Morri no dia 23 de fevereiro do ano de 1999, sim, já faz um bom tempo. Estava muito atordoado para notar os dois grandes faróis vindo em minha direção, não senti nada além de minha cabeça entrando em contato com uma superfície áspera, foi uma pancada e tanto.
Minutos depois eu me tornei um telespectador de mim mesmo, o meu eu estava deitado, com diversas pessoas com semblantes assustados ao redor, em uma tentativa falha dos médicos de ser reanimado. Apenas um corpo estirado no chão, sem vida, apenas um morto. Eu tinha morrido.
Sou apenas alguém que um dia já foi alguém, e hoje nada mais é que nada. Um alguém que pode estar em todos os lugares, mas que não está em lugar algum, a não ser nas lembranças de quem um dia me conheceu, algumas não tão boas.
Não morro pois já estou morto, mas também não vivo, existo. Ando pelas ruas da cidade, observo as pessoas sustentando grandes sorrisos no rosto, idosos regando suas plantas, crianças brincando pelo grande espaço preenchido pela grama verde, uma moça andando distraída pela extensa rua, dois grandes faróis indo em direção à moça, e eu, apenas observando.
O som do atrito do corpo com o carro ecoou em minha mente, me lembrando do dia que era eu no lugar da moça, minha visão privilegiada me proporcionou ver com clareza o momento que a mulher que me parece tão familiar atingiu o chão. O olhar dela caiu sobre mim, como se conseguisse me ver, seus lábios lentamente foram se abrindo, e eu consegui entender perfeitamente a sua última palavra antes de desmaiar.
"Acorde…"
Acordei ofegante.
YOU ARE READING
Eu, Morto.
Short Story"Eu, Morto" é um conto criado para o desafio 4 do concurso Clube dos Artistas.
