∞ Laranja

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Para os amantes de clichês.


Entrei no estacionamento da escola primária que eu trabalhava há quase cinco meses, com um pressentimento ruim no peito. Balancei a cabeça tentando dispersar esse sentimento estranho e peguei minha bolsa de couro antes de sair da caminhonete.
Enquanto passava pelos corredores da escola, um sorriso se espalhava em meu rosto ao ver as crianças que tanto amo brincando à espera do bater do sino.
— Hoje as crianças estão animadas!
Foi a primeira coisa que Anna disse quando entrei na sala em que nos reuníamos antes das aulas. Sorri imediatamente para a loira e fui pegar um expresso.
— É verdade — concordei antes de beber o líquido quente.
Anna era professora de Arte e viramos amigas assim que comecei a lecionar. Ela era linda, parecia uma modelo de capa de revista e toda mulher sentia inveja daquele corpo escultural, principalmente porque Anna não era adepta de malhação. O corpo lindo de morrer era um dom natural, como a loira sempre dizia.
— Como vai D. Charlotte?
— Mamãe continua a mesma. Hoje fez chantagem emocional para que a levasse ao SPA Harvey antes de eu vir trabalhar. Aquela velha não me dá sossego.
Ri de Anna, pois Charlotte McDaniel era tudo, menos velha. A senhora quase cinquentona tinha um corpo tão bonito quanto o da filha, talvez fosse algo na genética. E se fosse mesmo genética, Anna já nasceu com o bilhete premiado.
— Acho que mais um encontro está à vista — comentei com um sorriso.
— Que mamãe não me saia com um garoto de dezessete anos que nem Bradley. É pedofilia e não quero visitá-la atrás das grades.
— Ainda não acredito que ela namorou meu irmão.
Bradley White apaixonou-se por Charlotte na primeira visita que me fez em meu apartamento novo. Elas já moravam no prédio e após vários suspiros, Brad criou coragem e chamou Charlotte para sair. Os dois namoraram exatamente um mês – escondido –, só terminaram porque a mãe de Anna mantinha um caso com o porteiro do prédio. Meu irmão flagrou os dois quase transando e isso foi a causa do primeiro coração partido dele.
A conversa foi esquecida quando outros professores entraram na sala e um novo assunto começou. Algum tempo depois, o sinal bateu, nos despedimos e cada um foi para sua respectiva sala de aula.
— Hey, crianças! Vamos entrando — pedi e abri a porta de minha sala.
As crianças entraram como se fossem um furacão, cada uma indo para sua carteira, rindo e conversando. Dar aula era minha vocação, podia sentir em cada poro meu. Aqueles pequenos faziam o meu dia feliz e quando colocava minha cabeça no travesseiro toda noite, sabia que tinha escolhido a profissão certa.
Abri um sorriso quando vi Summer parada à minha frente, estendendo-me uma maçã-verde. Ela era uma garotinha doce e eu a amava secretamente. Não era certo ter preferência por alunos, mas aquela menina teve meu coração com apenas um piscar de olhos no primeiro dia de aula, em setembro. Estávamos agora em pleno inverno de fim de janeiro.
— Obrigada, Summer.
Com uma mão aceitei a maçã e com a outra busquei segurar a mãozinha dela ao entrar na sala.
— É a fruta favorita da minha mamãe — respondeu ela, os olhinhos verdes brilhando.
— É a minha favorita também — beijei a bochecha rosada. — Agora vá sentar-se.
Summer assentiu e puxou a mochila de rodinhas da Bela Adormecida enquanto ia para a carteira dela.
Apaixonar-me por Summer foi fácil. Ela era tão inteligente para a idade dela, além de ser esperta e sorridente. Parecia uma bonequinha de porcelana, o cabelo escuro na cintura contrastava com a pele clara e os olhos verde-esmeralda. Sem contar as bochechas rechonchudas sempre coradas, prontas para serem mordidas carinhosamente. Summer era tão revigorante quanto um dia de verão, e honestamente, o verão era a estação do ano que eu mais gostava.
— Bom dia, crianças!
— Bom dia, Srta. White! — responderam em um uníssono.
