Improbabilidade

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Estava no vazio, no negrume total, literalmente no vácuo, e, diferente das outras vezes, em que imediatamente era jogada para outra dimensão e ficava inconsciente por horas, dessa podia ver, ou melhor, não ver, o quanto era incrivelmente preto o lugar em que encontrava. Detalhe, ela não pousara em nenhuma superfície sólida e nem ao menos estava perto de alcançar algum chão.

Talvez, pensou, se tivesse chegado ali alguns anos antes, se chocasse com um corpo celeste minguado e esbranquiçado, orbitando em um planetinha chinfrim, e azul-anil celeste, na borda mais brega da galáxia. Que provavelmente fora destruído para dar lugar a um desvio, uma obra de extrema importância, é claro, e por isso agora estava ali, caindo, ou não, pois não havia para onde cair, e desviando-se de algumas poeiras e lixo espacial que sobraram do que, ela supôs, era chamada de Terra.

Há distância, não visível ao olho nu de nossa perdida mochileira, uma enorme placa alaranjada com letras verde-limão piscava alegremente, indicando que em Breve mais uma obra dos seus amados Governantes seria inaugurada. Quando, não havia data, nem o mínimo rastro do início de uma construção por ali. Provavelmente a maquete estava exposta em algum porão de uma repartição pública qualquer, de fato, uma situação comum no país de onde ela havia vindo, mas este não era o caso.

Lembrava-se de ter lido ou ouvido de certo Guia que, uma pessoa normal, caindo vertiginosamente no vácuo total do espaço, com os pulmões cheios de ar, conseguia sobreviver no espaço por cerca de... trinta segundos. Como todos sabem, o espaço é grande, grande mesmo, não dá para acreditar o quanto ele é desmesuradamente, inconcebivelmente, estonteantemente grande, e por ai vai, e por isso a probabilidade de uma pessoa normal segurando o ar, durante esses trinta segundos, ser salva, é de uma chance em duas elevadas a 276.709. Ou outro número improvável qualquer.

Para sorte de nossa mochileira, ela usava uma roupa espacial especial, com certo estoque de oxigênio. Mas, de que adiantava ter o que respirar, se estava caindo para cima, ou para baixo, vertiginosamente no espaço, tentando não colidir com os destroços e torcendo para não morrer nesse meio tempo? Isso, provavelmente, enquanto em outro lado da galáxia os filósofos e religiosos pandimensionais discutiam sobre vida após a morte em um talk show qualquer. Mas não importava, pois nossa desventurada personagem foi salva. Ou quase.

Após quase oitenta e quatro segundos, desde que chegara ao vácuo do espaço, e metade deles tentando gritar pedidos de ajuda ou simplesmente "Aaaaaaahhhh" — que, é claro, foi perda de oxigênio, pois todos sabem que o som não se propaga no vácuo, ou quase todo mundo — ela foi englobada por uma massa azulada acimentada que surgira do nada, exatamente no mesmo local em que estava.

Há uma lei na física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, no mesmo tempo. Isso, obviamente, foi ignorado pelo objeto improvável que brotara, e agora lá estava nossa personagem, com uma estranha sensação em seu corpo, ainda tentando acalmar a respiração, e dentro de uma enorme espada de concreto azul-brilhante, que convergia contra uma pequena nebulosa.

Todos ignoraram o fato de que em algum canto remoto do universo, por um milésimo da metade de um segundo, de uma fenda interespacial caíram centenas de cortinas verdes e cavalos pretos falantes, espalhando-se por alguns planetas mais primitivos, acabando por geral uma guerra nuclear entre um desses que considerava uma Chuva de Cadáveres Equinos motivo suficiente para declarar guerra ao seu próprio sol.

— A taxa de improbabilidade é de quatro mil mais dois zarquons e diminuindo — uma voz feminina alegre falou, vinda de seilá onde, tirando-a de seu devaneio, enquanto se acostumava a ser um feliz patinho inflável gigante voando contra uma corrente de tulipas cortantes nervosas.

Percebeu que uma de suas asas era um machado vermelho, tentou soltar um grasnido, e viu-se materializada em outra coisa novamente, enquanto a voz feminina continuava a falar de tal de taxa de improbabilidade. Tentou ignorar os pensamentos que borbulhavam em sua mente de ursa, estava usando um tutu cor de rosa, e seu instinto lhe dizia para comer as paredes da colmeia que a envolviam.

Novamente aquela estranha sensação espalhou-se pelo seu corpo, e continuava sentindo-se estranhamente fofinha, quando olhou ao seu redor e viu que fora parar em uma espécie de compartimento de carga muito branco e circular. As paredes eram tão brancas que chegavam a reluzir, conseguiu vislumbrar de relance sua imagem e...

— UUUUUH! — ela era uma pequena coruja de pelúcia em formato oval, flutuando dentro do capacete de seu traje espacial.

— A normalidade vai ser estabilizada em dez segundos.

"FINALMENTE!" Pensou, e no momento seguinte sentiu seu corpo ser sugado de dentro para fora e fazer um Puffff, voltando à sua forma original.

— Droga — praguejou, se estatelando no chão.

— Saudações, invasora. Tenho a imensa satisfação de dizer que nosso capitão está se preparando para enxotá-la da nave — mais uma voz misteriosa, e irritantemente alegre, surgiu seilá de onde. — Espero que tenha gostado de sua estadia.

Levantou-se de um pulo, olhando para todos os lados, e de um canto branco abriu-se uma passagem. Tentou imitar uma pose de defesa que vira em filmes de artes marciais, preparada para o que viria. Esperou um tempo, mas nada apareceu, então resolveu seguir pelo caminho até encontrar alguém, ou melhor, fugir do tal capitão, enquanto buscava respostas. Afinal, ainda precisava descobrir onde estava, e o relancear de olhos para o dispositivo no seu pulso não ajudava em nada. A terceira porta por que passou falou algo sobre como havia tido um imenso prazer por servir de caminho para ela, e assim com das outras vezes, ignorou o comentário.

— Olá novamente, invasora — disparou a voz alegre, quando chegou a mais um corredor. Parecia estar andando em círculos. — Venho alegremente lhe informar que estamos prontos para expulsá-la.

— QUE?

— É só seguir as setas — e setas rosa-pink apareceram pelo chão, indicando o caminho.

— Ata.

Tomou o destino contrário, esperançosa por encontrar alguma placa indicativa, um panfleto, um rabisco qualquer que a desse uma ideia de que galáxia era aquela, se bem que, no fundo, já suspeitava. Não teve tempo, porém, de completar a seu desejo, pois uma porta abriu ao lado e foi tragada para o espaço. Suspirando profundamente e pensando que era bom tentar não entrar em pânico, desta vez, apertou o dispositivo dimensional, torcendo desesperadamente para ir parar em um mundo mais normal.

Improbabilidade Entre ÁtomosStories to obsess over. Discover now