Prólogo

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Júlia abriu os olhos.
A menina de olhos castanhos morava na casa amarela da Rua do Engenho há duas semanas, e mesmo assim, o que ela mais queria naquele momento era nunca ter se mudado para esta casa.
Sentada no piso e encostada em sua cama, Júlia sentiu seu estômago doer de fome. Já fazia quase vinte quatro horas que ela estava presa em seu quarto, sem água e sem nada para comer. O motivo disso era que
atrás da porta de madeira, que a separava do corredor principal de sua casa, a morte esperava-a em silêncio.
Porém, a garota sabia que aquele silêncio era pura traição do ser que estava do lado de fora.
Levantando-se lentamente do chão, Júlia penteou seus cabelos loiros com os dedos. Essa era uma mania
que ela sempre teve, mas que não fazia sentido naquele momento. Os olhos castanhos, antes tão alegres,
agora estavam tristes e cansados. O corpo da menina sentia as dores, consequência dos últimos dias.
A garota magricela foi até a porta. Por alguns minutos ficou parada, pensando em qual deveria ser sua
próxima ação. Definhar de fome e cansaço naquele quarto, ou talvez, conseguir sair da casa antes que o ser
a pegasse.
Júlia segurou a maçaneta da porta e a girou lentamente.
Abriu a porta e o que sentiu primeiro a fez tremer. Um cheiro tão ruim e podre que a deixou momentaneamente tonta. Mas, ela não poderia ficar ali parada.
Andando vagarosamente pelo corredor a menina chegou à sala principal. Os sofás amarelos que
combinavam com a pintura da casa estavam repletos de marcas e gotas de sangue. No chão, os corpos de seus
pais estavam inertes, já entrando em estado de decomposição. Os mesmos olhos castanhos, que viram
os pais morrer, se encheram de lágrimas.
A garota caiu ajoelhada no chão. Júlia tentava não chorar, porém isso fazia com que ela chorasse ainda mais. Por alguns segundos, a menina permaneceu imóvel no chão da sala, olhando fixamente para os
cadáveres dos pais. Seu choro foi cruelmente interrompido por um barulho emitido na cozinha. O som se assemelhava a um miado de gato.
Ela já ouvira aquele som antes. Os pelos da nuca da garota se eriçaram. As portas de todos os quartos da casa começaram a bater furiosamente, como se um furacão estive passando.
Erguendo-se rapidamente, a menina de cabelos loiros foi correndo até a cozinha. As lágrimas não
paravam de sair de seus olhos. Chegando ao cômodo, sua primeira ação foi correr até o telefone preto que estava em cima da pia. Júlia puxou violentamente o fone. Talvez ainda fosse possível salvar-se. Ela ligaria para a polícia. Talvez ainda houvesse tempo.
Ao colocar o fone no ouvido, o som de que a linha estava disponível não foi escutado.
Ao invés deste, Júlia Ouviu de novo o som rouco parecido com um miado de gato. Os olhos já lacrimejantes da garota jorraram Lágrimas.
A esperança acabara. Não havia mais salvação.
Júlia colocou o fone no aparelho e esperou. A criatura estava próxima. Ela sentia isso. Seus braços começaram a formigar, uma sensação já conhecida pela garota. A sensação de que não era mais ela que controlava seu corpo.

A janela que estava em frente a Júlia estraçalhou-se em pedaços.
Ela já sentia que o único movimento que podia fazer era piscar os olhos. Seus membros estavam congelados por aquele ser. Foi então que o corpo da menina moveu-se involuntariamente. Seu tronco
começou a curvar-se em direção a pia e sua cabeça bateu violentamente no mármore negro. O movimento
repetia-se rapidamente. Júlia não parava de chorar. A menina começou a emitir um gemido grave.
Finalmente, ela ouviu um estalo em seu pescoço, e então, sua alma foi tomada pelas sombras.
A morte, ou o que fosse aquele ser cruel, acabava de ter matado o último sobrevivente da casa amarela.

SombrioHikayelerin yaşadığı yer. Şimdi keşfedin