Perguntei como havia sido o final de semana delas, o que tinham feito e se leram algum livro novo. Adorava incentivá-las à leitura. Crianças de seis anos mereciam o mundo mágico que apenas um livro poderia criar.
— Srta. White, meu irmão e eu brincamos na casa da praia que minha avó tem em Long Island. Foi demais!
— Jamie, que legal! Trouxe conchinhas para mim dessa vez?
— Claro — mostrou um saquinho e o balançou orgulhosamente — Procurei as mais bonitas.
— Muito obrigada, Jamie — beijei o topo da cabeça de Jamie e peguei o saquinho com as conchinhas. Ele também era um garotinho fácil de se apaixonar. Talvez eu quem fosse mole perto de crianças. — Mais alguém quer me contar o que fez?
Angelina ergueu a mão e acenei para que pudesse falar.
— Minha mamãe me levou ao zoológico, adorei ver os pinguins. Queria ir todo dia!
— Deve ter sido uma boa aventura, Angie. Um dia levarei todos vocês ao zoológico e poderá revê-los. Eu prometo.
Angelina soltou um gritinho de felicidade e toda a sala a acompanhou. Uma ida ao zoológico estava em meus planos, fazia parte da interatividade com o meio ambiente que faltava no dia a dia das crianças nova-iorquinas. Só faltava ver a disponibilidade de uma data com a diretora.
— Quero ver os leões!
— Macaquinhos!
— Elefantes!
— As girafas são mais bonitas!
— Outro dia conversamos mais sobre essa ida ao zoológico. — falei quando percebi que estavam ficando fora de controle. Amar crianças também significava aprender a ter pulso firme. — Alguém leu um livro esse final de semana?
Minha garotinha prodígio ergueu a mão e me senti orgulhosa por dentro.
— Estou lendo um livro, Srta. White.
— Qual o nome dele, Summer?
— A Bela Adormecida. — disse o nome do livro com um sorriso enorme no rosto, evidenciando os dentinhos de leite. — Papai comprou para mim e me ajuda a ler antes de dormir.
— Fico feliz que seu pai te incentive a ler. Ter o apoio dele é fundamental. — comentei feliz por saber que ainda existiam pais que se preocupavam com a leitura. — Tenho um livro guardado que eu amava quando criança. Gostaria de lê-lo, Summer?
Como se possível, os olhos verdes cintilaram ao ouvir minha pergunta. Deixar que ela lesse o livro que eu guardava com tanto carinho, seria um ato de coragem e eu esperava que Summer fosse cuidadosa. Eu o amava e em cada página amarelada tinha um sorriso meu da infância.
— Por favor, Srta. White. — implorou com medo de eu voltar em minha decisão. — Eu quero ler o livro. Quero muito muito muito.
Assenti com um pequeno sorriso. Summer merecia meu voto de confiança.
— Chama-se Peter Pan e é bem mais legal que o filme. Tenho a sensação que você amará lê-lo com seu pai. Trarei amanhã sem falta.
— Obrigada, Srta. White.
Fitei a sala e as crianças não prestavam atenção em meu pequeno diálogo com Summer. Elas brincavam entre si, aproveitando o tempo antes de escreverem o que eu passaria na lousa. Para chamar a atenção delas, pedi para que abrissem a apostila e assim comecei a minha aula.
No caminho para a sala que os professores se reuniam, encontrei Anna que daria aula de Arte. A última aula do dia para meus alunos. Toda aula de Anna era incrível, pois as crianças amavam pintar com tintas ou fazer esculturas com massinha de modelar.
— Anna, hoje é o dia de Summer Bryant levar Bob para casa.
— Aquele porquinho da índia é nojento — resmungou enrugando o nariz. — Obrigada por avisar antecipadamente ou Erick seria capaz de enganar-me novamente.
— Tudo bem. Vá logo antes que as crianças coloquem fogo naquela sala.
Anna deu um risinho divertido ao praticamente correr até a sala de Arte.
Na sala de reunião, vi Phil, o treinador e pai de Jamie. Ele estava usando uma roupa de jogador de beisebol e um taco descansava ao lado de sua cadeira.
