Capítulo 1

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- Ainda não vejo a necessidade de se mudar pra mais perto da escolinha! - ralhou minha amiga.
Eu apenas ri empacotando outro conjunto de livros.
- Vamos fingir que você se importa com meu bem estar e está preocupada em eu me mudar para uma outra casa... E não por ser obrigada a cozinhar a partir de agora já que a Becca vive em plantão.
Mackenzie me fuzilou com os olhos e bufou para o ar... Típico costume de adolescência quando descobria que seus personagens da favoritos não ficavam juntos no final do livro.
- Lina!! É sério!!
Indignou-se e jogou os braços pro ar dramaticamente.
- Eu vou morrer de fome se for depender da Becca!
Atirei nela um dos meus vestidos que estavam jogados na cama para eu guardar.
- Esfomeada.
- Mas e sério miga, como será nossa casa sem você?? E o trio das amigas inseparáveis que iam viver juntas para sempre??
- Mac, eu só vou para alguns minutos daqui - argumentei rindo- Fica mais fácil pra me locomover. E outra, nós moramos juntas a uns cinco anos desde que entramos na faculdade e resolvemos que morar com nossos pais não nos faria crescer mentalmente. E agora você trabalha pra uma revista... Becca vive de plantão no hospital e eu vou começar um novo emprego numa nova escolinha como professora integral. Acho que já está na hora de arranjar meu próprio lugar.
- Hn... Bom ponto - disse ela cruzando os braços- Mas ainda sentirei falta de você no quarto ao lado... Acho que me acostumei a morar com minhas duas melhores amigas...
Mackenzie me abraçou e ajudou a terminar de empacotar minhas coisas em caixas. Mal acabamos e a porta da frente foi aberta e barulho de saltos no piso de madeira faziam "toc toc".
Uma cabeleira encaracolada e escura passou pela porta do meu quarto sorrindo.
- Ainda bem que cheguei em casa- disse Becca e se jogou na cama.
- Plantão estressante??
- Nem me fale... Chegou um caso novo semana passada, ele está em coma e a família está arrasada... Na verdade eu só vim comer algo, tenho que voltar daqui duas horas.
Becca diferente de Mac e eu era uma Enfermeira militar, então seus dias e noites eram sempre bem puxados.
Não só nas profissões e gostos que nós éramos diferentes. Na aparência principalmente.
Pois de todas eu era a mais alta, e de pele mais branca, não importava quanto sol pegasse. Eu era a única de olho azuis tambem que contrastavam com os cabelos negros que estavam cortados na altura do ombro criando ondas grandes e uma franja na altura das sombrancelhas. Já Mac e Becca tinham a pele bem bronzeada, mas Becca tinha olhos verdes e cabelos bem cacheados que às vezes eram escuros mas às vezes eram mais claros, e Mac tinha o cabelo escuro e liso.
Depois de arrumar as caixas no canto do quarto, fui comer algo com as meninas na cozinha. Embora todas fossem mulheres bem treinadas e com mães maravilhosas na cozinha, o máximo que fazíamos era o básico para sobrevivência, isso quando não comiamos macarrão instantâneo. Mas confesso que por obra de Deus eu sabia fazer doces, o que Mac ama a pois sempre lhe ajudava na criação de seus artigos, claro que eu imagino que só dizia isso pra eu fazer um doce diferente a cada semana.
- Lina vai pra escolinha nova hoje?? - perguntou a Becca enquanto comia um sanduíche de frango.
- Sim, eu vou levar umas papeladas que faltam e falar com a diretora... Pelo jeito eles estavam trocando de professora substituta a umas duas semanas já, desde que a professora se demitiu eles não conseguiram arranjar ninguém a tempo.
– Quer uma carona então? E caminho pro hospital.
Concordei com a cabeça e terminamos nossa pequena refeição. O pessoal da mudança a ia levar minhas coisas hoje pra casa nova, então assim que entregasse o que devia ia direto para lá.
Da minha, agora não mais, casa até a nova escola que ia trabalhar era quase vinte minutos de carro, mas como preferia ir a pé resolvi me mudar a 10 minutos da escola  o que facilitava bastante meu dia a dia, além do bairro ter uma ótima referência e localização.
– Então – perguntei a Becca assim que entramos no carro vermelho dela– Como e seu novo caso?
– O paciente foi transferido de uma base perto militar em uma Ilha no oriente médio, pelo jeito ele faz parte da equipe de resgate.
– Equipe de resgate??
– Sim – respondeu sem tirar os olhos da estrada– Ele é um Primeiro Tenente, pelo o que eu li na ficha ele estava auxiliando no resgate de pessoas que vivem em área de conflito.
– Ah, entendi...
O sinal fechou e Becca se virou para mim.
