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Corro pelas ruas de Seul, esbarrando nas pessoas. Ouço uns xingando-me e outros resmungando palavras que eu nem fazia questão de ouvir. Minha vista estava embaçada, por culpa das lágrimas que caíam sobre meu rosto e outras que insistiam em cair. 

Tropeço em alguma coisa e caio na grama, olho em direção ao objeto que tinha batido o pé, e vejo a raiz da árvore ao meu lado.

Como eu fui parar ali? Olhava em volta e via o parque a margem do rio.

Eu reconhecia aquele lugar, lembro-me de ir com os meu avós ali. Os dias de verão aqui na Coréia são muito quentes, lembro-me de meu avô me segurando nos ombros enquanto tomava meu sorvete de chocolate que acabará de comprar. Sempre deixava cair no chapéu do vovô, que sempre ria e sujava meu nariz com o chocolate que escorria. Rio lembrando da cena. Mas meu sorriso logo se desfaz.

Como tudo isso se transformou nisso? Como eu fui perder tudo o que tinha?

Me levanto com dificuldade por conta da pontada de dor que sentir no tornozelo. Droga! Volto para a calçada, indo em direção a minha casa. Ando por um tempo e chego em frente ao antigo prédio em que morava com meus avós desde pequena.

Depois da morte deles dois, a casa sempre está em silêncio, não se ouve mas as risadas, causados pelas brincadeira e palhaçadas que meu avô fazia enquanto minha avó preparava seus deliciosos biscoitos e chá, e as histórias das aventuras que passaram em suas longas viagens quando jovens.

Adentro o saguão do prédio, logo avisto um casal de velhinhos conversando, comprimento educadamente e vou em direção às escadas me arrastando pelas mesmas, até chegar em meu andar. 

Procuro minhas chaves pelo meu casaco, achando-as em um bolso escondido. Abro a porta, adentrando o apartamento frio.

É época de inverno, muitas pessoas nem saem de tanto frio que se fazia nas ruas. Tranco a porta jogando as chaves em cima do mezanino que tinha do lado da porta cheia de contas à pagar. Já fazia meses que não conseguia um emprego fixo, sempre ficava de um emprego para o outro, nunca permanecia em um.

Era difícil manter um emprego quando se está fugindo.

As pessoas nunca me entendiam, quando eu pedia demissão, dizia que iria me mudar, porém me mantia no mesmo lugar.

Sempre me falam que sou uma medrosa e covarde, mas vejo isso como uma proteção. Depois que descobri que meus pais não morreram de mais uma dessas doenças sem cura ou um trágico acidente de carro enquanto voltavam de um restaurante em uma noite de inverno, mesmo com minha mãe brigando com meu pai para não pegar estrada com as ruas cheias de neve, como passaram a vida toda me contando, e sim foram assassinados por pessoas a quem eles deviam dinheiro. Depois disso nunca mas confiei em mas ninguém e vou continuar assim. 

Me jogo na cama, a droga do tornozelo ainda doía. Provavelmente tinha torcido, mas não ligo, aliás tenho mais problemas do que um simples tornozelo torcido. Me lembro que tinha caído na terra mais cedo, então resolvo tomar um banho.

Me levanto, tirando minha roupa em frente ao grande espelho. Olho meu reflexo, meu corpo sempre foi o mesmo desde minha adolescência. Não era gorda nem magra, por ser latina tinha uma pele mais bronzeada e o corpo com curvas bem aparentes. Quando vim para Coreia, era muito pequena então praticamente me considero uma coreana, mas fora dos malditos “padrões de beleza”. Para eles eu sou gorda e meu cabelo era algo diferente, por ser cacheado. Já que cabelo cacheado na Coréia é algo fora do comum. Desde pequena sofri e tive que ouvir muitos comentários sobre meu físico. Mas como eu sempre digo, "foda-se todo mundo!". 

Entro no box ligando o chuveiro. Deixo a água quente percorrer todo o meu corpo, cada curva que a água tocava eu sentia um alívio percorrer o local. Aquilo era uma sensação muito boa. Ensaboo meu corpo, enxaguando-o logo em seguida. Aquilo era relaxante, estava precisando disso.

Saio do banheiro enrolada indo em direção ao armário. Pego a primeira roupa que vejo, uma calça moletom e um blusão, com toda a certeza essa era a melhor roupa. Vou para sala mexendo no celular, vendo quais novas merdas do mundo. Faço um sanduíche simples e pego um suco, sentando-me em frente a TV. Passava mais um daqueles programas de entretenimento com os k-idols. Não estava prestando atenção, mas podia ouvir as risadas e vozes que falavam rápidos e em tom de brincadeira. 

Como já é noite, não se ouvia muito barulho no prédio, já que a maioria dos moradores eram velhinhos, exceto pelos dias de quarta, a famosa “Quarta do bingo”. Não que eu me importe, mal ficava em casa mesmo, já que sempre passo a maior parte do meu tempo no meu trabalho que era como garçonete de um café em Gangnam-gu. O local era famoso pela visita de muitos famosos que tomavam café lá. Sempre via umas fãs do lado de fora com câmeras, tentando tirar fotos dos ídolos. Tinha vezes que era engraçado pelo desespero delas, mas as vezes dava dó.

Termino de comer e lavo a louça, como a louça não vai ser lavada sozinha, já que não tem mais ninguém para fazer isso.

Enfim, olho o celular e vejo que já passava das 23:30, hoje tinha sido um dia e tanto, penso lembrando-me do acontecido mais cedo. Balanço a cabeça com o objetivo de afastar essa lembrança e vou ao quarto. Deito-me e logo pego no sono.    

Daddy IssuesWhere stories live. Discover now