em uma pequena mancha de infiltração no teto que parecia um mapa de algum lugar onde ele preferiria estar.

O quarto carregava aquele cheiro melancólico de lençóis limpos e solidão acumulada. A luz do sol, filtrada pelas persianas, cortava o chão de madeira em fatias pálidas. Desde que os pais morreram, o silêncio da casa não era mais paz; era uma presença física que pesava nos seus ombros.

Ele se levantou, sentindo o choque térmico do piso frio sob os pés o primeiro despertar real do corpo. No banheiro, a água gelada no rosto foi um castigo necessário para afastar as sombras do luto que ainda nublavam seus pensamentos.

No closet, Alec escolheu sua armadura: jeans pretos, uma camisa escura e aquela jaqueta jeans gasta. A jaqueta era um escudo; quando fechava o zíper, ele sentia que o mundo lá fora não poderia tocá-lo com tanta facilidade.

A casa, ao descer as escadas, era um mausoléu. Não havia cheiro de café passado, nem o som do rádio da cozinha. Apenas o eco de seus próprios passos. Ele pegou a mochila e saiu, trancando a porta com o cuidado de quem teme que o vazio da casa escape para a rua.

Do outro lado do bairro, a realidade de Taylor era o oposto.
— Droga, já são sete e quinze! ele resmungou, tropeçando em uma caixa de papelão que ainda guardava seus livros de literatura.

O novo apartamento era um caos de mudanças não resolvidas. Taylor vivia entre pilhas de memórias e a promessa de um recomeço. Ele se mudara para aquela cidade para fugir do sufocamento de uma vida que não lhe pertencia mais, buscando um lugar onde ninguém soubesse seu nome ou a história da sua família.

Ele vestiu qualquer coisa um jeans claro, uma camiseta branca e uma jaqueta que parecia ter visto dias melhores. Taylor não buscava proteção na roupa, buscava liberdade. Ao sair, o barulho da cidade o atingiu como uma onda: buzinas, passos, o ritmo caótico que ele tanto desejava. Ele ajustou os fones de ouvido, deixando a música abafar a ansiedade que subia por sua garganta. Havia algo no ar naquela manhã, uma eletricidade estática que fazia os pelos de seus braços se arrepiarem.

O campus da faculdade era um formigueiro humano. Alec caminhava de cabeça baixa, o volume da música no talo para evitar que qualquer tentativa de interação o alcançasse. Ele era o "esquisito", o órfão, o garoto que parecia carregar o peso do mundo em uma mochila de couro.

Distraído com uma notificação no celular, Alec não viu o obstáculo. O impacto foi seco. Seus cadernos voaram, as folhas se espalharam como pássaros feridos no chão de granito e seus fones foram arrancados pela gravidade.
— Droga...  murmurou, a frustração subindo pelo pescoço.
Ele se ajoelhou para recolher os destroços da sua organização, mas parou quando uma mão entrou em seu campo de visão para ajudá-lo. Alec levantou o olhar.

O garoto diante dele parecia deslocado naquela manhã cinzenta. Tinha cabelos loiros bagunçados pelo vento e olhos de um azul tão intenso que chegava a ser agressivo. Taylor tinha um sorriso que parecia não pedir permissão para existir. Por um segundo, o barulho do corredor sumiu. Alec sentiu uma pressão estranha no peito, um reconhecimento visceral que não sabia explicar.

Taylor recolheu o último caderno, entregou a Alec com um aceno silencioso e um olhar curioso, e seguiu caminho antes que Alec pudesse processar um "obrigado".

Na sala de aula, o ar era denso com o tédio do primeiro dia. Alec sentou-se na última fileira, tentando ser invisível. Mas a porta se abriu dez minutos depois, revelando a mesma figura do corredor.
— Este é Taylor.  anunciou o professor, sem muito entusiasmo. — Ele veio transferido.

Taylor percorreu a sala com o olhar até encontrar Alec. O sorriso que ele deu não foi apenas educado; foi um reconhecimento. Ele caminhou com uma confiança relaxada e sentou-se na cadeira vaga ao lado de Alec, ignorando todas as outras opções.

