A chegada

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13 de setembro de 1889.

"Nem tudo é como planejamos ou como esperamos que as coisas na vida sejam. Quando estamos em um sentido, em um piscar de olhos nos vemos em outro."

 Me chamo Estevão. Nasci em Lisboa, em Portugal, e mediante a algumas situações me mudei anos atrás para a Europa junto de meu pai, para o ajudar em seus negócios, pois Portugal se encontrava em uma crise expressiva que abalou grandemente o comércio na época.

15 anos fora o tempo que estive fora, e durante esse tempo vi muitas coisas que me acresceram e decresceram em minha vida. Nada de tão luxuoso ou grandioso para ser lembrado por anos e anos, mas meu pai por herança de meu avô era dono de uma grande adega. A adega tivera o nome de Lucid Dream, e enquanto estávamos em nossa terra natal, vendíamos bem e tínhamos certa consolidação na cidade média.

 Sim, cidade média, pois Portugal há alguns anos se dividia em três grandes áreas: cidade baixa, a média e a alta.

 Pela lógica do capitalismo vigente, e do crescimento real de riquezas, de ouro e de nobres, foi visto a necessidade de separar o "joio do trigo" como diziam os ricos, de separar os que verdadeiramente tinham dinheiro, glebas e poderes dos que apenas trabalhavam para ter o que comer. Meu pai por muitas vezes fora convidado para migrar às terras altas, mas ele nunca teve o verdadeiro desejo de conviver em meio aos nobres e aos ricos. Quando perguntado, arrematava dizendo que estava suficientemente satisfeito na onde estava e não tinha intenção de pagar impostos mais altos por estar no antro da nobreza.

 Enfim, a crise chegou, eliminou muitos, e de Portugal saímos. Também é válido ressaltar que nos últimos anos a escravidão vinha crescendo com força, e os rios próximos das cidades sempre estavam lotados de vapores, barcos que continham variadas cargas, desde feno, madeira, sementes, e até negros, mercenários ou assassinos camuflados. Não tinha noção como estava Portugal nos tempos de hoje, anos depois nessa questão, porém não me surpreenderia caso crescesse.

 Por falar em escravidão, a cidade baixa, era uma área extensa que abrigava dentro dela um complexo que era apelidado pelos comerciantes locais e moradores de "cidade zero", por abrigar grandiosíssima pobreza, dor, morte e escravos. Nessa cidade zero os escravos moravam em casas improvisadas ou em verdadeiros barracos montados com cana e fenos velhos amarelados e dissecados pelo tempo. Esse local era considerado um inferno, ou um lugar onde você ansiava pela morte, lá não tinha nenhuma lei, e os oficiais não ousavam em ir tão longe, temendo por suas vidas ou por se tornarem prisioneiros.

Minha cabeça estava cheia, fluída e transbordando de pensamentos, ideias e anseios. 

O motivo de retornar a minha terra, maiormente é pela saudade dela, e em seguida ao fato do falecimento de meu pai. 

Ele morrera em agosto e desde então estive preparando a papelada para conseguir vender a Lucid dream, e juntar todo o dinheiro que consegui em um banco seguro. Num total cheguei a um valor de 85.000 escudos (equivalente a R$2000.00), o que me fazia passar bem por um bocado de tempo até decidir o que fazer.

 Meu velho sofria de câncer no pâncreas, e um dos grandes fatores ou impulsionadores de eu adentrar a medicina, se deve ao fato disto. 

A enfermidade se manifestara com força nos 4 anos anteriores, e desde então o meu velho não tinha sido mais o mesmo, a fraqueza ia tomando conta de seu corpo velho e rígido, e ele parecia saber que seus dias estavam próximos do fim. Em seu leito de morte, ele estava rodeado por alguns próximos, dentre eles até o padre Johnston que dera a benção com um óleo sagrado e proferira palavras consoladoras, sobre algo de uma pós vida, outro mundo, salvação, coisa do tipo.

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