"I'm bulletproof, nothing to lose. Fire away, fire away. Ricochets, you take your aim. Fire away, fire away. You shoot me down but I won't fall. I am titanium"
Os acordes da música Titanium ressoaram do telefone celular de Gabriela no mais alto volume, acordando a menina em uma questão de segundos. Esta se sentou na superfície macia de sua cama, esfregando os olhos, exausta, quase se arrependendo de haver madrugado na noite anterior.
Quase. Por mais que ela odiasse admitir, ficara muito satisfeita de ver seu mais novo projeto finalmente se concretizando. Realizar uma festa do Blackout fora ideia sua, e Austin, seu namorado, passara a semana inteira tentando convencê-la a comparecer.
A fraternidade Sigma-Tau (ΣТ) realizava uma recepção de calouros semestralmente, e como o líder dela era seu namorado, Gabi acabava ficando encarregada de todo o planejamento. Além de ter sido muito mito, a festa no escuro fora extremamente menos custosa do que qualquer outra já realizada na história da Sigma-Tau. Isolaram o ambiente ao máximo, colocaram as caixas de som habituais e providenciaram as bebidas e snacks. Fora isso, cada convidado levaria alguma lanterna, lasers coloridos ou qualquer outra forma de iluminação.
Querendo realizar algo diferente esse ano, naturalmente ele recorreu à Gabriela Mitchell, conhecida em Vermont como aquela que sempre consegue pensar em uma solução. Sua reputação a precedia e era comum que recorressem a ela com qualquer problema complicado que sempre conseguia dar algum jeito de resolver.
Enquanto tomava seu banho, preparou uma lista mental com seus afazeres diários, um hábito que adquirira por meio de sua mãe. Ao pensar em seus pais seu coração apertou-se de saudade. As visitas à sua casa de criação, que já eram escassas, tiveram de ser interrompidas com a viagem deles para fazer voluntariado em Kuala Lumpur, em busca de preservar o trabalho dos artesãos e diminuir impactos ambientais no mundo da moda.
Os Mitchell eram muito chegados a fazer esse tipo de coisa, largando tudo para trás quando resolviam dar suporte a uma nova causa, inclusive sua filha, quando esta já tinha idade suficiente para se virar sozinha. Isso fora uma das razões pelas quais ela crescera para se tornar uma mulher muito autossuficiente.
Não é que não a amassem, muito pelo contrário, sendo filha única, tratavam-na como seu tesouro. O problema era que seus avós por parte de mãe eram tremendamente endinheirados. Tendo nascido em meio a tanta futilidade e riqueza, sua mãe acabou desenvolvendo uma necessidade de proteger o mundo de todo aquele consumismo que haviam presenciado. Já seu pai, cresceu em diferentes condições econômicas, mas conseguiu superar as adversidades e, querendo retribuir, resolvera fazer uma primeira viagem de trabalho voluntário. Ainda bem, pois fora nela que ambos se conheceram.
Dessa forma, ela não poderia culpá-los, porque mesmo que também tivesse uma boa relação com seus avós, Richard e Claire, estes eram a epítome da opulência. Suspirou recordando da nova aquisição deles: uma ala inteira da faculdade que seria inaugurada como Ala Mitchell. Fechou o registro do chuveiro ao adicionar como último item do dia ligar para saber quando teria que comparecer para a tal cerimônia, já que a obrigariam a ir de qualquer jeito.
Percorreu suas roupas com os olhos e escolheu, após alguma consideração, uma regata preta, sua jeans rasgada — que apertava em lugares estratégicos — e suas sandálias plataforma. Agarrou a bolsa usual e saiu de seu quarto, colocando seus óculos escuros para completar seu look de ressaca.
Mal alcançou o andar inferior, no térreo do alojamento da Alpha Kappa Nu (ακν), a qual tinha a árdua tarefa de presidir e já foi abordada por Taylor, sua segundo em comando.
— Meu Deus, você está viva! — Taylor comemorou falsamente, soltando seu olhar cheio de malicia para Gabriela.
— Apenas viva, existindo ainda não. — Retirou os óculos, revelando suas olheiras que, mesmo em meio a pouca maquiagem, eram aparentes. Taylor fez um biquinho.
— Bem, ainda são 9:30 da manhã. Todo mundo nesse horário apenas está vivo e não existindo, e você sabe por quê? — Gabriela negou, dando um suspiro. Sua cabeça doía no fundinho. — Foi a melhor festa de inicio às aulas do século, Gabi!