– O caso dele realmente é complicado – explicou ela– Ele não está mais ferido nem nada, não possui nada visível mas ainda não acordou de um coma.
Suspirei triste pelo soldado que nem conhecia.
– O pior é que ele tem uma filha, e ela vai todo dia no hospital e fica sentada perto da cama... Pelo jeito ela está sob os cuidados da vó, mas ela não parece estar se cuidando muito bem também...
Becca parecia preocupada enquanto conversava comigo. Ela sempre gostou de cuidar das pessoas e sempre se preocupava com elas, por isso era a melhor enfermeira que eu conhecia.
Conversamos mais algumas banalidades do dia até que ela estacionou para eu descer.
– Assim que chegar na nova casa me ligue e ligue para a Mac que eu aposto que também vai querer – falou Becca pela Janela do carro.
Assenti com a cabeça e ela logo se foi.
Arrumei a papelada da minha bolsa e olhei ao redor, havia crianças brincando no pátio da escola, e outro grupo no jardim. Aquela alegria pelo ar e o barulho de felicidade enchia meus ouvidos com gargalhadas infantis.
A Diretora da escola foi simpática quando lhe entreguei meus papéis e perguntou se eu não queria conhecer a escola melhor antes de começar, o que prontamente foi aceito por mim.
As crianças eram pequenas e animadas, corriam de um lado a outro em seu intervalo. E a escola era completamente colorida dando um toque de alegria ao local, com desenhos infantis com cores claras nas paredes, um piso branco e grandes janelas de vidro que faziam a luz entrar.
A diretora me deixou sozinha pra olhar mais a vontade a escola.
Enquanto caminhava pelo jardim notei mais vozes de crianças porém estas não foram bem do meu agrado.
– Eu não quero ser amiga dela, ela é estranha.
– Ela nem tem mamãe!
– E o papai dela nem vem buscar ela.
– Minha mamãe disse que o papai dela tá morrendo também.
Olhei pelo jardim e vi que quem dizia isso era um grupo de crianças pequenas.
Elas falavam baixo e pareciam não querer que uma outra garotinha na escutasse. E está já se encontrava chorosa do outro lado do jardim.
Caminhei até às meninas, quatro no total e me agachei entre elas, que quando me viram se assustaram e abaixaram a cabeça como se tivessem sido pegas aprontando.
– O que está acontecendo aqui?
A maior das garotinhas, uma menininha loira e de olhos azuis me olhou envergonhada.
– Nós não queremos brincar com a Mel.
Imaginei que a garota do outro lado fosse a Mel.
– E por quê não? – questionei.
– Ela é estranha! –respondeu uma das meninas.
– É verdade! Ela nem fala como a gente direito – falou outra.
– Minha mamãe disse que nem mamãe ela têm!
Olhei para as meninas e depois para a outra do outro lado.
– Vocês não acham que ela fica triste que pensem assim? Ela pode só querer ser amiguinha de vocês...
As quatro garotinhas olharam para mim confusas, claramente não me entendiam bem.
– Mas ela é estranha!
– Todos nós somos estranhos, somos diferentes uns dos outros é por isso que somos especiais... Veja por exemplo – toquei o cabelo loiro de uma delas e outro escuro da outra – Vocês tem cabelos diferentes.
– Mas ela fala errado...
– É só vocês conversarem com ela e ensinarem ela.
As meninas pareceram entender o que eu disse, correram até a menina do outro lado e falaram com ela, que sorriu.
As meninas se despediram da outra e voltaram correndo para dentro da escola.
Desta vez fui até a menina agachada no outro lado do jardim.
Suas pequenas mãos secavam o rosto mas ela já não parecia estar chorando.
– Oi! – eu disse e ela me olhou.
Os olhos da pequena eram verdes, que destacava o cabelo cor de chocolate ondulado e a pele pouco bronzeada.
– Olá – disse e eu percebi um forte sotaque na sua voz.
– Eu sou a Lina, quem é você mocinha?
– Mel...
– E está tudo bem Mel? – perguntei e me sentei ao seu lado.
– Não... Eu tô triste...
Olhei para ela e coloquei seu cabelo que caia atrás da sua orelha.
– E por quê vocês está triste?
– Meu papai tá machucado e dormindo...
Refleti sob as palavras dela mas não entendi muito.
– Você está triste por que ele tá dormindo?
– Não... – balançou a cabeça– Eu tô triste porquê ele não acorda.
"Ele morreu?" Pensei.
Fiquei quieta por um tempo, sem saber o que falar para a pequena.
– Ele tá no hospital dormindo. A vovó me leva lá pra ver ele mas meu papai não acorda.
"Ele está em coma?"
Sua voz tristonha e quebradiça  me fez sentir fortemente a vontade de abraçar a pequena e fiz exatamente isso.
– Não se preocupe – eu disse a ela– Vai ficar tudo bem.

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⏰ Last updated: Jul 24, 2018 ⏰

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