Saía de casa às cinco e meia da manhã para chegar à PE-15 as seis e pouca. Da minha cidade até onde eu trabalhava eram duas horas e meia de viagem em transporte público e uma pequena parte de caminhada. De Paulista para o Cabo de Santo Agostinho.
Naquele tempo, o segundo ônibus que eu pegava para ir ao trabalho era uma linha que fazia o percurso do Terminal de Integração da PE-15 até o Terminal de Integração da Joana Bezerra.
Tente pensar como o ônibus saia lotado do T.I. da PE-15 e com segurança lhe digo que falhará. Lotadíssimo!
Era tanta gente que não precisava se segurar em ferro nenhum do ônibus para ter apoio em meio ao chacoalho nos calombos, nas freadas, nas curvas e nas estradas, afinal não tinha onde e como cair.
Nos melhores dias, talvez, podia-se escolher o lugar do ônibus que ficaria em pé durante a viagem. Esses melhores dias eram os domingos e feriados.
Todo mundo ia tão grudado que o que tinha dentro do ônibus virava uma massa homogênea.
Homogênea inclusive no aroma.
E foi por isso que parei de usar perfume. Não usava mais.
Mas nem por isso deixara de cheirar como quem usasse perfume. Perfumes, na verdade.
No interior do ônibus essa massa era tão sovada que eu não precisava mais usar perfume. Simplesmente exalava a mistura de todos os perfumes. Logo o que eu usava fazia pouca ou nenhuma diferença.
Mas eu não fui o único que teve essa ideia. Pelo contrário, boa parte da massa deixava de usar perfume para se entregar ao cheiro que vinha de lá. E assim os que usavam perfume não eram numerosos suficientemente para que a massa toda se sinta cheirosa.
Por isso, no meio da massa, veio uma sugestão:
- E se combinássemos: Metade de nós usa o perfume num dia, noutro dia, a outra metade. Assim todo mundo cheira e economiza!
A sugestão foi aceita com muita empolgação. Era uma ideia genial!
E assim se fez. Eu e todo mundo voltamos a usar perfume. Num dia sim, noutro não. E assim íamos todas as manhãs, às seis e pouca, com o mesmo cheiro homogêneo resultado de uma grande mistura.
Então a massa estava parcialmente contente. Sim, parcialmente. O que lhes faltava para estar completamente contente eles ainda não descobriram, até o surgimento de uma nova sugestão:
- E se, invés desse cheiro estranho resultado de uma mistura maluca de vários perfumes, nós escolhermos um só perfume para todos nós usarmos?
Eis então uma segunda ideia genial. Todos admiraram-se como tamanha luz que essa ideia trazia; mas nela se encontrava um problema: Qual perfume usar? Uns preferiam um mais doce, outros não. Uns preferiam uma fragrância mais forte, outros mais suave. E assim não havia consenso.
Resultado disso então foi a típica saída quando não se encontra solução: Eleição.
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O Aroma do Ônibus Lotado
NouvellesO que se fazer quando os cheiros dos usuários do transporte público se misturam devido a extrema lotação? Como suceder, como um grupo, para se ter a melhor saída? Este é um conto de uma antiga história que me deixou um pouco confuso sobre como ela...