— É, parece que foi! — murmurou, sorrindo de lado. — As garotas já acordaram?
— Bom, à contragosto, mas sim.
Taylor e menina se encaminharam para a cozinha, onde o comitê organizador da Irmandade se reunia todas as segundas-feiras enquanto tomavam um café da manhã, ainda conversando sobre os outros pequenos detalhes que Taylor se lembrava da festa. Após os saudosos cumprimentos entre elas, e da pequena euforia ao contarem ao mesmo tempo os acontecimentos da noite anterior, Gabriela endireitou a coluna e pigarreou, fazendo com que todas se calassem. Embora seu rosto fosse angelical, ele podia ser bem assustador quando esta se tornava séria.
— Como estamos com o Projeto Santa Lovers Day? — perguntou, colocando seus óculos no topo de sua cabeça com cuidado, para não enroscar nos fios pretos de seu longo cabelo.
— Tudo certo com o recrutamento, prometemos às calouras que isso contaria pontos para as que se candidatassem nesse semestre, você sabe, na distribuição — respondeu Maddy, a Relações Públicas da ακν.
— Tudo bem... E quanto aos fundos, qual de vocês estava encarregada?
— Não conseguimos angariar dinheiro o suficiente ainda. Mas, sendo otimista, penso que até o final do semestre teremos a quantia necessária. Tive que considerar nossos outros eventos e atividades que costumamos empreender, além de reservas para uma eventual reforma na Casa.
— Tudo bem, Courtney. Para não correr o risco, vamos repetir o Lava Carros que semestre passado foi um sucesso. Acham que as meninas topariam novamente?
— Com certeza! — as demais replicaram.
— Ok, então preciso que Maddy cuide da divulgação, Louise cuide de incentivar nossas irmãs, Courtney continue fazendo o balanço de nossas despesas. Eu e a Tay iremos coordenar, então qualquer dúvida venham a alguma de nós. Acho que é isso por hoje, na reunião seguinte discutiremos a "semana do terror" das calouras candidatas. Vão pensando nos detalhes, mas por agora é só.
Um coro de "Certos" e "Tudo bem" foi entoado pelas meninas, que já haviam há muito terminado de comer, e cada uma foi saindo para enfrentar suas respectivas aulas.
— Austin está ai fora — comentou, após checar a mensagem do garoto no celular. Do mesmo, olhou para Taylor.
— Sem comitê de debate hoje?
— Quando é que eu sou mais importante do que o comitê de debate dos Ward? — Gabriela brincou, retirando um copo de expresso da cafeteira antes de, finalmente, sair da cozinha. Taylor fez uma careta esquisita. — Eu não sei se esse é o sonho do Austin, mas o que ele puder, ele fará pela felicidade do pai, então... Eu não me importo. — Deu de ombros.
— Eu fico impressionada com sua sensatez, Mitchell, eu provavelmente iria surtar.
— Ai é que está... — Gabi parou na porta de entrada. Acenou de longe ao ver o namorado e, após isso, voltou a olhar para a amiga. — Você vai achar alguém que irá amar seus surtos. Não queira mudar. Vou indo, nos vemos no 4º período.
Ele a esperava encostado na porta de seu conversível vermelho, proporcionando uma bela visão para sua namorada, que enquanto caminhava da fachada e varanda até ele, sorria abertamente. Mitchell secou o garoto da cabeça aos pés, analisou seus cabelos castanhos com aquele estilo "bagunça arrumada"; seus olhos azuis claros que a fitavam com a mesma fome a que ela o lançava, e um sorrisinho convencido. Vestia por cima de uma blusa branca simples uma jaqueta de couro cobrindo seus ombros largos, que lhe foram proporcionados por ter sido um ótimo jogador de futebol americano nos anos de escola.
Quando faltava pouco a ser percorrido, Gabriela deu uma corridinha e contornou o pescoço de Austin com seus braços, impulsionando-se para lhe dar um beijo, uma cena realmente indecente para ocorrer no meio da rua em uma hora tão movimentada da manhã. Porém, nenhum dos dois ligou para isso, curtindo o calor um do outro. Era gostoso o contraste com a brisa gelada da matina, incomum para a estação que estavam, meados do verão em South Mills.
— Bom dia, Ward — disse a garota, dando-lhe um último selinho antes de se desenrolar dele.