— Gisele, por favor, assine os papéis do divórcio, nada vai mudar minha decisão. — Phil falava ao celular com a esposa.
Gisele não aceitava o fim do casamento dos dois e isso acabava sendo transmitido ao Jamie em relação à escola. Fiquei feliz que ele tenha tido um final de semana bom com os avós e o irmão. O fim de semana sem neve e com temperatura amena deveria mesmo ser aproveitado, ainda mais por uma criança como Jamie Harrison.
— Gisele, não quero entrar com o litigioso, então colabore. Jamie e Ben sofrem com isso.
Ben era o irmão mais velho de Jamie, estava no primeiro ano do colegial e estudava na mesma escola que Bradley. Não era amigo de meu irmão, mas talvez fossem colegas. Vi os dois juntos pouquíssimas vezes e Benjamin parecia ser um garoto solitário.
Suspirei e revirei os olhos sentando-me em frente ao Phil enquanto pegava algumas atividades para corrigir depois de colocar meus óculos para leitura. Eu preferia ficar na sala coletiva que sozinha na minha. Philip sorriu cansado para mim. Não aguentava mais os chiliques da esposa mimada.
— Não tem como você me acusar de adultério — retrucou algo que ela disse. — Pelo amor de Deus, você sabe que nunca te traí, Gisele.
Eu já conhecia aquela história. Eles brigavam, Phil pedia o divórcio, Gisele dificultava as coisas e os papéis eram esquecidos. Philip Harrison estava nesse dilema há meses e parecia que nunca sairia dele.
— Também estou cansado disso tudo, Gi. Só quero o melhor para nós dois e nossos filhos. Faz tempo que deixamos de ser um casal. — suspirou e fechou os olhos, estava cansado de discutir. — Depois conversamos, está bem? Preciso desligar.
Eu estava na terceira atividade quando Phil bateu o punho sobre a mesa, quebrando o silêncio após a chamada de Gisele. Pulei de susto com o barulho e quase derrubei as folhas ao chão.
— Diga algo, Maddie — suplicou. — Seu silêncio me mata.
Dei de ombros sem ter o que falar. Phil era um homem bonito, charmoso e adorável com as crianças, porém, muito enrolado com a esposa. Eu sabia que ele gostava de mim, mas nunca tivemos nada. Éramos amigos e respeitávamos essa condição, além de que eu não me sentia muito confortável para entrar em um relacionamento desde que tudo aconteceu.
— Phil, cada um merece a cruz que carrega.
— Maddie, só você para me fazer rir em uma hora dessas — riu e balançou a cabeça, parecia se sentir grato pela leveza que a minha fala trouxe. — Mas você não merece Anna, digo, sua cruz.
Eu simplesmente não entendia a antipatia recíproca e gratuita que um sentia pelo outro. Quando estavam no mesmo ambiente, o clima ficava tão tenso que todos percebiam o ódio entre eles. Se Anna não me jurasse de pés juntos que não suportava Phil, eu diria que era paixão reprimida de ambos.
— Você deve ser a única pessoa no mundo que vê defeitos em Anna. Realmente não entendo vocês.
Philip fez uma careta para o que eu tinha dito e caímos na gargalhada, consecutivamente. Paramos apenas quando um barulho alto ecoou em nossos ouvidos. Era o alarme de incêndio.
Arregalei os olhos ainda escutando o alarme. Senti Phil segurar minha mão e me arrastar pelos corredores entre as filas que as crianças faziam até finalmente chegar ao gramado em frente à escola. Phil falou algo sobre vigiar as crianças ou ligar para os pais delas, coisa que fiz por um momento, mas quando descobri aonde o incêndio acontecia, meu coração parou.
O fogo consumia a sala de Arte. Eu não conseguia parar, atônita, de assistir as chamas lamberem as paredes e saírem pelas janelas.
O barulho das sirenes despertou-me para a realidade, assim como os gritos agudos das pessoas ao meu lado. As crianças choravam assustadas enquanto esperavam pelos pais no gramado da escola.
Escutei Anna gritando e virei-me para ela, tentando entender o que tanto perguntava.