— Oi, garoto do corredor. Taylor sussurrou, a voz carregada de uma leveza que Alec não conhecia.
— Oi...  Alec respondeu, a voz falhando. Ele se sentiu exposto, como se Taylor estivesse lendo todas as suas defesas.
Durante a aula, Alec não conseguiu anotar uma única linha. Ele sentia o olhar de Taylor não era um olhar de julgamento, mas de exploração.

Era como se Taylor estivesse tentando encontrar as rachaduras na armadura de Alec.
No intervalo, Alec buscou refúgio no refeitório, no canto mais afastado, onde a luz era fraca e ninguém o incomodava. Mas o destino, ou a insistência de Taylor, tinha outros planos.
— Posso?  Taylor perguntou, já puxando a cadeira antes da resposta.
— Pode. Alec disse, fechando o livro que fingia ler. — Você é corajoso.
— Por que?
— Porque eu sou o esquisito oficial daqui. Falar comigo é como pedir para ser excluído junto.

Taylor riu, um som limpo que cortou a tensão.
— Eu sempre preferi os esquisitos. Eles têm histórias melhores para contar.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Eles começaram a trocar informações básicas, mas as respostas tinham mais peso agora. Quando Alec mencionou que morava sozinho porque os pais morreram, o ar entre eles mudou. Taylor não disse apenas "sinto muito"; ele parou, olhou nos olhos de Alec e deixou o silêncio respeitar a dor dele por alguns segundos.

— Você é mais forte do que imagina por estar aqui hoje. Taylor disse, e a sinceridade naquelas palavras fez Alec desviar o olhar, sentindo uma quentura incômoda no rosto.
Quando descobriram que eram vizinhos, a coincidência pareceu um soco no estômago de Alec. Casa amarela, no final da rua.

— O destino tem um senso de humor estranho. comentou Alec.
— Ou ele só cansa de dar voltas e decide ir direto ao ponto. Taylor piscou, guardando as coisas.

Depois do almoço, Alec sentiu que precisava de um minuto para processar o furacão chamado Taylor. Ele se refugiou no banheiro masculino, que naquele horário estava vazio e cheirava a cloro.

Parou diante do espelho, encarando as próprias olheiras e tentando entender por que seu coração insistia em bater num ritmo que ele não autorizara.
Ele abriu a torneira e jogou água gelada na nuca.

Quando se levantou, secando o rosto com papel toalha, a porta rangeu.
Pelo reflexo do espelho, ele viu os cabelos loiros e a jaqueta jeans clara. Taylor entrou com as mãos nos bolsos, parando na pia ao lado com uma naturalidade irritante.

— Tá me seguindo, Taylor? Alec provocou, tentando manter a voz firme, embora o espaço pequeno fizesse o perfume do outro garoto preencher todo o ar ao redor.
Taylor ligou a torneira, observando Alec pelo espelho com um brilho divertido nos olhos.

— Algum problema nisso? Se eu estiver, é só porque você parece o tipo de mistério que vale a pena investigar.
Alec sentiu o rosto esquentar.
— Você devia focar nas aulas, não em mim.

— Quem disse que você não é a aula mais interessante do dia? Taylor respondeu, desligando a água e pegando um papel. Ele não se afastou. Ficou ali, a poucos centímetros, desafiando Alec a sustentar o olhar.

— É só impressão sua, Alec. Ou talvez seja só o destino querendo garantir que a gente não se perca de vista.
Ele deu um tapinha leve no ombro de Alec um toque rápido, mas que pareceu queimar através do tecido da jaqueta e saiu, deixando para trás o som da porta batendo e um Alec que, pela primeira vez em muito tempo, esqueceu como se respirava direito.

....

No final da aula caminharam juntos para casa sob o sol da tarde.
O silêncio entre eles agora era preenchido por uma tensão nova, algo que Alec não conseguia nomear, mas que o assustava e o atraía ao mesmo tempo. Ao chegar em frente à sua porta, Alec olhou para Taylor.

— Até amanhã, Taylor.
— Até amanhã, Alec. Tenta não ser atropelado por mim no corredor de novo.
Alec sorriu um sorriso real, o primeiro em meses e entrou. Enquanto fechava a porta, o silêncio da casa parecia um pouco menos pesado do que de manhã.

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OBG❤

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