Para um observador externo, parecia que não se viam há semanas, e não que haviam dançado e ficado juntos durante o evento da fraternidade a poucas horas atrás.
— Bom dia, Mitchell — respondeu ele, abrindo a porta para ela entrar, sempre um cavalheiro.
— Então... Parece que gostou mesmo de ontem, está até com seu traje de guerra para quando fica de ressaca. — Austin riu da cara dela, se gabando de haver sugerido, não, insistido para que comparecesse. Ele nunca conseguia compreender como ela fazia tantas traquinagens e planos e parecia nunca aproveitar de seus frutos.
— Só dirige! — deu-lhe o ultimato tentando segurar um sorriso, fazendo um biquinho de desgosto.
Obviamente, ela não conseguiu, e ambos acabaram gargalhando segundos depois. Gabi esticou sua mão para ligar o rádio e surtou ao ver que se tratava de uma de suas músicas favoritas, Sweater Weather.
— The Neighbourhood de novo, Gabi?
Dando a língua, ela simplesmente cantou a música inteira até chegarem ao Edifício de Direito. Despediram-se brevemente e a menina partiu para o porre que seria sua primeira aula do dia: Direito Constitucional, com a professora Sidney. A maldita havia passado uma ridícula quantidade de textos para lerem durante o fim de semana e, como prezava muito por suas notas, a menina lera quase todos, já que terminar não seria humanamente possível, disponibilizando seus resumos para o resto da classe desesperada devido a essa nova adição ao corpo docente que nascera como uma promessa, mas se revelara uma verdadeira morte, lenta e dolorosa.
Ao ver o automóvel vermelho se distanciando rumo ao Prédio de Politicas Publicas, Gabriela correu para sua classe no quarto andar, quase chorando ao ver que o elevador estava quebrado, de novo!
Quando finalmente chegou, ofegante graças ao lance de escadas, acabou esbarrando em uma figura masculina alta e loira que saía da sala ao lado da sua. Era o suficiente para ter se estatelado no chão, se a mesma pessoa não houvesse a segurado pelos braços, colocando-a de pé novamente.
— Obrigada... Me desculpa, eu 'tô realmente...
— Tudo bem. Eu errei minha sala, o erro foi meu.
— Ahn.... — Gabriela parecia ter se perdido. Por algum motivo seus olhos pareciam ter fixado no garoto a ponto de ficar sem palavras por breves segundos. — Eu sou...
— Gabriela Mitchell? — Sorriu. A garota acompanhou na mesma medida seu sorriso. Estava fodidamente hiptonizada pelo olhar alheio.
— Você me conhece?
— Não foi você quem promoveu o Blackout? — Entortou a cabeça, apontando para ela sutilmente.
— Mitchell em pessoa — concordou. — Então você foi?
— Digamos que não é a minha vibe. Mas eu fui convidado ontem, quando trouxe minha transferência, foi quando eu ouvi falar de você — comentou. — "Você caiu na sala da Gabriela Mitchell" — afinou a voz, abanando as mãos. — Sua sala é conceituada por você, e não por períodos. — Sua boca fez um biquinho pensativo.
— Uau. — A menina arregalou os olhos. — Não sei até que ponto isso é bom.
— É você quem decide, eu acho — respondeu, começando a andar para o mesmo lugar aonde Gabriela iria. — Nossa imagem é espelho dos nossos atos. — Sorriu mais uma vez, e, por mais que aquele sorriso tivesse sido dado a ela com total sutileza, foi como um tapa na cara.
— Você não disse seu nome. — Aumentou tom, o garoto a olhou por cima dos ombros, de costas.
— É realmente importante para Gabriela Mitchell saber meu nome? — A garota permaneceu quieta, sem resposta.
Em sua cabeça mil perguntas ricochetearam, e uma delas era a dúvida do: Por que aquele estranho, que dizia estar na sua sala, havia tomado uma direção oposta a ela? De qualquer forma, aquele garoto parecia saber muito bem o que estava fazendo e para onde estava indo, então só o observou até que o mesmo sumisse pelos corredores com sua mochila preta nos ombros, blusão e jeans desgastado.
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One More Dream
FanfictionA Universidade de Vermont é lar da fraternidade Sigma-Tau, e da Irmandade Alpha-Kappa-Nu. Seus líderes parecem formar o par perfeito e sabem muito bem jogar o jogo da popularidade. Porém, assim como dizia Gossip Girl, a chama que brilha mais forte é...