— Madison! Responda-me!
Pisquei repetidamente e soltei o ar em lufadas, não reparando que havia prendido a respiração.
— O que foi, Anna?
— Você viu Summer Bryant? — perguntou agitada.
— Não está com as crianças?
— Não! — sussurrou ela, deixando lágrimas mancharem o belo rosto. — Já fiz a chamada três vezes e não a achei. Estou desesperada!
Senti meu coração parar subitamente e voltar galopeando furioso. Summer não estava no gramado e isso só significava uma coisa:
— Summer está lá dentro! — grunhi horrorizada.
Anna soltou um gritinho estrangulado enquanto eu corria pelo gramado, pulava a escadaria e tentava empurrar as portas de entrada da escola primária. Havia apenas um único objetivo em minha mente:
Precisava ter minha menininha a salvo.
Com esse pensamento, corri em direção à sala, lutando para empurrar a porta que estava quente e parecia enterrada. Depois de duas tentativas falhas, a porta se abriu com um baque forte. Entrei na sala de Arte, tapando os olhos rapidamente, pois o laranja das chamas cegava minhas vistas – meus óculos estavam extremamente embaçados, por isso os tirei, jogando-os pelo caminho – e a fumaça fazia-me tossir.
— Summer!
Aparentemente, não havia pessoas, mas não tinha como ter certeza. Tomando coragem, invadi a metade da sala, tropeçando em algumas cadeiras. Olhei para todos os lados e não encontrei nada além de destruição e chamas.
— Summer, sou eu, Srta. White. Onde você está?
Quase instantaneamente ouvi um choro baixo de criança. Fechei os olhos por alguns segundos, agradecendo à Deus por ela estar viva. Segui o choro tateando às cegas, quando vi o que parecia ser um sapato embaixo da mesa de Anna.
Agachei-me, deixando as lágrimas rolarem enquanto via a minha menininha encolhida embaixo da mesa, agarrada à gaiola de Bob. Ela chorava quando me viu. O rosto estava manchado pela fumaça, os cabelos desgrenhados e tinha dificuldade para respirar.
Puxei-a para os meus braços, apertando forte seu corpinho. Fiquei tão aliviada por saber que ela estava bem, que talvez apenas Deus entendesse meus sentimentos. Não sei o que aconteceria comigo se perdesse Summer. A dor em meu peito se intensificou apenas em pensar na alternativa.
— Mamãe — choramingou Summer, escondendo o rosto entre meus cabelos.
— Calma, meu amor, vai ficar tudo bem. Nós vamos sair daqui — tentei acalmá-la gentilmente ao procurar a saída.
— Bob... Acho que ele morreu. Ele não se mexe.
Olhei a gaiola onde o porquinho da índia estava. Infelizmente não teríamos tempo para ver se Bob estava vivo ou não. Não sabia quanto tempo aguentaríamos naquele ambiente infernal.
— Feche os olhos.
Sem ver se Summer tinha me obedecido ou não, travei meus braços ao redor dela e corri até à porta, tomando cuidado para o fogo não a queimar. Quando passei pela porta, percebi bombeiros correndo com mangueiras e alguns com cobertores. Estávamos a salvo.
Suspirei ao me deixar ser conduzida para fora da escola, um cobertor enrolando Summer e eu. Podia sentir meu pescoço molhado pelas lágrimas dela, mas não liguei. Eu tinha conseguido. E como prova, sorri brilhantemente ao descer as escadas, vendo o olhar de cada pessoa ali em frente. Era um olhar de loucura, mas acima de tudo, de admiração.
— Ela está bem — comuniquei e todos vibraram entusiasmados.

NOTA DA AUTORA:

Gente, finalmente publiquei na amazon! Vou deixar apenas esse capítulo por enquanto porque a configuração nos outros está dando erro. Logo colocarei mais alguns capítulos. Quem quiser comprar, o ebook está por um valor super justo! Se você já leu, dê uma passadinha na amazon e deixe sua avaliação! Ajudem essa autora nacional que finalmente teve coragem de publicar o livro :)

Castelo de Cristal || DEGUSTAÇÃOStories to obsess over. Discover now