O garoto caminhava devagar, apesar de não ter sinal de vento era um dia fresco. O céu estava limpo, eram raras as nuvens que davam o ar da graça. Não estava tão longe de casa, ali, perto da sua arvore favorita conseguia ver a janela do seu quarto e a parte superior da casa onde morava.
Vinha ali todos os dias para soltar pipa, mas já fazia dias; ou semanas que não ventava. Então ele apenas sentava sob a sombra da árvore junto a sua pipa favorita e Sábado, seu cachorro vira-lata. Mesmo que no auge do conhecimento dos seus dez anos, não soubesse o que era um cachorro vira-lata, dizia sempre o nome do amigo como se fosse um cavaleiro de um grande castelo.
Sábado, o vira-lata.
Andavam sempre juntos, amigos inseparáveis. Iam todos os dias juntos até a árvore e neste dia não tinha sido diferente, fez o mesmo caminho de sempre, passando pelo pai no curral e pela pequena lagoa, onde vivia Guga, o pato nomeado por ele como guardião do grande mar.
Sentou-se debaixo da arvore e afagou o pelo marrom de Sábado. Tinha trago no bolso um pedaço de bolo de fubá feito pela sua mãe. Gostava de falar que ela era a maior cozinheira do mundo, embora ele não conhecesse muitas, mas certamente era sim a melhor cozinheira do mundo. Dividiu o bolo com o cachorro e ficou lá vendo o dia passar.
- Não vai voltar garoto, pode voltar para sua casa. – Disse uma voz vinda detrás da árvore.
Sábado disparou a latir.
- Ora, não precisa disto; sou um velho amigo.
O homem idoso andava com certa dificuldade pelo terreno irregular. O velho sorriu para o cachorro que se acalmou magicamente e começou a abanar o rabo. Era o velho Carl, ele vivia há mais tempo por aquelas bandas do que qualquer um podia lembrar. Vivia sozinho em uma casinha simples depois da floresta, nunca mencionou ter filhos ou esposa e também nunca pareceu sentir falta de ambos. Estava sempre de bom humor. Vinha sempre sentar-se debaixo da árvore para conversar com o garoto e vê-lo brincar pelo campo. O garoto era uma ótima companhia.
- Quem não volta mais? – Perguntou o garoto.
- O vento. Ele decidiu partir.
- Mas ele sempre volta.
- Não mais, ele não vai voltar.
- Mas por que?
- Ele já viu muitos amigos partirem, pequeno. Chegou a vez dele.
Sábado balançava a cabeça de um lado para o outro sem entender a conversa entre o velho e o garoto.
- Mas ele vai voltar sim! – Rebateu o menino. – O vento não pode ir embora para sempre.
O velho riu.
- Claro que pode, todo mundo pode qualquer coisa. – O velho sentou-se ao lado do garoto. – E ele decidiu ir embora.
- E não tem nada que eu possa fazer? Como vou soltar minha pipa agora?
- Não sei, acho que pode arrumar outra brincadeira.
O garoto ficou olhando o horizonte, a pipa estava descansando no chão ao seu lado, sem vida. Pegou um graveto no chão e começou a rabiscar a terra na sua frente. Fez ele correndo junto ao Sábado e sua pipa, voando alto no céu, tocando as nuvens.
- Aqui! – O menino entregou a pipa para o velho. – Se vamos ficar aqui sem soltar pipa vamos precisar de comida, vou dizer para minha mãe que o senhor tá aqui e vou buscar mais bolo!
O garoto saiu correndo seguido pelo seu cachorro que soltava alguns latidos. Mas num segundo quase instintivo, olhou para trás. Não viu mais o velho Carl. Sua pipa voava alta e livre, uma gostosa brisa fria tocou o rosto do garoto antes da chuva cair, continuou correndo para casa.
Dizer adeus não era o forte de Carl.
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Vento
Short StoryUm garoto, uma pipa, seu cachorro e um velho amigo. Esse texto me veio a cabeça quando ouvia When the Wild Wind Blows do Iron Maiden, e a única coisa em comum entre os dois é o vento. Mas toda vez que eu ouvia essa música, me vinha a imagem de um ga...
